Arquivo do mês: outubro 2009

Frey

meu parceiro há quinze anos, Leonardo Frey (ex-Andrade), montou seu blog e postou três páginas coloridas de HERÓIS, além de outros doces visuais variados.

vai lá e diz que eu te disse pra dar um ‘oi!’

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diálogos

Acredite: existe um raciocínio por trás de toda essa pirotecnia verbal.

Poema é material, organização, construção; poesia é efeito. Como o lugar (casa, apartamento, lofty) em que mora. Tem um aspecto físico, que é significante (vai ver o que é isso num manual de lingüística), e um aspecto de idéia (significado, idem): é seu lar. Concreto e afetivo.

Então quando penso em diálogos bem escritos não me vem a mente a imitação (naturalista), a transcrição de como as pessoas falam. Na fala há repetições desnecessárias, muletas verbais que garantem ao emissor tempo precioso que lhe permite organizar o pensamento e, com alguma sorte, ajuda de gestos e expressões faciais, comunicar o que quer dizer sem ruídos, sem mal-entendidos.

Repetições desnecessárias num texto escrito implodem o estilo, além de desviar atenção da leitura. É gordura, colesterol ruim.

Outra coisa: o diálogo expositivo. Tai um negócio sem o qual a gente não consegue se virar direito. É um recurso a ser usado com parcimônia. As pessoas não tendem a falar tudo o que pensam e várias vezes evitam dizer o que sabem, apesar de alguns roteiristas, inclusive de novela e cinema, criarem personagens neste molde com a finalidade de provocar situações engraçadas.

Então o melhor diálogo é o que equilibra alguns desses aspectos sem abusar de nenhum deles. Reduções de pronomes e substantivos próprios, abreviações características da fala passam sem problema. A se evitar, mesmo, são as variações lingüísticas, principalmente as geográficas, que podem, mais uma vez, causar ruído e as muletas verbais (ããã, hummmm, aí) que até podem ser usadas, mas com economia.

Tentar estabelecer uma ‘voz’ pra personagens, então, é trampo de anos. Depende da classe social a que ela pertence, à circunstância em que se encontra, à personalidade (um narcisista intelectual falaria, sim, do que sabe) e assim vai. Uma colega na facul que estudava alemão costumava contar uma piada que tem a ver, acho: os alemães não falam alemão quando estão sozinhos. Não preciso dizer que ela achava a língua difícil, certo?

Voltando, o diálogo não precisa ser transcrição pura e simples da fala. Precisa, isso sim, criar a ilusão de que o é, atingir o leitor por sua capacidade de identificação com o modo como a personagem fala, apertando o botão da afetividade sem exagerar em nada.

Algumas pessoas que escrevem, que li recentemente, exageram, por exemplo, no uso do adjetivo pra embalar a afetividade. Se deixam levar pela experiência pessoal e esquecem que a escrita é uma ferramenta e a manipulação dessa ferramenta requer algum apuro técnico.

Confundem o relato de um acontecimento com o acontecimento propriamente dito.

Não funciona. Não desse jeito.

A palavra escrita, nos quadrinhos, tem como função medir o tempo. Acelera ou diminui a velocidade da leitura.

emenda/soneto

Emenda/Soneto

Dizem que pra ganhar a simpatia do público quem se pretende escritor(a) deve contar um incidente patético de sua vida. Ainda preciso decidir se me pretendo escritor. É, eu sei, só escrever isso já poderia ser considerado patético, não?

Então: quando publiquei a última entrada esqueci de mencionar dois itens constantes do #4 da Café Espacial. Você deve saber como essas coisas acontecem. Quero imaginar que sim, na verdade, posso imaginar que sim, porque querer é poder e coisa e tal. Não que seja verdade.

Mas vamos escamotear a vã filosofia. Rar de rar rar.

