Arquivo do mês: novembro 2011

twrh – oriental

sr. Leung envergava o terno de três peças com graça e leveza. cabelo negro penteado com perfeição. quantos homens conseguem, vestindo-se assim, sentar-se sobre os calcanhares, beber saquê sem perder a elegância, desabotoar algumas casas do paletó e do colete, manter o cabelo alinhado? quantos atores conseguem transmitir tanto de maneira tão minimalista? se fosse oriental gostaria tanto de ruivas?

troubles with redheads – prévia

ele tentou calcular quantas ruivas exatamente tinham feito sua cabeça nos últimos 25 anos. mensurar era um dos recursos que o ajudavam a colocar tudo em perspectiva, inclusive seus sentimentos.

boa parte das vezes ficava a sensação de idiotice.

emoções e sentimentos não eram facilmente mensuráveis.

o que podia, sim, fazer, era uma tentativa – fadada ao fracasso – de minimizá-los ao escrevê-los, torná-los algo que fosse articulável, dizível, apreensível. não era tarefa fácil e talvez por isso decidiu não se esquivar dela.

a primeira, cristo, tinha sido quando? em 86? a última, ano passado?

mal conseguia ter certeza.

mulheres e tintura pra cabelo.

ruivas, nessa época estranha, eram cada vez mais raras. ruivas legítimas? quase uma espécie em extinção. lembrou de quando a 1ª lhe disse que queria tingir o cabelo e do terror absoluto. lembrou da última e da mensagem dizendo que já o tinha feito.

loiras e morenas.

o mundo era delas.

podia fazer muito pouco a respeito.

escrever.

lembrar de como era antes e das 10 mais entre as ruivas que conheceu e amou de um jeito ou de outro.

the books are on the table

pouco antes de contemplar a possibilidade de lançar-me ao vácuo verdejante da serra do mar ou continuar ouvindo ‘passos na areia’ estive no instituto Tomie Ohtake passando os olhos pela exposição sobre Chaplin e, antes disso, na Cultura do Villa.

foi lá que vi os livros na mesa.

liiivrooosss…

confesso que podem não ser tão atraentes quanto a edição nova da bíblia daquela editora católica – principalmente por não influenciarem o crescimento tardio de você-sabe-o-quê – mas livros têm em mim o mesmo efeito que O Anel tinha (ou será que ainda tem?) sobre Golum.

esses, naquela mesa, eram os clássicos de luxo da Penguim, e precisei trazer alguns comigo e deixar tantos mais pra trás ou pra outra ocasião. dos que acompanharam já mencionei o retelling dos ‘canterbury tales’ por Peter Ackroyd com capa e ilus do Nick Bantock; ‘we have always lived in the castle’, de Shirley Jackson com uma capa matadora de Thomas Ott e introdução de Jonathan Lethem; ‘one flew over the cuckoo’s nest’ de Ken Kesey, ilustrado pelo próprio, com capa de Joe Sacco, prefácio de Chuck Palahniuk e introdução de Robert Faggen.

dos que deixei pra trás com dor no coração, um que me atraiu de cara foi o ‘frankenstein’ da dona Shelley com capa do Daniel Clowes…. eeee, ‘gravity’s rainbow’, do Ruggles com capa do Frank Miller.

já que tou falando de livros, uma mulher nova entrou na minha vida. antes só conseguia pensar em Margaret Atwood ou Miranda Jully ou Annie Proulx como as verdadeiras donas de meu coração empedernido, mas descobri a Kate e, desde então, não consigo parar de ler e pensar nela. até agora só tive tempo de ler dois de seus livros e ambos são apaixonantes por motivos diferentes.

‘emocionalmente esquisito’ é over the top em termos de graça, de humor mesmo, mas ‘quando haverá boas notícias?’, 3º da série de Jackson Brodie, é um dos textos mais bacanas que li, sei lá, nos últimos 10 anos. antes que alguém pergunte (isso é só força de expressão, caro leitor inexistente), os dois primeiros não foram publicados no brésil. tampouco o 4º. isso pode ser facilmente remediado com uma visita a qualquer boa livraria virtual que trabalhe com importados (minha solução pra quase todas as ganas literárias inace$$ívei$ nos últimos tempos e praquelas que não existem na língua mãe).

no topo com ‘a versão de Barney’ e ‘menino de lugar nenhum’ e ‘madame oráculo’ por trazer um grupo de personagens de que comecei a sentir falta no momento em que fechei o livro.

quanto à narrativa, a coisa é inteligente demais e construída de modo a alternar o foco entre três dos personagens principais sem abrir mão do narrador onisciente. a graça do narrador onisciente, nesse caso, é que ele omite informações de modo casual e só depois de toda a trama estar devidamente amarrada, temos uma noção de como tudo se deu. a série de Jackson Brodie está classificada, em geral, como ficção policial, e este recurso supra me fez lembrar do sr. Holmes que, depois de revelar o culpado da vez explicava como tinha chegado a ele… mas as semelhanças entre o que Kate faz e ficção policial terminam por aí. claro, há crimes na história, mas também amor não declarado, desejo, frustração, humor, apetite, sono, dúvidas e quase tudo que nos faz humanos.

