Arquivo do mês: setembro 2008

Barney

entrei na última centena de páginas de A VERSÃO DE BARNEY já antecipando a tristeza que sentiria com a falta da companhia do velho e de sua narrativa arbitrária, errática, corroída pelo mal de Alzenheimer.

ele não lembra mais da ordem em que as coisas aconteceram nem consegue firmeza em suas referências literárias. mesmo assim sua voz reverbera em mim e apesar de sua ficcionalidade preciso registrar o quanto gostei do passeio, quanto apreciei seu humor ácido, cínico, sarcástico, grosso… a raiva que parece ser o movimento inicial da narrativa se metamorfoseia numa declaração de amor débil, patética e nem por isso menos bonita, à única mulher de sua vida (sem contar com as outras duas).

Barney é bêbado, desonesto, suspeito de um assassinato e caga e anda pra correção política. os personagens secundários têm brilho próprio, como o advogado e parceiro nas maratonas etílicas, os três filhos (um dos quais é responsável por notas de rodapé desnecessárias e hilariantes, além de um posfácio que me deixou tristíssimo) e sua amada Miriam, “chama de minha vida”.

o cenário é o canadá e a visão que se propagandeia não é a de Barney, que não se furta a criticar o fisiologismo estatal e a falta de tino administrativo do governo.

te faz lembrar de algum outro país?

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violence bleu

li o #2 de OORU esses dias… na verdade, há nove dias e, sim, sei que não é relevante, mas… tudo muda. há uma semana e dois dias, estava empenhado em fazer um catching up da leitura dos gibis bonellianos e mangás que se empilharam involuntariamente, as pilhas crescendo perigosamente, tornando-se instáveis, a ameaça de um desmoronamento e possível soterramento… seria eu uma vítima de morte por desabamento de hqs? a polpa das árvores conseguiria, afinal, a vingança do verde sobre um de seus maiores algozes acelerando o crescimento de material adquirido e não-lido como que por geração espontânea?

não ligo.

OORU é violento, a arte não é bonita e há caos pra dar e vender em suas páginas. ao contrário do que posso ter dado a entender, considero esta uma das hqs mais promissoras nas bancas hoje em dia.

a premissa é cabulosa: mangaká aposentado precocemente é procurado por seu ex-editor que tenta convencê-lo a voltar-se pra criação de um produto novo, dado o sucesso de sua história anterior. o acaso interfere na forma da yakuza, o que leva o ‘auteur’ a descobrir sua nova paixão, o canvas sobre o qual quer delinear sua próxima produção: o assassinato.

o editor vai de arrasto, ainda convencido de que pode fazê-lo mudar de idéia, servindo por vezes de alívio cômico (tanto quanto possível, que a parada é pesadíssima) e agindo, bom, como se espera que um editor aja, mas num contexto totalmente novo.

em OORU você vai encontrar um uso inusitado da metalinguagem, o exame cínico do processo criativo e o quanto o autor acha importante o que o leitor pensa de sua obra. de verdade? é uma bofetada com soco inglês na cara dos fanboys.

a única coisa que me faria enjoar da história (hipotético) é se, em algum momento futuro, o criador se deixar cair na rotina básica da maioria dos mangás… você sabe, é parecido com os níveis de dificuldade de um game, não? os problemas vão se tornando mais complexos e as soluções mais extremas.

por enquanto está bom.

