epígrafe

um fabricante de violino, assim diz a história, foi questionado sobre como ele fazia um violino. sempre começava, respondeu, com um pedaço de madeira e então removia tudo o que não fazia parte do violino. há muito essa tem sido a minha metáfora favorita para a produção de ficção, mas com a ressalva de que um escritor também é responsável pelo trabalho de fazer o pedaço de madeira. o que pode, a princípio, ser bastante difícil, para não mencionar solitário.

William Gibson, Vancouver, 02/2016.

de verdade, achei que esta entrada seria a respeito de como escrever é um processo de pensamento e que, afinal, não é possível fazer uma coisa sem a outra. pensar sem escrever, escrever sem pensar, sabe? e acabei de provar, mesmo que só pra mim mesmo, que a tese se sustenta.

a coisa que decidi fazer, no entanto, é postar o último roteiro que escrevi (depois deste escrevi outro, mas foi atendendo ao “pedido” de alguém e não considero o resultado digno de ser chamado de história). já faz um tempinho mas continuo gostando dele… o que não o torna necessariamente bom, só confirma que meu gosto pode ser discutível.

taí:

RASURA 01

O SONHO DE ASTÉRION

A.Moraes

01 – Vamos experimentar com o ponto de vista de Astérion (ou o Minotauro, aquele do labirinto) e, como o sujeito tem olhos nas laterais da cabeça, talvez devêssemos pensar em uma perspectiva deformada para os 3 primeiros painéis desta história. O que ele vê: uma corrida de touros pelas ruas de uma cidade qualquer. Tanto pode ser algo que está acontecendo em Madri quanto numa das nossas próprias, como a famigerada “farra do boi” (em que todo mundo farreia, menos o boi, óbvio). Os animais sendo perseguidos pelas pessoas por ruas estreitas até ficarem apavorados o bastante para perseguirem os que há pouco os perseguiam.

REC.01: ASTÉRION DESCONHECE A DIFERENÇA ENTRE SONHO E REALIDADE.

REC. 02: NESTE, TUDO É VELOZ DEMAIS.

02 – Aqui e no próximo painel, mostramos os pontos de vista se alternando. Neste o par de chifres do touro serve como alça de mira enquanto ele investe contra um sujeito assustado.

REC.: ORA ELE VÊ COMO UM…

03 – Invertemos só que com o ponto de vista do sujeito do painel anterior que, neste aqui, está sendo erguido pelos chifres daquele mesmo boi.

REC.: …ORA, OUTRO.

04 – Tira estreita como as que apareciam no pé das páginas de LITTLE NEMO IN SLUMBERLAND, mostrando o Minotauro ainda criança (com cabeça de bezerro) despencado de seu berço com as pernas embaraçadas num lençol. O berço é uma versão primitiva daqueles que balançam para ajudar a ninar a criança. Projeto e execução do sujeito que deve aparecer, nunca completamente, na sequência.

DAEDALUS: ACORDOU, MEU BEBÊ?

05 –  Daedalus apanhando o Minotauro no colo e tendo dificuldade de erguê-lo (podemos imaginá-lo como uma criança de quatro ou cinco anos). Não mostramos o rosto de nosso inventor-arquiteto-engenheiro de plantão.

DAEDALUS: VAMOS, ALEGRE-SE. ACABEI DE DESENHAR SUA FUTURA CASA.

06 – Por entre as cabeças de Daedalus e do Minotauro, vemos a planta do labirinto, que repousa sobre uma mesa de trabalho na oficina do inventor: pense no projeto/desenho como um fractal a seu próprio modo.

DAEDALUS: QUANDO ESTIVER MORANDO LÁ, O REI MAU NÃO VAI MAIS TE FERIR.

07 –  A visão que o Minotauro tem de Daedalus: um borrão, uma rasura sem feições humanas.

ASTÉRION: PAPA! (Se tiver condições, encaixar a palavra grega pra “papai”, de preferência em grego, mesmo).

DAEDALUS: TAMBÉM SENTIREI SUA FALTA, QUERIDO.