A HQ ‘Ping pong: platonismo orkutiano’, de Sueli Mendes, tem três páginas que são mais que suficientes pra mostrar como as relações humanas se tornaram pasteurizadas neste começo de século. O ‘show do eu’, o ‘broadcast yourself’ permite que conheçamos desconhecidos mais intimamente do que as pessoas com as quais convivemos e, ao mesmo tempo, nos mantém a uma distância segura deles. Uso interessante de ângulos, o desenho mais realista do grupo de HQs da edição que, espero, evolua pra algo mais pessoal. Texto enxuto, preciso, sem adiposidades. Todo mundo sabe a essa altura que me interesso pela linguagem dos quadrinhos em primeiro lugar. Nessa HQ a Sueli dá mostra de potencial pra mobilizar e usar conhecimentos e ferramentas necessárias na produção de peças interessantes, complexas, engraçadas e despojadas.

Talita Prado na seção ‘Além do cinema’, com um texto sobre Tim Burton que faz um apanhado geral da carreira do cara. Senti falta de uma notinha sobre os livros infantis dele mas a seção é de cinema, então não tenho do que reclamar.

 

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 Em todo esse tempo que engano as pessoas com a rotina de ‘escritor’ (ainda imune a falar de minha ‘obra’, rar de rar rar) uma das coisas que mais pegam pra mim é escrever diálogos. Bons diálogos. Coisas que pessoas falariam em situações corriqueiras ou extraordinárias.

Alguns acreditam na escola dos diálogos ‘realistas’ (não entendo o significado dessa palavra). Outros em diálogos objetivos, expositivos e sei lá mais o quê.

As sinapses espoucam na noite, a baba ameaça escorrer e uma tempestade eletroquímica pode completar a qualquer momento o circuito, me jogar no chão e presentear-me com o avô de todos os AVCs. Ou esse lance de ‘diálogos’ me pôs pra pensar. Não sei o que é pior.

Preciso dormir agora pra acordar daqui a pouco, mas pense com carinho na diferença entre poema e poesia.

Porque tem, ora!

café no espaço

CafeEspacial4-bg-08052009

Em geral (essa expressão me faz lembrar, inevitável, da professora de análise do discurso que me disse um dia que, quando criança, pensava que ‘geral’ era um lugar por causa da preposição) começo com a fórmula rotineira, mesmo, dos sábados.

A essa altura, no entanto, você já a conhece porque, como dito acima, é repetição.

Então.

Além da surpresa agradável de encontrar minha cópia do #1 da Peiote no dropmail tinha também um envelope menor, familiar. Quando pus as mãos nele foi como ser percorrido por uma onda de informações, quase psicométricamas não de verdade. Como acontece conosco mortais, bastou ler nome e endereço do remetente pra saber do que se tratava: Sergio Chaves, V*** C***.

Yeah.

Daí uma sessão de fotos na livraria da Rô, a ida cerimonial ao café, a céu aberto, o sol depois de meses de chuva, sereno e nuvens, as beberagens do rito e um número não aconselhável de cigarros e elogios dos camaradas à produção das revistas que circulei na mesa.

No envelope que o Sergio mandou os #s 4 e 5 da Café Espacial, se é que você ainda não tinha associado o nome do homme à revista. Já tinha lido a #3, claro e gostado, como quase sempre acontece, das HQs. Tem uma do editor com uma desenhista cujo nome não vou lembrar agora (perdão, Srta/Sra desenhista – mas passei  meu exemplar pro Leonardo, uma causa excelente) que ficou na memória, talvez por causa de um verniz autobiográfico e honestidade sumária.

Ok. Respirar fundo. Encontrar o tom certo e tentar formular adequadamente em palavras as impressões iniciais não deve ser tão difícil. Não que me considere o tipo certo pra resenhar qualquer coisa, ainda mais quando se trata de material coletivo.

Já falei anteriormente do cuidado que a equipe, capitaneada pelo Sergio e a Lidia (Basoli), dedica à revista e isso vai desde título e logo bem bolados até os créditos finais. Sério.

