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distante

há pouco vi uma fotografia no tumblr que me fez lembrar de ALINA REYES, A DISTANTE, um dos primeiros contos de Julio Cortazar que li. menção gratuita?

sem muito sucesso, tento manter-me mais adepto do uso de canetas e lápis do que de ferramentas de escrita digitais. estas dão a noção equivocada de que o que se escreve deve ser publicado em um ou outro formato. o esforço de arrastar caneta ou lápis no papel já se provou mais que útil trocentas vezes, impedindo-me de passar por situações vexatórias desnecessárias em que afirmo o óbvio ou erro demais na digitação.

dois livros que li recentemente trazem na contracapa blurbs do autor dominicano Junot Díaz, dos meus contemporâneos preferidos, e duvido que tenha sido por acaso. também não por acaso Díaz ganhou o Pulitzer há uns anos com o romance A FANTÁSTICA VIDA BREVE DE OSCAR WAO em que mixa (mi/ki/ça) cultura nerd de montão (mormente quadrinhos) com a experiência dominicana sob Trujillo. ou algo assim. antes dele Chabon já tinha escrito seu hino aos quadrinhos (que também levou o Pulitzer) e acabou envolvido na produção dos mesmos, autorizando a criação de narrativas gráficas do personagem dos quadrinhos em seu romance AS INCRÍVEIS AVENTURAS DE KAVALIER E CLAY. certa tendência de premiar livros que tratem da cultura pop? o escritor que, no entanto, mergulhou mais fundo no mundo dos comics foi Jonathan Lethem, autor do calhamaço A FORTALEZA DA SOLIDÃO, outro hino aos quadrinhos e cultura geek geral (com mais destaque aos livros baratos de fc, outra obsessão de Lethem), que foi convidado pela Marvel pra escrever OMEGA THE UNKNOWN, ilustrado, como se diz?, majestosamente por Farel Dalrymple e Gary Panter. surpresa pra mim – mas nem tanto – foi encontrar versão nova do livro mais recente do camarada Díaz na amazon. o diferencial? ilustrações de Jayme Hernandez pros contos novos de É ASSIM QUE VOCÊ A PERDE (THIS IS HOW YOU LOSE HER).

vês o problema de escrever usando ferramentas digitais?

é fácil se distrair, perder atenção e foco, distanciar-se do texto.

ambos livros lidos com citações de Junot são histórias em quadrinhos.

o 1º é BATTLING BOY, de Paul Pope, e quem costuma frequentar aqui, apesar do abandono, está familiarizado com o nome – ou deveria estar –  já que é um dos cartunistas atuais que mais inspira por seu senso de design e capacidade de imprimir velocidade a manchas estáticas no papel. o fato do cara ter produzido esta ogn visando o público juvenil (a mesma idade que lia Harry Potter, lê Rick Riordan etc) diz muito mais a seu respeito do que qualquer coisa que eu possa escrever. o gibi é bom e eu queria as camisetas do personagem título se as houvesse em preto.

o 2º é RASL, de Jeff Smith (o mesmo de BONE), um livrão indie cabuloso que experimenta com uma combinação diferente de gêneros: fc e noir. não é história pra criança, embora nada impeça que um moleque inteligente de 12 anos digira a narrativa sem problemas, mas seria mais apreciada por alguém um pouco mais maduro, com repertório maior de leitura, e capaz de apreciar os truques de Smith. o fato de Nicola Tesla figurar proeminentemente na história só acrescenta uma cereja ao bolo.

garanto que não tinha a menor intenção de escrever tanto.

culpe as ferramentas digitais.

quero mesmo distância dessas joças.

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Heresia

No primeiro ano do curso superior lemos O ESTRANGEIRO, de Camus, na aula de teoria literária. É um bom livro, com um narrador impressionante, em 1ª pessoa tão convincente que uma colega da turma pensou que fosse o próprio Camus narrando experiências vividas por ele. Não adiantou muito argumentar com ela. Não gostava do autor porque não gostava de Mersault. Nada pode ser feito para que mudasse de opinião.

Há um ou dois anos, lendo MAPS AND LEGENDS, de Chabon, encontrei o registro de diversas experiências do autor com situações semelhantes. Pessoas preocupadas com seu vício em drogas, com sua homossexualidade (interessante como a sociedade homofóbica não se preocupa com as diversas formas que a heterossexualidade pode assumir), ou que tinham avistado, em cruzeiro de navio, a comunidade fictícia de Sitka, Alaska, em que os judeus se refugiaram ao fim da 2ª Guerra no universo paralelo de ASSOCIAÇÃO DE POLÍCIA JUDAÍCA, do mesmo autor.

Todos exemplos recentes de como a realidade pessoal dos leitores pode ser sobreposta pela dos livros.

Então na última sexta estava lendo O QUEIJO E OS VERMES, de Ginzburg, e descobri que o moleiro Menochio, réu em dois processos da Inquisição, fundou sua heresia na discussão e leitura de livros, entre os quais O DECAMERON.

É bacana descobrir esse tipo de coisa.

Como a ficção afeta a realidade?

Um tema em que pensar.