 

primeira pedra-aaa-aaa-aaa

quando uma newsletter nova aparece na caixa de entrada, pergunto de imediato: por que assinei isso? quero ler a respeito de mais uma viagem ao redor de um (aliteração) umbigo ou sobre como a saúde do emissor deteriorou recentemente? (não esqueci do que eu mesmo escrevi na última entrada… que graça teria criticar outrem sem ter teto de vidro?)

acabei de lembrar o motivo de desgostar de outra coisa que não vale à pena mencionar; livre associação de ideias com a expressão final do período entre parênteses; virou o título do que quer que seja isto aqui.

andei aprendendo um ou outro truque novo. estudar à distância pode ser algo interessante de se fazer, principalmente quando é algum curso auto instrucional. ter que lidar com outras pessoas é péssimo.

apesar de, como sugeri, ter aprendido uma ou outra coisa, continuo sofrendo com a falta de assunto. sempre tenho a impressão de que os melhores textos em que consigo pensar podem ser escritos em 140 caracteres ou menos.

de verdade!!!

quando sinto vontade de escrever um troço mais longo (esta entrada, por exemplo, tem proporções de épico) tento me segurar e sintetizar a parada,, deixá-la do tamanho de um tuíte.

que nem quando li O ESCULTOR, por exemplo. daria pra escrever uma porrada de coisas sobre o livro do McCloud (quase certeza absoluta de que um monte de gente fez exatamente isso, não me preocupei em checar) mas pra quê?

se dois tuítes resolvem? 280 caracteres ou menos?

economia.

síntese.

não consigo pensar em coisa mais elegante.

(aqui entre nós: O ESCULTOR é um gibi bacana mas desacostumei dessas narrativas intermináveis – não se engane que o Scott a leva muito bem – e cismo um pouco com a necessidade de quase 600 páginas pra contar aquela história… pega, mesmo vendo que o cara põe em prática as premissas que estabeleceu em sua trilogia metalinguística sobre quadrinhos… história em quadrinhos ideal seria a curta e bem feita. duas coisas difíceis de conjugar na conjuntura umbiguíca em que nos encontramos.)

novamente outra vez de novo

exagerar o pleonasmo é meu jeito de dizer que sinto falta dessa merda, dessa porcaria que é escrever… também tem a ver com minha incapacidade, meu modo junky de encarar a escritura… além, é claro, de fazer uma referência pseudo-literária ou cinematográfica ou só imaginária mesmo ao bom e velho dr. Bond.

escrever agora por qual motivo?

para dizer que posso escrever novamente, quem sabe.

entre fevereiro e setembro do ano passado, não escrevi porque, sabe como é, não quis.

em setembro desenvolvi uma hérnia de disco que afeta magicamente meu braço dominante o que ocasiona alguns momentos (felizmente mais esparsos agora) de profunda agonia, de dor lancinante e mais uma ou duas expressões dramáticas que reforcem a ideia já exposta.

no presente: a fisioterapia tem funcionado e os exercícios de pilates não são mais uma tortura completa. meus músculos continuam sem muito tônus, ainda preciso lembrar de fazer a manutenção de uma postura ereta mas já não sinto dor quando deito e consigo pegar no sono independentemente de quanto analgésico/anti-inflamatório/relaxante muscular tomei.

apesar de me sentir como um figurante de THE WALKING DEAD minha aparência é um pouco melhor.

 

 

13 fev 2015 12h49

já falei da cadela velha e rouca que me persegue sempre que passo por seu território? chega a caminhar um ou dois metros antes de desistir mas ainda late um tiquinho até que deixe de estar ao alcance de minha audição. a primeira vez… foi durante o dia, acho. se no fim da manhã ou da tarde, não lembro. nas duas últimas semanas, duas vezes à noite. é quase engraçado mas muito mais triste. acredito que o animal perca o fôlego ou algo assim. imaginei-a fumante, com calos nas cordas vocais ou carregando um daqueles típicos cilindros de oxigênio das pessoas com deficiências respiratórias… triste e engraçado ao mesmo tempo agora.

Moraes, transmitindo do limbo infraespacial localizado entre o cérebro em repouso e as falanges em movimento.

Ensaio

o que chamou minha atenção para Eleanor Catton foi sua presença na FLIP, a divulgação do lançamento do tijolaço OS LUMINARES, um par de entrevistas breves em segmentos especializados do telejornalismo e uma semelhança tênue com outra mulher de sua faixa etária por quem me apaixonei, desapaixonei, apaixonei, desapaixonei… bom, é complicado.

na Bienal do Livro deste ano peguei uma cópia do supra e descobri, pro meu espanto, que havia outro dela já editado nestas plagas.

terminei de ler O ENSAIO há uma semana e saí da experiência sabendo que o livro dialoga com vários interesses pessoais meus além de alguns aspectos de experiência profissional.

o paralelo mais óbvio em que consigo pensar se dá com o filme A FLOR DA PELE, em que as personagens atribuem-se papéis e os interpretam,  contando com a dúvida do espectador (eles estão interpretando? desde quando? ou estão sendo eles mesmos? quando pararam de interpretar?) pra tornar a narrativa mais interessante.

