Arquivo do mês: julho 2016

epígrafe

um fabricante de violino, assim diz a história, foi questionado sobre como ele fazia um violino. sempre começava, respondeu, com um pedaço de madeira e então removia tudo o que não fazia parte do violino. há muito essa tem sido a minha metáfora favorita para a produção de ficção, mas com a ressalva de que um escritor também é responsável pelo trabalho de fazer o pedaço de madeira. o que pode, a princípio, ser bastante difícil, para não mencionar solitário.

William Gibson, Vancouver, 02/2016.

de verdade, achei que esta entrada seria a respeito de como escrever é um processo de pensamento e que, afinal, não é possível fazer uma coisa sem a outra. pensar sem escrever, escrever sem pensar, sabe? e acabei de provar, mesmo que só pra mim mesmo, que a tese se sustenta.

a coisa que decidi fazer, no entanto, é postar o último roteiro que escrevi (depois deste escrevi outro, mas foi atendendo ao “pedido” de alguém e não considero o resultado digno de ser chamado de história). já faz um tempinho mas continuo gostando dele… o que não o torna necessariamente bom, só confirma que meu gosto pode ser discutível.

taí:

RASURA 01

O SONHO DE ASTÉRION

A.Moraes

01 – Vamos experimentar com o ponto de vista de Astérion (ou o Minotauro, aquele do labirinto) e, como o sujeito tem olhos nas laterais da cabeça, talvez devêssemos pensar em uma perspectiva deformada para os 3 primeiros painéis desta história. O que ele vê: uma corrida de touros pelas ruas de uma cidade qualquer. Tanto pode ser algo que está acontecendo em Madri quanto numa das nossas próprias, como a famigerada “farra do boi” (em que todo mundo farreia, menos o boi, óbvio). Os animais sendo perseguidos pelas pessoas por ruas estreitas até ficarem apavorados o bastante para perseguirem os que há pouco os perseguiam.

REC.01: ASTÉRION DESCONHECE A DIFERENÇA ENTRE SONHO E REALIDADE.

REC. 02: NESTE, TUDO É VELOZ DEMAIS.

02 – Aqui e no próximo painel, mostramos os pontos de vista se alternando. Neste o par de chifres do touro serve como alça de mira enquanto ele investe contra um sujeito assustado.

REC.: ORA ELE VÊ COMO UM…

03 – Invertemos só que com o ponto de vista do sujeito do painel anterior que, neste aqui, está sendo erguido pelos chifres daquele mesmo boi.

REC.: …ORA, OUTRO.

04 – Tira estreita como as que apareciam no pé das páginas de LITTLE NEMO IN SLUMBERLAND, mostrando o Minotauro ainda criança (com cabeça de bezerro) despencado de seu berço com as pernas embaraçadas num lençol. O berço é uma versão primitiva daqueles que balançam para ajudar a ninar a criança. Projeto e execução do sujeito que deve aparecer, nunca completamente, na sequência.

DAEDALUS: ACORDOU, MEU BEBÊ?

05 –  Daedalus apanhando o Minotauro no colo e tendo dificuldade de erguê-lo (podemos imaginá-lo como uma criança de quatro ou cinco anos). Não mostramos o rosto de nosso inventor-arquiteto-engenheiro de plantão.

DAEDALUS: VAMOS, ALEGRE-SE. ACABEI DE DESENHAR SUA FUTURA CASA.

06 – Por entre as cabeças de Daedalus e do Minotauro, vemos a planta do labirinto, que repousa sobre uma mesa de trabalho na oficina do inventor: pense no projeto/desenho como um fractal a seu próprio modo.

DAEDALUS: QUANDO ESTIVER MORANDO LÁ, O REI MAU NÃO VAI MAIS TE FERIR.

07 –  A visão que o Minotauro tem de Daedalus: um borrão, uma rasura sem feições humanas.

ASTÉRION: PAPA! (Se tiver condições, encaixar a palavra grega pra “papai”, de preferência em grego, mesmo).

DAEDALUS: TAMBÉM SENTIREI SUA FALTA, QUERIDO.

 

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primeira pedra-aaa-aaa-aaa

quando uma newsletter nova aparece na caixa de entrada, pergunto de imediato: por que assinei isso? quero ler a respeito de mais uma viagem ao redor de um (aliteração) umbigo ou sobre como a saúde do emissor deteriorou recentemente? (não esqueci do que eu mesmo escrevi na última entrada… que graça teria criticar outrem sem ter teto de vidro?)

acabei de lembrar o motivo de desgostar de outra coisa que não vale à pena mencionar; livre associação de ideias com a expressão final do período entre parênteses; virou o título do que quer que seja isto aqui.

andei aprendendo um ou outro truque novo. estudar à distância pode ser algo interessante de se fazer, principalmente quando é algum curso auto instrucional. ter que lidar com outras pessoas é péssimo.

apesar de, como sugeri, ter aprendido uma ou outra coisa, continuo sofrendo com a falta de assunto. sempre tenho a impressão de que os melhores textos em que consigo pensar podem ser escritos em 140 caracteres ou menos.

de verdade!!!

quando sinto vontade de escrever um troço mais longo (esta entrada, por exemplo, tem proporções de épico) tento me segurar e sintetizar a parada,, deixá-la do tamanho de um tuíte.

que nem quando li O ESCULTOR, por exemplo. daria pra escrever uma porrada de coisas sobre o livro do McCloud (quase certeza absoluta de que um monte de gente fez exatamente isso, não me preocupei em checar) mas pra quê?

se dois tuítes resolvem? 280 caracteres ou menos?

economia.

síntese.

não consigo pensar em coisa mais elegante.

(aqui entre nós: O ESCULTOR é um gibi bacana mas desacostumei dessas narrativas intermináveis – não se engane que o Scott a leva muito bem – e cismo um pouco com a necessidade de quase 600 páginas pra contar aquela história… pega, mesmo vendo que o cara põe em prática as premissas que estabeleceu em sua trilogia metalinguística sobre quadrinhos… história em quadrinhos ideal seria a curta e bem feita. duas coisas difíceis de conjugar na conjuntura umbiguíca em que nos encontramos.)