água

não, não precisa se preocupar porque vou deixar a pontificação a respeito da importância da economia da preciosa substância que dá título à entrada de hoje pra, bom, outro dia.

isto aqui é mais um lembrete pra mim mesmo, meu eu-futuro, de não repetir, repito, NÃO REPETIR o que fiz na madrugada entre sexta e sábado passados. já me aproximo perigosamente da quarta dezena, se é que você me entende (clichê!), e preciso de todas as horas de sono disponíveis.

o efeito colateral mais evidente é que queimei várias sinapses (na verdade achei até que elas não existiam mais, redescobri as danadas escondidas nos recônditos de minha massa encefálica (?) e abusei de seu uso, então voltei à programação normal, o que não é de todo mal)… o aspecto negativo, digamos, foi a puta rebordosa… com razões causais suficientes, pra ser franco (clichê!).

o bacana é que esvaziei o prato de arte seqüencial a compor e abri espaço pras minhas novas diatribes.

andei fazendo catching-up de leitura, también, e diminui a pilha dos bonnelianos e mangás que ainda tenho saco de ler. qualquer hora devo postar uma daquelas coisas que se passam por resenhas quando tenho tempo de submeter a keyboard aos maus tratos tradicionais.

hm.

done

nunca escrevi um roteiro num dia só. tá, quando participava do projeto da ILHA DE FORTUNA, sim.

de 8 páginas foi o primeiro. numa só tacada. quer dizer, alguns intervalos pra café, cigarros e água. mas a idéia toda já estava madura o bastante pra colher e tudo terminou se encaixando, como o esperado.

agora é esperar o retorno do editor, possíveis sugestões de arestas a serem aparadas et al.

importante que me livrei disso e posso ocupar o espaço com a confecção das storylines de minhas graphic-nouvellettes.

over

Ela anda em minha direção, um de seus sorrisos tímidos, marca registrada de ontologia pessoal, verniz de mistério nutrido em silêncio. Desajeitado tento sair de seu caminho mas ela me alcança com voz partida (primeiro touché?) pelo medo.

Posso te dar um beijo?

(É o Vertigium deprimindo meu sistema nervoso central que faz com que me curve e lhe ofereça livre acesso à minha face?)

Claro.

Isso foi então. Agora apanho essa memória queimada sob a pele e ela quase escapa entre meus dedos. Quantos centímetros quadrados de nossos corpos se tocaram? Quantos mililitros de sua saliva ficaram em mim?

Espano um tanto do pó acumulado pelos anos e o descamar da pele, e tento esticar as inevitáveis rugas, cicatrizes de tristezas e felicidades pequeninas.

A memória ainda é bela e significativa.

Minha coordenação motora que nunca foi perfeita voltou mais ou menos ao normal desde que interrompi o consumo compulsivo do remédio e perdi mais de dez quilos. Reencontrei a graça nas palavras e ela veio a mim, a intenção do beijo cortando fundo carne e ossos.

Brinque com a memória.

Eu não poderia, acho, mesmo que tivesse o estímulo certo. A defasagem espaço-temporal era grande demais pra minhas pernas na época e seria moral e legalmente errado.

Agora posso tentar jogar esse jogo de representação, de atuação textual, esse jogo de palavras que, ao fim e ao cabo, me deixará exatamente no mesmo lugar que sou eu, ou que estou eu, ao menos no momento.

Tudo muda.

Eu mudo. Não falo, silencio.

Hoje talvez me arriscasse a aumentar a área de contato entre nossos corpos e satisfazer a fome que sinto pela pele dela. Hoje… posso olhar no espelho e lembrar de como eu era aos 23 anos. Como estava aos 23. exceto por todo cabelo que alimenta sabe-se lá o quê no solo rico dos aterros sanitários anônimos, cemitérios de meus cabelos há dez anos. E, claro, as cicatrizes já mencionadas. Olho no espelho e do outro lado ele (que gosto de imaginar como um animal fabuloso que mimetiza meus contornos) olha de volta. No abismo de sua íris castanha vejo a menina e seu olhar expressivo e seus cabelos claros e sua pele fresca vindo em minha direção e minha esquiva falha e minha coluna que se flexiona e o calor de seus lábios queimando minha pele e, não, não mudo coisa alguma.

Game over.

clique!