mesma coisa com o bendito livrinho.

quem acompanha minha desculpa de blog sabe como ganho a vida (aaargh!) e também porque o tema, a origem da narrativa bifurcada me interessa: professor de música tem caso com aluna do ensino médio e toda confusão que daí deriva.

o tratamento dado por Eleanor não é o mais fácil nem o mais óbvio. as personagens questionam as relações de poder em funcionamento entre homem mais velho, mulher mais jovem e fazem perguntas interessantes: quem se perde, afinal? a menina ou o homem? quem sacrifica mais pra estar com o outro, quem corre mais riscos, quem aposta mais alto?

o escândalo sexual, apesar de ser o eixo sobre o qual as duas linhas narrativas se movem, não é o mais importante. o texto está carregado de questionamentos profundos a respeito da natureza e finalidade das artes (dramaturgia e música) e dos limites do real e do ficcional.

narrador no hospício

Uma possibilidade em que não havia pensado e não pensaria se não tentasse pensar como outra pessoa é que, talvez, ela não tenha lido a carta escrita nas páginas do livro.

Se o livro nunca chegou a suas mãos?

Se ela sequer soube dos sentimentos dele?

Tudo é possível – pensei em escrever “todas as possibilidades possíveis” mas melhor não.

Apesar de esse questionamento ter força e apelo como princípio de algo metalinguístico, não seria fácil encaixar numa narrativa ortodoxa… tergiversação demasiada, acho. Tudo que poderia ser interessante fica chato, antimidas, eu mesmo critiquei o excesso de reflexão numa narrativa, a falta de desenvolvimento numa situação em que o pensamento torna-se protagonista ou mais protagonista do que o protagonista.

Ele poderia ser o narrador e, se fosse essa minha opção, teria que concebê-lo como narrador não-confiável e só nisso já acrescentaria uma camada significativa na narrativa pretendida.

Talvez pudesse determinar o espaço ocupado pelo “herói” como um manicômio, um hospício, e ele ocuparia boa parte do tempo tentando lembrar como foi parar ali. A própria carta me inspira a pensar nesta direção. O “herói” tem uma autoimagem deformada pois escreve que sonhou com uma versão melhorada de si mesmo, “nos eixos”.

Daí essa noção: narrador no hospício.

risco(s)

Faz uns anos (talvez só um par ou um par de três ou ainda mais) que comprei um livro do P4u1 4u$73r, aquisição típica, já que é um dos contemporâneos que acerta mais do que erra em escolhas e temas que casam com meu gosto, e, por tratar-se de livro usado, corri o risco de receber mais do que aquilo pelo que paguei.

Convém esclarecer: em meu primeiro ano de faculdade assisti a uma aula magna de jornalismo (apesar de não ser esse meu curso), instado pela professora de Análise do Discurso, em que o Marcos Faerman discorreu sobre diversos assuntos, inclusive sobre a importância da leitura, as idiossincrasias de comprar livros usados que vinham, inevitável, com marcadores de páginas esdrúxulos (fatia de salame, pente de bolso e assim por diante), a importância e influência de sua amizade com Geraldo Galvão Ferraz (que lhe apresentou, entre outras coisas, a prosa lovecraftiana) e mais uma ou duas ou Pi curiosidades.

O livro, então, é um daqueles personalizados, não por ter vindo com uma fatia de embutido ou um acessório de estética marcando suas páginas, mas por ter o que me pareceram riscos a princípio e que, depois, percebi, trata-se do começo de uma carta esboçado em páginas que seriam aleatórias se não fossem inícios de capítulos que, por isso, oferecem mais espaços nos quais escrever. Ele riscou, melhor, escreveu com caneta vermelha. Na minha imaginação trata-se de um “ele” separado de sua “ela” por condições além de seu controle.

Sempre que tento começar a leitura do livro me pego distraído, assombrado por algo que só existe em duas páginas e adquire mais importância do que qualquer ficção presente nas outras tantas escritas pelo tal autor.

É quase engraçado que os temas do dito escritor envolvam tanta metalinguagem. É signo da inteligência do homem que usou seu livro como papel de carta ter escolhido justo um livro deste sujeito pra servir a seu propósito.

O que enfia uma faca entre minhas costelas e a torce, devagar, na tentativa de atingir qualquer órgão vital que eu porventura tenha, é que a ”ela” d”ele” tenha se livrado do livro.