mais importante que qualquer coisa: Kate faz tudo isso parecer fácil.

que mulher.

occupying myself

no mesmo espírito das manifestações pacíficas (pelo menos por parte dos manifestantes, não tanto pelas força$ da lei) que têm tomado às ruas dos e. u. da a., decidi fazer algo similar comigo, já que minha disposição pra ocupar-me com exercícios físicos desaparece quando não tenho mínimas seis horas de sono. e ocupar-me é, de certa forma, um modo de escapar das tentações, agora que os spams me mostraram que preciso ser melhor cristão se quiser que meu pau cresça…

a epifania veio a cavalo ou na forma daquele dito popularesco do tempo da minha mãe: ‘cabeça vazia, oficina do diabo’. ou, como diria o Cândido de Voltaire, ‘convém cultivar nosso jardim’. óbvio pra você, leitor inexistente, que mesmo mantendo-me ocupado minha cabeça continua vazia e, por mais conveniente que seja cultivar um jardim, fica difícil quando se mora num apê a não ser que se faça isso no box do chuveiro, na pia da cozinha ou nalgum lugar menos salutar.

percebi que posso nutrir alguma esperança tardia quanto ao crescimento do mastruço hoje, voltando de sampa, folheando a versão recontada (por Peter Ackroyd) dos ‘canterbury tales’ enquanto nosso motorista ouvia ‘passos na areia’ (e fazíamos o mesmo, concordando tacitamente que ele não usasse fones de ouvido… sim, preferimos evitar acidentes) e não senti vontade de abrir a porta da van e lançar-me serra do mar abaixo sem equipamento de body jump ou de paraquedismo.

até certo ponto, o crítico que existe em mim (preciso dar um nome pra esse cara, já que ele me mantém ocupado… ou eu não estaria escrevendo tudo isso, certo?) achou a letra bem mais coerente do que muitas outras merdas pop contemporâneas (opa! eu fiz isso mesmo?).

e pápápá!

cansei de me ocupar. vou voltar aos ‘120 dias de sodoma’ depois do banho que ganho mais.

por acaso

tanto tempo sem digitar (maior parte da escrevinhação ainda feita na munheca e às custas de sabe-se lá quantas árvores… é, mesmo que o papel seja reciclado, não convém esquecer sua origem, mas, sim, pensar em quantas vezes ainda dá pra reciclá-lo) que quase consegui me convencer da perda do uso dos dois dedos com que cato milho. nada de novo. já quase me convenci de tantos outros absurdos… R.A.W. já falou bastante da capacidade humana de autoconvencimento ou autohipnose quando se opta por acreditar ou aceita-se sem qualquer espírito crítico algo socialmente imposto.

se, por exemplo, eu decidir acreditar em todo spam que pipoca em minha conta de email e pro qual nem olho mais antes de apagar, o tamanho do meu órgão reprodutor não é satisfatório e eu deveria ler a versão da Bíblia recém-publicada por uma editora católica. eu poderia, assim, me tornar criativo associando as duas ideias a ponto de achar que por ter um pau maior precisaria ser um cristão melhor.

as coisas em que escolhemos acreditar…

claro que o sistema de crenças inclui tudo que aceitamos como certo mas que termina funcionando na maior parte do tempo por puro acaso… o próprio corpo humano. é por acaso que ainda estou vivo, é por acaso que a simbiose da mitocôndria com a célula eucariótica tornou possível a vida multicelular à base de carbono como a conhecemos, é por acaso que alguns de nossos ancestrais aquáticos decidiram aventurar-se em terra firme…

é por acaso que ainda temos água potável e que as cidades e demais aglomerações de primatemaia disseminada não implodiram numa grande epidemia de uma coisa ou outra não plenamente manifesta por falta de, sei lá, um ingredientezinho mixuruca (higiene, hidratação, alimentação, qualidade do ar, privação dos raios do sol ou excesso de calor…. enfim, dá pra criar uma imagem com facilidade, não?)…

também por acaso ou por ter sido acometido por uma onda irremediável de preguiça que tamborilo a transmissão de hoje na solidão da escrivaninha e a envio ao deserto www.

lendo ‘o mapa fantasma’ e pensando em como as bactérias são superiores. inclusive em número, inclusive em esperteza. a maior armadilha em que o ser humano pode cair (e me incluo no gênero enquanto minhas parceiras microscópicas não se apossam de vez do meu cadáver) é acreditar em sua própria importância… ou que tudo faz sentido de uma forma ou outra… que o mundo deixaria de existir sem nós (pra nossa percepção? certamente!)