Arquivo do mês: junho 2009

free!

o blog novo do Rick Johnston, subvencionado pela Avatar Press (que tá publicando uns materiais bacanas, como Ignition City e graphic novellas – número de páginas parecido com as bds mas com começo, meio e fim), tá mandando bem, também…

este findi (ou começodi) ele tacou lá o link prisso aqui. dum autor que conheço pouco – mas o que conheço é muito bom -, é polêmico (talvez por causa da misoginia) e um dos poucos independentes de verdade com alcance internacional. é o Sim fazendo um lance parecido com o que o Antonio fez com um gibi pornô há muitos invernos…

também tá valendo ler as colunas do Warren, Do anything, já na 004. fora isso, fofocas, denúncias, notícias, entrevistas e, claro, uma alternativa pros sites sobre quadrinhos heroicocêntricos.

Life

na última quarta uma das poucas séries policiais que acompanhava com gosto na tevê terminou.

LIFE narra a trajetória de Charlie Crews (Damien Lewis, de BAND OF BROTHERS, brilhante como sempre), policial que, após ser preso e cumprir doze anos de sentença injustamente pelo assassinato de seu sócio-amigo e família, é solto depois da reabertura do caso com base em avanços das técnicas de análise de cenas de crime e recebe uma indenização monstruosa do governo, além de ter seu cargo como detetive restituído.

a estrutura narrativa, muito parecida com séries de mídias distintas, tem caráter episódico, tramas que se encerram num capítulo e um plot subjacente que consiste na investigação de Crews de seu próprio caso: quem teria interesse em tirá-lo de circulação por tanto tempo?

uma das idiossincrasias que torna esta personagem única é o mistério de sua sobrevivência na prisão. policial preso por doze anos injustamente? o cara seria morto, enlouqueceria ou sairia transformado num criminoso de verdade. aí entra o talento de Lewis pra emprestar veracidade à persona excêntrica de Crews. ele aprende zen na cadeia. um autodidata. depois de incontáveis lutas e passagens pela enfermaria do presídio sempre acompanhado pelo agressor da hora em pior estado, Crews ganha o respeito dos demais prisioneiros, aliados sui generis prum detetive de polícia, além de um conjunto inédito de técnicas e novas ferramentas de trabalho.

não é a história de um policial violento, mas de um cara que quer saber. eu diria que a maior habilidade de Charlie é seu poder de observação e acrescentaria, com tranqüilidade, que o trato zen adquirido o ajuda a ver além da superfície, o subjacente, e pensar fora da caixa.

quem veio aqui atrás de quadrinhos, dois links conectados de um jeito gozado. ambos saqueados do CBR, que apresenta artigos diversos. este aqui saiu de um em que Steve Lieber comenta este trampo… é um tipo de apresentação de novos talentos por ‘veteranos’. o outro, da coluna de Steven Grant, que mandou seus leitores prum .pdf de Lieber e Jeff Parker.

vai lá olhar.

quaerens

conteúdo não é essencial pro entretenimento. cultura muito menos. ter a pretensão de fazer pensar então… foda.

estarrecido com o que leio na web e experiencio no dia-a-dia. quando consigo controlar a repulsa e não tenho convulsões consecutivas me debatendo e correndo o risco de fratura craniana no assoalho frio de casa ou no concreto dos corredores escolares assistindo às aberrações textuais e atitudes arbitrárias-abusivas dos ‘colegas’, quase me sinto normal… recorro à memória e repriso filmes inteiros ou sobreponho bons textos àqueles na tela. é onde acontece a vida, de verdade.

memória e reflexão. versus o quê? certezas absolutas, assertivas bombásticas, falas impactantes e desprovidas de… sentido?

pra aliviar a pressão, uns anos atrás, recorri ao rabino Bonder. Nilton Bonder. as renarrações da tradição judaica me deram algo diferente pra pensar. o autoquestionamento tornou-se essencial pra mim. me enchi de dúvidas sobre tudo e todos. descobri, maravilha das maravilhas, a palavra endorcismo. flashes do oráculo de Delfos e do véio Sun-Tzu. ‘conhece-te a ti mesmo’, ‘conhece teu inimigo’ (que no meu caso dá na mesma).

sentido não é essencial.

presencio isso numa base diária. a gente cria o sentido que quiser do caos de relações e idas e vindas. meus mestres estão mortos e tento manter contato. entrar na cabeça de pessoas que viveram, às vezes, há centenas ou milhares de anos não é imprescindível. Douglas, que tá vivo, garante que partituras, escritos e pinturas são instantâneos do que se passava com eles.

