Arquivo do mês: fevereiro 2009

Nêssa

vanessa

Personagem de POÇO que digo o tempo todo que quero voltar a escrever. Essa é a versão do Jean Okada. Falamos disso e concordamos: ela parece uma pessoa que podemos encontrar na rua.

fim de ciclo

Com o fim da publicação de NAP no site do Daniel, mais uma fase da minha vida chega ao fim. É, uma HQ que escrevi ano passado. De verdade? Parece que foi em outra vida. Tanta coisa aconteceu de lá pra cá…

Quando falo em fim de fase é exatamente isso que quero dizer. A fase que essa HQ concluiu começou com um roteiro nunca desenhado intitulado BORBOLETA. Foi minha primeira tentativa de trazer o tema ‘percepção’ pruma narrativa gráfica.

Isso há quê? Dois anos?

Entre BORBOLETA e NAP escrevi mais três materiais que ampliavam os conceitos da primeira e redundaram na segunda. As histórias ATMAVICTU e POÇO, ambas desenhadas pelo Marcos Roberto, foram o desenvolvimento lógico de BORBOLETA.

O terceiro dos supracitados foi a série DESVIO e nela outros temas entraram pra fazer companhia à já citada ‘percepção’. Evolução e preconceito, por exemplo.

O que a maioria das pessoas ignora é que tudo contribui na produção de quem escreve. Cada minúsculo fragmento de informação. Chamemos de zeitgeist. Contexto sócio-histórico. Diga você.

No meio tempo entre o começo e o fim, também busquei aprender mais sobre ciências cognitivas (que considero a evolução da psicologia). Trabalhos de Steven Pinker, Daniel Dennet e John Searle foram consumidos avidamente.

A revista MENTE & CÉREBRO, também, mensalmente, e algumas edições especiais.

Claro que não dá pra ignorar a importância do uso da linguagem seqüencial na narrativa. Menos pessoas a leriam se tivesse optado por contá-la em prosa pura.

Só escrevi o roteiro. Toda a parte visual ficou a cargo do Daniel. Mérito dele a arte, as letras, a composição de páginas, enfim, todos os elementos visuais da HQ. Sim, letras, numa história em quadrinhos são paradoxalmente linguagem verbal e visual.

Saúde pra todos. Espero que acompanhar a história tenha sido agradável e que vocês se divirtam escolhendo o final que mais lhes agrade.

São Dargarius

saint_dargarius_at_panopticon1

primeira arte do irmão Léo A. praquela bendita história de 5 páginas escrita em janeiro.

Vez

 

Tava precisando desanuviar os sentidos, afrouxar a prisão da atenção, relaxar e acordar, mais uma vez, a fisiologia que esqueci, parte de mim mesmo que ficou pra escanteio.

 

Sabia que tambores de guerra japoneses tinham essa propriedade de mexer com minhas tripas, despertar instintos, estimular uma reação diante da pedreira intelectualóide em que eu mesmo me enfiei.

 

Só que o centenário já passou e duvido que vá conseguir sobreviver mais cem anos pra assistir outro show desses… acrescente aí a preguiça que é a tônica de tudo mais que faço e vai descobrir que sequer tenho vontade ou competência pra googlear ‘taiko’.

 

Tou com os caras. Eles pedem cerveja e fico em dúvida entre um suco natural e o café tradicional. Olho pros copos, pras garrafas… faz séculos que não bebo. Um problema orgânico me faz evitar o álcool.

 

Penso na ausência do taiko, tento lembrar como a cerveja caía bem muitas luas atrás… que instintos despertaria?

 

Peço um copo e começo. A pedra no lugar das minhas vísceras não reage. Mais um. A percepção continua a mesma, o mundo não parou de girar e, mais importante, não começou a girar só do meu ponto de vista.

 

Daí algumas coisas mínimas mudam. Percebo que não estou só. Há outros além dos caras. Melhor, outras. Me deixo levar pela observação, pelo fervilhar de gente. Mulheres, cores e tamanhos variados.

 

Isso me distrai, sinto a pedra dissolver. Não tenho idéia de quanto vai durar, então me dedico à atividade.

 

Mães, acompanhadas, em duplas, trios. O calor escaldante do sábado pede um mínimo de cobertura. Me sinto abençoado pela dádiva da visão.

 

Então…

 

Surpresa. Uma delas olha de volta. Sem essa de amor à primeira vista. Só aquela coisa de, hm, curiosidade. Sem tentativas de qualificar esse nome. Só… curiosidade.

 

Aquele espaço de segundos com nossos olhares travados fez o serviço. A pedra já era. As tripas se movem felizes. Ainda a acompanho mais um pouco, ritmo dos quadris, amor-próprio, receptividade…

 

Foi!

contínuo

Pra dizer como posso dizer o que pretendo dizer (redundante né?) e ter um receptor do outro lado da linha capaz de entender a mensagem, preciso contar com os poderes inerentes do continuísmo.