Rasura

Michael Chabon escreve num dos ensaios de MAPS AND LEGENDS a respeito de como, pra alguns leitores, os limites entre realidade e ficção são borrados, incertos. Relata a anedota de uma senhora que lhe contou ter avistado a fictícia comunidade judaica de Sitka (a ilha existe, mind you, a tal comunidade só mesmo em ‘The yidish police union’) no Alaska, num cruzeiro de férias. Outros perguntaram a respeito de sua homossexualidade (por causa do protagonista de ‘Usina de sonhos’); de sua dependência química (Garotos incríveis); ou falaram de como colecionaram e leram os gibis do Escapista (muito antes da Dark Horse ter lançado sua antologia, na época do lançamento de ‘As incríveis aventuras de Kavalier e Clay’).

Aquele chavão do pôster de ‘Arquivo X’ que se via na parede da sala do agente Mulder é a realidade de muita, muita gente. As pessoas QUEREM acreditar.

Foi um comentário no Labirinto sobre ‘o segundo sol’ que afrouxou ou apertou alguns parafusos na cachola e, acho, me pôs pra pensar. Coisa terrível de acontecer logo quando tenho uma folga do trampo secular.

Pra chegar no ponto em que quero preciso falar da origem do tal texto. Saca a Cássia Eller? Pois é, eu gostava muito da interpretação que ela dava a uma canção que, se não me engano, tinha o mesmo título. Na época em que martelei a keyboard e produzi a bagaça, tava lendo ‘A nova inquisição’, do Robert Anton Wilson, que é mais ou menos como um update de ‘O livro dos danados’, de Charles Fort.

O velho Chuck, pra quem não sabe, é o patrono de todo crank, todo maluco por teorias de conspiração and so on.

E o Zé Renato me lembrou da tal história de Nemêsis, o anti-sol, no último fds.

Então peguei aqueles exemplos de fenômenos inexplicáveis que casavam com a idéia geral de ‘sinal dos tempos’ da alegoria bíblica, um pouco do humor escatológico da coisa, as alfinetadas na ciência convencional, que no começo do séc. XX recusava-se (e ainda ignora boa parte deles) a examinar os ditos cujos e juntei da melhor maneira que pude, dentro dos meus recursos limitados de digitador, acrescentando, como toque final, a idéia de que a ‘realidade’ ou o universo em que vivemos nada mais é que um holograma… essa roubada de David Bohm e Philip K. Dick.

É. Ficção… talvez não seja assim tão distante do ‘real’, ou o que se passa por isso nowadays. Foda-se. Que seja premonitório, então. Pelo menos pra mim. Quero escrever sobre o que acontece depois do fim. Nova ficção pós-fim-do-mundo. É o que há.

Enquanto ela não chega, olha isso aqui.

grrrr

 
eu sei que pode parecer ridículo, que no mais das vezes minhas pretensão e arrogância (demasiado humano, no less!) me fazem parecer o que de fato não penso ser, que meu gosto estético-artístico-bullshítico é no mínimo arbitrário, mas aí vai:
 
eu tenho comprado gibis da Panini. mais esquisito ainda, tenho gostado de lê-los. além dos que Grant Morrison escreve (imbatível, como sempre).
 
não sei se vocês viram, mas essa editora tem publicado uma coleção de reedições de hqs ‘clássicas’ dos personagens medalhões da DC. os parênteses aí não são gratuitos porque tem umas tranqueiras dos anos 80 e 90 que eles enfiam junto com hqs mais interessantes tentando convencer o leitor de que o rótulo é cabível.
 
dessas reedições, a que é de longe mais cool é a do FLASH. quem acompanha CIDADE sabe que sou fã do personagem e até dei um jeitinho de colocar um look-a-like na trama.
 
cara! tem pelo menos duas histórias do John Broome na edição! John Broome é o equivalente quadrinhístico de Lewis Carroll, André Breton e Eugène Ionesco, porra!
 
no final de uma de suas histórias, Barry Allen olha na direção do leitor e FALA COM ELE! em outra, acho que com roteiro de Cary Bates, o Flash encontra com Julles Schwartz, editor da DC na época e pede ajuda dele pra voltar à sua dimensão de origem! e, no final, Julles fica se perguntando que tipo de hq resultaria se ele resolvesse relatar os ‘acontecimentos’.
 
Broome, Schwartz and the like são os ancestrais dos meus autores contemporâneos preferidos. nas histórias compostas pelos sujeitos, valia tudo! ah, claro que não se pode esperar o uso da linguagem seqüencial de que um Eisner foi capaz uma ou duas décadas antes, mas é diversão nobrainner garantida.
a maior qualidade encontrada nas hqs de super-heróis é o escapismo. não precisam nem prestar atenção no que digo, leiam AS INCRÍVEIS AVENTURAS DE KAVALLIER & CLAY, do ganhador do Pullitzer Michael Chabon, que acerta em cheio reciclando as biografias de Siegel & Shuster e dando, não só à literatura mas também aos quadrinhos, o super-herói definitivo com o qual leitores de hqs de supas podem identificar-se sem maiores problemas: o Escapista!
claro que há sempre a possibilidade de enxergar metáforas, mitos e toda a merda que se quiser imaginar nesse tipo de hq, perfeitamente aberto ao repertório do leitor. pena que a maioria dos autores de quadrinhos de supas hoje em dia leve a coisa tão a sério e queira acrescentar um verniz desnecessário de ‘realismo’ (rá!) ao que deveria ser diversão no sentido mais estrito da palavra.
 
mais que fã de histórias em quadrinhos, sou fã de metalinguagem em qualquer mídia.