As capas dos primeiros #s (Ebbios, Samanta Floor, Fabio Lyra) não me prepararam pra do #4 (Shiko). No café queria pedir um expresso como aquele, com uma brunette usando só meias dentro. Doce, hm.

Eles ainda insistem no subtítulo descritivo do conteúdo e eu ainda não entendo a necessidade de diferenciar ‘hqs, música, arte’. Mas sou limitado. E repetitivo.

Índice ou ‘Cardápio’ (mais uma vez, bem bolado) com foto da Laura Gattaz e começa o que interessa de verdade, o conteúdo.

‘Vida enquanto sonho’, por Allan Ledo tem uma conexão temática com ‘F for knife’, por Shiko (HQs) e ‘Maldita Sandra’, por Jana Lauxen e ‘Superfície’ por Vivian Pizzinga (contos). Todas as histórias ligam-se por trazer a temática do sonho ou da percepção alterada da realidade por quaisquer outros meios, quer sejam sérios distúrbios psíquicos ocasionados por danos cerebrais, sexo sem proteção ou síndromes dissociativas.

Tanto a HQ de Ledo quanto o conto de Lauxen devem ao clima onírico do tio Dave (Lynch, claro). Na primeira, a paisagem em constante mutação, os diálogos enigmáticos; no segundo, as personagens masculinas imaginárias produzidas pela culpa e sabe-se lá que outras substâncias endógenas de Sandra, remetem aos recorrentes homens com tourette e egressos de pesadelos violentos. O desenho de Ledo também faz lembrar de outro Dave, o Mckean, principalmente em ‘Cages’. O conto, por outro lado, me fez pensar em Kafka e uma das constantes em suas narrativas: a ausência de resoluções.

A HQ de Shiko começa com a referência aos romances policiais de Sue Grafton (‘A’ de álibi; ‘B’ de Busca e assim por diante), dando uma ligeira torcida e brincando com a idéia de ‘palavra x objeto descrito’ em dois idiomas. Neat. E violência sobre violência sobre violência. Funciona principalmente por causa do tom ‘tongue in cheek’, como dizem os camaradas da gringa. A violência aqui é sem vítimas (exceto pelo sujeito que inicia a coisa toda) e irônica.

A peça curta de Vivian é o conto mais bem executado, não desmerecendo os outros, claro. A opção por um narrador onisciente e o conhecimento de psicologia ajudam a convencer. É quase um estudo de caso.

‘Contramão’, do Sergio com ilu do Laudo, poderia ser melhor. Nada errado com o conto ou sua construção. A idéia é muito bacana: relações banais no ambiente de trabalho e suas conseqüências trágicas; o pano de fundo mencionado que cresce na imaginação do leitor é o diferencial: a contagem regressiva para o fim do mundo ao qual as personagens estão alheias. Novamente, nada errado com estrutura e idéias. Os mundos das personagens (o chefe aproveitador, a morena bonita, o colega de trabalho platonicamente apaixonado) acabam antes da contagem chegar ao fim, o que é bem bacana. O que pega pra mim é o estilo. O primeiro parágrafo, por exemplo, é instigante e foi o que segurou meu interesse. Depois disso a coisa afrouxa. Nada que um revisor pentelho não resolvesse, mas que, ainda assim, interfere no fluxo, cria ruído na leitura.

Tem ainda ‘Intercâmbio insólito de idéias absurdas’, de Esteves e Mario Cau, que se divertiram fazendo a hq que tem idéias legais, mas meio que se esforça demais; ‘Um quadrinho’, de Vinicius Mitchell e Fabio Lyra, mais singela, menos verborrágica e bastante eficaz.

Também uma entrevista com ‘the cleaners’, banda do circuito alternativo, por Lidia Basoli. Lidia: eu quero ler mais dos seus contos! Vai lá escrever ficção!