 

Quando falo em continuísmo (antes que alguém me corrija, sei que é continuidade) o que pipoca imediatamente são os supas e suas aventuras inesgotáveis… cada leitor de quadrinhos de super-heróis pra entender a cronologia de suas personagens preferidas a) depende de uma memória invejável ou b) faz uso constante da rede em busca de informações.

 

Michael Chabon ganhou um Pulitzer há uns anos escrevendo sobre sósias espirituais de Shuster & Siegel e sua criação ficcional, o Escapista. Pra mim este é o super-herói/metáfora definitivo no que concerne à função-fantasia do mundo seqüencial de cores primárias. Qual o poder do Escapista? Exato! E as pessoas estão dispostas a despender uma quantidade extraordinária de energia a fim de fugir da realidade.

 

É enrolado, mas se esforce um pouquinho que talvez o contorcionismo mental valha à pena.

 

Quem acompanha minhas elucubrações desde o começo sabe que são pouquíssimas parcerias nas HQs e, particularmente, nas HQbs, que me impressionam. E, depois dessa enrolação toda posso finalmente dar nomes aos bois, melhor, à equipe que conseguiu o feito. Mas antes nosso intervalo comercial, pero no mucho.

 

Posso me considerar privilegiado por no ano passado ter aproveitado o recesso entre semestres pra ir à Sampa garimpar livros e HQs. Numa dessas comics shops inevitáveis em que entrei tinha lá, na prateleira mais oculta possível, envergonhada até, um monte de gibis nacionais. Inclusive as edições de O CONTÍNUO do #4 em diante mais o especial CÂNCER.

 

A WWW é uma coisa não? Graças à ela eu já tinha conhecimento do trabalho dos caras e pude finalmente satisfazer minha curiosidade a respeito dele com as bênçãos do comic book guy de plantão (felizmente nada parecido com a figura de OS SIMPSONS). ‘Esses caras são muito bons’, ele disse.

 

Acho que escrevi isso na entrada anterior mas não custa repetir. Como em boa parte das publicações independentes nacionais, o que se vê nessas edições supra de O CONTÍNUO são curtas, boas histórias, mas curtas. Arte hors-concours. Roteiros interessantes que demonstram interesse em algo que acho essencial pra diferenciar a produção tupiniquim da gringa: usar a linguagem dos quadrinhos como algo novo, mesmo, explorar os limites… tão pouca gente mexeu com isso.

 

Não li os números iniciais da publicação mas esses que citei já demonstravam um arco ascendente de entrosamento do grupo. São, sei lá, três ou quatro caras escrevendo e outros tantos desenhando. Quando li CÂNCER vi que a sintonia tinha melhorado e a equipe tava apontando numa direção que acho bacana… ao invés de várias HQs curtas, uma mais longa com a colaboração de todo mundo.

 

Quantos Chris Wares a gente tem em oposição aos clones de clones de clones de quem quer que seja o artista em voga nos gibis de supas?

 

E aí, depois de tanta volta, chego em O CONTÍNUO #7, que li já faz tempo e de que vou tentar falar de memória (lembra do leitor de quadrinhos citado muitos parágrafos atrás? Sou eu).

 

Tentei ler as resenhas escritas pelos bem-intencionados críticos de plantão e fiquei meio que cismado… ‘será que tou vendo chifre em cabeça de cavalo?’

 

Uns diziam que MARINA CONTRA TODOS era uma história divertida e que devido à execução impecável não precisava de maiores motivos pra ser. Outros faziam referências cinematográficas que talvez não estivessem no foco de atenção dos produtores.

 

Sim, MCT é uma HQ divertida. Sim, há referências cinematográficas na história. Quem entende um mínimo de fazer quadrinhos sabe que a gente rouba de várias fontes (aí entram formas de arte verbais, visuais e audiovisuais) a fim de sintetizar uma experiência única.

 

Marina é uma adolescente em fuga (lembra do Escapista?), mas ao invés de ser perita em escapologia, ela é praticante de free running, ou Le parcours, escolha o sabor, melhor, a língua estrangeira.

 

Ela foge de casa e sua intenção é fugir da cidade (talvez fosse melhor dizer da realidade). Cidadãos até então pacatos (velhinhas, motoristas de táxi, transeuntes alheios a tudo e todos) empenham-se em impedi-la.

 

Os caras montaram as narrativas concorrentes emulando recursos de um filme sim, mas não o do alemão Tykwer. NATURAL BORN KILLERS, do Stone, com roteiro do Tarantino. Tem até uma sitcom de coroas pontilhada por uma claque de risadas inevitável. É uma das fugas paralelas a de Marina.

