Arquivo do mês: junho 2013

basta a coisa

o que basta pra mudar de ideia a respeito dalgum entendimento milagroso?

jogá-lo no papel!

uma vez escrito o material adquire uma característica quase mágica de precisar-carecer-necessitar de correções…

enquanto apenas flutuava no líquido encefálico abundante, havia certa indecisão de como dar a coisa à luz, mas depois de transcrita e, ainda pior, publicada, a indecisão torna-se multidão e uma das primeiras correções que faria – se acreditasse em reencarnação e que tenho uma quantidade inacreditável de karma pra queimar – seria contradizer-me, negar a oposição entre escultura e escritura (já que escrever é descoberta e Michelangelo postula a descoberta da forma sob a pedra, nada há de contraditório. ou há?).

depois viriam as tentativas vãs de tentar tornar o texto mais claro – confesso certa compulsão no que diz respeito a este item em particular e que, depois de digitar e publicar o que quer que seja, tento não reler pra manter a sanidade e ganhar tempo necessário pra escrever outras peças de texto que não sejam correções de um texto primordial ad nauseam… um Murilo Rubião é mais que suficiente, certo?

não que haja termo de comparação.

e até esse último comentário poderia ser razão de mais um aparte que prolongaria ainda mais uma entrada que, óbvio, já começou obsoleta.

 

ótima companhia

vivendo a prestações com analgésicos como meus melhores amigos e tentando concatenar ideias, expressá-las com um mínimo de clareza etc e tal.

posso dizer que livros são amigos mais constantes que os analgésicos, apesar de não mais importantes, mind you, e que muita coisa dita agora já foi dita anteriormente em formas diversas e assim por diante.

tentei instintivamente nos últimos dias elaborar um texto baseado em comparações. sabia que um dos parâmetros devia ser a escultura, arte tão diferente da escrita quanto permitido. também sabia que me referiria à imagem clássica de Michelangelo (sobre seu David? não sei ao certo) de que “a obra já está na pedra, cabe ao escultor libertá-la” ou algo de mesmo valor…

em oposição a todas as assertivas a respeito de como a escrita revela a si mesma,  à escultura que surge quando se elimina o excesso da pedra… a escritura surge quando primeiro se cometem exageros, o escreve-escreve-escreve até descobrir-se do que se quer “falar” (ou sobre o que se quer escrever, que seja)… longe de ser ideia nova, lembro de tê-la pensado há pelo menos 20 anos, quando percebi que escrever me ajudava a pensar com mais clareza, a fixar conceitos e fazer associações que de outra forma não ocorreriam (ou pelo menos demorariam mais pra acontecerem). escrever é uma forma de investigação e acho suspeito quando alguém afirma já saber tudo que deve ocorrer numa história ou como divulgar uma notícia ou insuflar uma polêmica antes mesmo de deitar caneta ao papel…

então, é… a primeira fase de qualquer texto é a descoberta, o que exatamente queremos contar? pra isso necessitamos do excesso pois o excesso permite a descoberta, escrevemos pra descobrir sobre o que escrevemos (em que lugar do cérebro as palavras se agrupam e formam o pensamento? sei da existência da área de Brocca mas não é disso que tou falando)

a segunda fase, essa sim, é aparentada da escultura, o momento em que se decide a forma do texto, quais excessos serão tirados etc.

o grau de beleza da ideia toda só se revela quando penso que ecoo outras pessoas, melhores preparadas, como Walter Benjamin, Joyce Carol Oates e até, por que não, Joe Casey… ótima companhia se alguém me perguntasse.

como não…

digamos que você é um comerciante, o que significa ser proprietário de um estabelecimento que pode ou não florescer dependendo de sua capacidade de cativar um público e, muito básico, não o atrapalhar quando este estiver disposto a adquirir algum produto de sua seleção porque, claro, seu sustento depende de sua habilidade de mover unidades.

digamos, só pra formar uma imagem mental melhor – e porque, a propósito de nada, é ao que corresponde a realidade –  que seu estabelecimento comercial é uma grande banca de jornais que, entre outras coisas, é a única na região que traz hqs antes mais facilmente encontradas em outra lojas que minguaram até desaparecer ou, mais simples, decidiram que quadrinhos dão mais prejuízo do que lucro, o que seja, o que torna seu comércio praticamente um monopólio, exceto, também óbvio, pelo peso esmagador que o comércio eletrônico adquiriu recentemente.

um dos seus fregueses de mais longa data mas não tão mais frequente entra em sua banca, descobre um produto que quer em suas prateleiras, vai ao caixa pra pagar e sair o mais depressa possível de perto de você porque, verdade seja dita, já prefere fazer suas compras online ou em livrarias justamente pra evitar o aborrecimento de ouvir sua conversa fiada.

por você ser quem é, falha imediatamente ao tentar impedir o impulso de tentar o diálogo, dessa forma, ao perceber que seu freguês está lhe entregando o produto de sua prateleira junto com uma nota de R$50, engrena a primeira da série:

-Você gosta mesmo de quadrinhos, né?

o freguês, temendo a chuva de merda que certamente virá, opta pela saída lacônica:

-É.

você, agora que começou, não consegue mais se conter:

-Você não consegue viver sem isso…

e o coitado:

-Consigo, sim. É só um gibi.

nessa hora talvez fosse melhor recuar e repensar sua abordagem do cliente e da conversa mas, porra, por que não ir até o amargo fim e alienar esse filho-da-puta do cliente de vez pra que o cara não queira mais sequer passar pela calçada em que sua banca fica e dispara:

-O vício em quadrinhos é pior do que cigarro, né?

e o cara:

-Não, nada a ver.

e você:

-Cigarro é pior, então?

e ele:

-É.

e você:

-Mas é difícil largar o cigarro, não?

e ele:

-É.

e você:

-Cê continua fumando?

ele:

-Não.

você:

-Conseguiu parar, é? Reparei que não comprou mais cigarro comigo…

finalmente entregando o troco pro indivíduo que, aliviado, desembesta pra longe de sua banca curado do hábito de ler quadrinhos comprados lá.

 

submusings

enquanto lia um par de páginas de ANATOMY OF MELANCHOLY cruzei com o gerúndio “musing” e percebi que, faz tempo, não escrevo sobre a submusa – não que você, leitor do blog e observador das entradas esparsas que surgem na calada da noite de vez em nunca, saiba do que tou falando, uma vez que essa personagem particular só tem aparecido nos meus cadernos de nota analógicos, aqueles em que continuo escrevendo diariamente, religiosamente e mais um ou dois advérbios de modo que quiser acrescentar a seu gosto.

nunca cheguei a definir direito quais os poderes e funções da submusa, então, tomando como ponto de partida o verbo supra e não o substantivo, espera-se que o autor, quem quer que seja, envolvido pelo abraço da musa, sinta-se inspirado e mergulhe em reflexão (to muse, certo?) que levará a alguma forma de produção/expressão cultural (óbvio que isso depende do tipo de musa com quem o indivíduo em questão negociar).

por outro lado, o autor que esbarra com a submusa no coletivo tem, no máximo, um punhado de segundos para olhá-la e esquece em seguida de sua pele pálida, cabelos cacheados escuros e visual grunge genérico porque, por tratar-se da submusa, ela mais distrai que inspira.