Texto (muito bom) sobre cinema e budismo por Elias Lascoski e a seção ‘arte revelada’, com fotografias de Marcelo Kubotsu.

obra

quando vejo a palavra obra aplicada por uma pessoa que escreve a sua própria produção não consigo evitar que a bile atinja o palato duro.
 
um jato quente e azedo e amargo. raiva porque a palavra tornou-se tão banal e as pessoas a usam com tanta impropriedade.
 
se consultar a wikipedia cê encontra definições que batem com o uso corrente. gosto mais do que lembro de meus tempos de criança, em contato com meus conterrâneos adultos.
 
quando alguém dizia ‘fulano está obrando’ todo mundo sabia o que queria dizer. nesse sentido acho que posso chamar minha produção também de, arrã, obra. porque o que vai nela são os resíduos, o que não consigo processar ou digerir.
 
minha ‘obra’ é uma cagada metafórica.

desafio diário

O desafio diário de manter a mente clara e um propósito puro. O desafio diário, impossível de vencer sem a ajuda de substâncias exógenas lícitas ou ilícitas, de manter a mente clara e um propósito puro. O desafio diário, impossível de vencer sem trapacear e mentir, de manter a mente clara e um propósito puro. O desafio diário de manter a mente clara e um propósito puro é uma puta perda de tempo já que estou sujeito a toda essa humanidade, toda essa raiva e violência, todo esse desejo e frustração, toda essa submissão e pancadas com jornais enrolados a que outros submetem-se alegremente, já habituados aos desmandos, à desordem e à necessidade que os hierarquicamente superiores têm de descontar em alguém porque, sabe, é assim que funciona no mundinho miúdo em que vivem.  O desafio diário é inútil… a não ser que seja o desafio diário de expressar-se livremente, sem medo de conseqüências, de represálias, de tortura, de julgamentos rápidos e rasteiros pelos que supostamente são meus pares e que estão tão anestesiados, tão presos ao hábito, que já acham normais as crises de ansiedade e pânico, a somatização de toda uma gama de problemas psicológicos sérios e não vêem mal algum em descontar tudo isso em seus iguais que não se comportam como deveriam ou em quem está hierarquicamente abaixo deles. O desafio diário de manter a sanidade em terra de louco… ‘em terra de louco, quem tem valium é rei’.

Xaime

                IMG_0001_locas

tenho lido as mesmas histórias do Jaime Hernandez desde sua primeira publicação local… outra realidade, totalmente outra, ou pelo menos o modo como eu percebia a realidade era bem diferente… a opção 2 parece mais certa.

mas lia. há mais de cinco anos, por exemplo, li LOCAS IN LOVE, um trampo posterior às hqs publicadas no LOVE AND ROCKETS original.

me faltava contexto pra entender esse material porque Xaime acompanha o crescimento/amadurecimento de suas personagens (tanto pro mal quanto pro bem) dum modo gradual, o que significa que, pralguém que pulou cerca de 15 anos de histórias a identificação com essas mulheres fica mais difícil.

duas coisas:

– o que chama atenção no trampo do Bro, a princípio, é a arte. ele é um dos poucos cartunistas independentes da gringa que produz um desenho bonito, agradável ao olho, que aperta o botão do desejo no leitor;

– seguir as narrativas de vida dessas garotas de papel é como crescer junto com alguém ou, depois de certa idade, observar o crescimento de alguém. a sensação de que se conhece as meninas é legítima.

são pessoas de verdade. a identificação só aumenta no livro dois da biblioteca LOCAS porque cê percebe que elas tavam vivendo mais ou menos a mesma cena, mais ou menos na mesma época.

o primeiro livro me fez pensar em alternativas pras hqs convencionalíssimas que vêm sendo publicadas tanto pelas editoras quanto pelos independentes… (me incluo aí, já que escrevi muita coisa convencional).

quando foi a última vez que cê leu sobre as frustrações amorosas duma mecânica de foguetes que tem um rol de amigos que inclui super-heróis e arquibiliardários?

minhas favoritas, de longe: Hopey e Izzy.