 

Outra fuga, a do motorista de táxi e leitor de auto-ajuda disfarçada pra comerciantes, executivos and the like que se vê, subitamente, em posição de ‘gerenciar’ algo e tenta fazer uso dos ‘conhecimentos’ adquiridos.

 

 A fuga de que mais gosto é a do morador de rua. E aqui os caras pegam essa expressão que a maioria usa de modo inconseqüente e levam às últimas conseqüências, um dos pontos altos da narrativa e talvez o mais engraçado, mas não de um jeito politicamente correto.

 

E, como se trata de uma publicação com esse nome, a equipe fez uso do continuísmo, devolvendo uma personagem que apareceu e desapareceu numa edição anterior à atmosfera… com direito à queima na reentrada e grande impacto na calçada.

 

O efeito dominó e a interpolação das quatro storylines é executado de forma competente e única apesar de, como dito antes, ser resultado de trabalho de equipe. Porque, meu chapa, tua vida e tuas atitudes afetam as outras pessoas.

fixação

E eu lá pensando em escrever quadrinhos outra vez e suas implicações.

 

Digo, todos os elementos são importantes numa HQ-narrativa, ou seja, que conte uma história e não seja um experimento gráfico ou a expressão da percepção do autor sobre determinado assunto.

 

Até respondi uma mensagem no fórum 4mundo falando do assunto.

 

Dentro do limite auto-imposto de 8 páginas no máximo de narrativa gráfica tenho dificuldade de criar uma situação em que o leitor desenvolva empatia com os personagens. É tudo muito pápápá.

 

Sei que depende da habilidade de quem escreve, mas o fator espaço-tempo (número de  páginas) é crucial.

 

Só pra exemplificar: quem já leu qualquer história de Koike e Kojima e não simpatizou com os personagens? Eu tava lendo outro dia o vol.7 de SAMURAI EXECUTOR e vi que até os personagens secundários, que numa hqb ficam reduzidos a figurantes, têm boa exposição na página e espaço pra desenvolvimento que dá e sobra.

 

Ah, tu não gosta de mangá?

 

Belê.

 

Vai de Berardi ou Manfredi ou Sclavi. Os italianos do fummeti têm lá 100, cento e poucas páginas pra contar a história. Tava lendo a edição passada de JULIA (me recuso a chamar de J. Kendall) e fiquei torcendo prum personagem secundário não morrer ou ser mais prejudicado do que já tinha sido.

 

Lembro de outra ocasião no mesmo gibi em que o Berardi usou, sei lá, umas 10, 15 páginas pra mostrar um policial mais velho que trabalhava na expedição de correspondência do distrito, algo totalmente tangencial à trama, e também senti empatia pelo cara.

 

É difícil escrever personagens verossímeis e empáticos? Sem dúvida. Mais ainda se não se dispõe de páginas. E os independentes que publicam HQ por aqui investem, em sua maioria, nas antologias, nas coletâneas. Diversidade com qualidade… mas espaço restrito.

arquivos

Sem ‘tenebroso inverno’, mais pra ‘verão escaldante’, lá vai mais uma tentativa de fazer aquilo em que o animal humano é supostamente único (como se ninguém tivesse ouvido falar dos tratos que abelhas e formigas dão à bola nesse quesito): comunicar.

 

E, pra variar, não tenho a mínima idéia do que.

 

Pra começar, talvez deva dizer que li durante a semana que passou THE ATROCITY ARCHIVES, show de narrativa que quebra barreiras entre vários gêneros…

 

Imagine o seguinte: Bob Howard (hm, alguém consegue fazer a conexão?) trabalha numa divisão secreta do serviço, ããã, secreto inglês, ‘the laundry’. Bob é perito em computação oculta.

 

Alan Turing em seus últimos anos produtivos desenvolveu equações capazes de romper o tecido da realidade e invocar entidades que só podem ser descritas como lovecraftianas… os de muitos ângulos, que estão no fim do set de Mandelbröt.

 

Bob e seus ‘gerentes’ trabalham a fim de prevenir a invasão de nossa bola de lama por essas entidades altamente entrópicas. Claro que a coisa não pára por aí. Os funcionários da lavanderia têm que fazer capacitações o tempo todo, preencher relatórios, enfim, o que qualquer agência de manutenção da lei faz de fato, algo totalmente desglamurizado, o extremo oposto do que Bond, o James, faria.

 

Muito bom. Por mais que o trabalho pareça cool sempre tem um chefe pentelho te cobrando relatórios, freqüência e resultados. Assustador porque mimetiza o que seria o cotidiano de uma repartição pública.

 

De verdade? O animal humano não precisa do auxílio de monstros multiangulados ou entidades entrópicas… ele mesmo já faz o trabalho sujo e se auto-extermina. O exterminador, nesse caso, é também a praga.