fico com Steiner que, gozado, defende a dúvida. claro que ele preza a tradição judaica que é, essencialmente, sobre interpretações. cabala e tudo mais. juntamos elementos soltos. o sentido acontece em nossos pensamentos.

lutando pra devolver o sapiens ao homo, me torno quaerens.

pra quê?

já sentiu jetlag mental?

meu dia-a-dia é assim. corpo num ritmo, cérebro noutro(a). quando parece que vou começar a pensar o dia acaba, não é mais o mesmo e ainda assim é hoje. tentando fazer catching-up com a idéia de sinergia que tava me mantendo coerente até ano passado… no deal until now.

feriado prolongado. tentei aproveitar e adiantar alguma leitura. muita coisa descartável a ser passada adiante em breve, deus sabe como o apê tá apertado, mas desencavei uns troços que nem lembrava que tavam por aqui e li.

LA VELOCIDAD DE LAS COSAS, do Rodrigo Frésan, por exemplo, coletânea de contos, pero no mucho, com histórias excelentes e, até, alguns insights sobre supas, entre outras tantas referências à cultura pop… mas, peraí, supa são pop? really? me gusta particularmente o estilo do sujeito. às vezes sequer se faz necessário que haja um plot.

uma outra coletânea, antiqüíssima, só que de ensaios e de outro autor, Montaigne. gozado ler a dedicatória do sujeito. mesmas preocupações que a maioria de nosotros hoje em dia, exceto que o cara escreveu (ou publicou, não tou bem certo) em 1580.

hq? retomei a leitura de BLACK DOSSIER. o que gosto nas histórias dos Extraordinary Gentlemen é que o véio Alan já anunciava essa idéia num texto que foi publicado, xaver, na edição do Pantanoso da MP. ele adorava e comparava a LJA, como conceito, com uma junta de todos os protagonistas dos romances de aventuras.

(re)li o primeiro volume de SHADE, THE CHANGING MAN. 19 anos, héin? primeira vez que leio essas histórias em inglês, daí o ‘re’. Chris Bachallo tava começando a se tornar um desenhista que chamaria atenção… lá pela metade do run dele neste gibi o cara tava matando a pau. aí ele foi pra Marvel… aí fodeu tudo.

li o preview de CACHALOTE que saiu na Piauí. tinha lido umas hqs do Rafa Coutinho nos poucos números que consegui da Sociedade Radioativa e visto que o cara era sério… não, não no sentido de ser chato… com o trampo, mesmo. dá pra ver na prévia que ele continua num crescendo.

com tanta coisa pra ler, pra quê perder tempo escrevendo, certo?

2ª viagem

em um planeta distante anos-luz daqui, em outra época, me disseram que, como colaborador de uma daquelas revistas que nunca vieram a ser, eu deveria adaptar algum conto em prosa pra quadrinhos… todo mundo já tinha feito o seu, menos eu. ‘fácil’, pensei, e antes que me desse conta já tinha xerocado e mandado por snailmail o texto eleito.

escolhi o dito cujo porque o plot girava em torno do mundo do boxe nos anos 50. porque o autor era (ainda é) um dos meus preferidos.

quase dez anos foram pro saco, a tal revista parece pertencer a outra encarnação e torço pra que, numa realidade paralela, os autores tenham enchido o rabo de dinheiro com ela, e eu nunca adaptei o conto. fiz toda pesquisa que devia, claro… nunca me dei ao trabalho.

o que é mais fascinante mesmo, e já comentei isso com alguém numa dessas conversas fortuitas no msn, é o fato de Cortazar ter criado uma história de fantasmas, assombração, possessão em que essas palavras nunca são mencionadas. ao invés disso, o narrador gira ao redor dos conceitos, evitando-os e desferindo jabs, upper-cuts e diretos sem nunca atingi-los.

uma pequena obra-prima. não, não lembro em que livro saiu, apesar de tê-lo relido há pouco.

not the end

a história de Lucas, como vocês devem ter notado, não acabou. esclarecimentos sobre seu destino poderão ser encontrados, em breve, aqui.

as coisas mudam.

be my guest.

food…

…for thought:

“Narrar algo significa, na verdade, ter algo especial a dizer, e justamente isso é impedido pelo mundo administrado, pela estandartização e pela mesmidade.”

(Theodor Adorno in ‘Posição do narrador no romance contemporâneo’, na tradução de Modesto Carone.)