Diferente do que se pode pensar, minha atividade favorita não é escrever, mas, isso sim, negociar com os mortos, escarafunchar seus pensamentos e humores e percepções, fantasmas, instantâneos de consciência que, gosto muito de nutrir essa idéia-ilusão, mudaram com os anos e experiência.

Em troca dou-lhes meu tempo e o que um dia foram suas sacadas voltam a florescer e podem ser admirados de uma nova perspectiva enriquecida pela história e, quem sabe, colonizar mais umas tantas resmas de papel.

Quando alguém cita Shakespeare, e estou citando Borges, torna-se Shakespeare et al.

Isso aí.

Quanto à escritura, o frisson do clique! é o que me faz percorrer essa trilha tantas vezes, repetindo meus passos e rituais ainda mais arcaicos… a finalidade, o clique!, independe da qualidade do texto, tem a ver com penetrar essa zona de consciência em que conceitos disparatados e linhas narrativas ultrajantes de repente se encaixam e fazem sentido, inundando centros de prazer e recompensa com opióides endógenos, o verdadeiro pagamento.

O tesão real só chega mesmo quando tenho o ato tão bem trabalhado que posso variar o registro da linguagem a ponto de expressar as idéias em vozes diferentes, acrescentando uma camada de graça à coisa toda, ao processo.

Não tão fácil.

Sam Clemens disse tudo não num livro, numa carta, quando escreveu algo como, desculpe por escrever tanto, é que estou sem tempo pra escrever pouco. Taí, numa casca de noz: espaço-tempo e o que fazemos com essa matéria-prima está diretamente relacionado aos resultados que alcançamos.

Ter muito espaço e pouco tempo pra preenchê-lo produz material redundante, frouxo, sem graça. Ter muito tempo e pouco espaço dá uma frustração do caralho. Ficar sobre um texto que tem que resultar em duzentas palavras polindo e polindo, tirando excessos, adiposidade e que tais pode acidentalmente deixar de fora elementos preciosos. Nesse segundo caso o ponto de partida precisa ser claro e objetivo… pode rolar verborragia na hora de expressar uma idéia complexa e fica difícil dar um tom coloquial ao discurso.

O ideal (ilusão) é o equilíbrio, mas isso só se torna realidade com, veja só, experiência.

vingança

vi ontem a primeira parte da TRILOGIA DA VINGANÇA de Park Chan Wook. SR. VINGANÇA. as duas outras vi em ordem, segunda e terceira, mas cada história é auto-contida e pode ser apreciada independentemente sem prejuízo à compreensão.
 
os três filmes merecem atenção não por serem violentos, mas por fazerem um exame exaustivo do tema da retaliação. é exemplar em todos eles, recorrente até, que ‘de boas intenções o inferno está cheio’ sirva mais de uma vez como gatilho pras maiores atrocidades e que uma vingança leve a outra e a outra e, então, a mais outra ad nauseam…
 
a cada vez mais vermes são desenterrados e os sucessivos buracos pra escondê-los da vista do mundo tornam-se maiores.
 
OLD BOY tem um dos roteiros mais assustadoramente perfeitos ou perfeitamente assustadores que seu dinheiro pode comprar. e é baseado num mangá, o que não deixa de ser um bônus. LADY VINGANÇA é o único em que uma mão piedosa de catarse é mostrada, que há alguma condescendência com o espectador. é visualmente mais bonito também. gosto que haja mulheres em vários papéis importantes, não só como vítimas.
 
todos primam por uma narrativa não-linear sem os marcadores óbvios a que o espectador ocidental habituou-se a esperar.
 
a violência é naturalista, pouco estilizada… ninguém faz pose ao matar ou morrer. as ações são sujas, dolorosas, viscerais. pranto e ranger de dentes de montão, diferente e muito das fantasias escapistas de Quentin Tarantino, por exemplo.
 
não dá pra prever quem fará o quê. parafraseando a sabedoria popular, a ocasião faz o vilão.
 
rewind.
 
replay.