Arquivo do mês: setembro 2009

horror

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Léo e eu conversando sobre um episódio de Millenium (especial de Halloween) em que o sr. Black, ainda criança, tinha seu primeiro vislumbre do que estava por vir.

num sótão escuro, um homem com barba por fazer, fumando como uma máquina a vapor, conta uma história. subentendido: trata-se de uma criatura de outra esfera.

junte-se a isso a leitura, anos antes, de Guaita (sobre Jacques de Molay e o julgamento dos templários) e, presto!, surge Lúcio, protagonista de ‘a continuidade do fogo’, ‘escaldado no fogo do inferno’ e ‘heróis’.

a predominância do ‘fogo’ dá o tom.

Lúcio é meu dublê de Constantine?

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o Leonardo tá fazendo um negócio diferente nesta hq específica: letreirando à mão. é um dos recursos, pelo menos penso desse jeito, que integra melhor texto e arte.

desenhar a história na horizontal, também, foi uma saída esperta por mais de um motivo. as seções 02 e 03, por exemplo, têm bastante texto e vínhamos conversando sobre a possibilidade de deixá-lo fora do painel.

é assim

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se as hqs são compostas por similares do espaço-tempo, o que cria a ilusão de ‘tempo’ nelas? claro. as palavras. são elas que estabelecem o ritmo. permitem que o leitor desacelere a leitura e, até, aprecie melhor o trabalho do desenhista. o alfabeto fonético e o esforço necessário na interpretação desses signos opõem-se ao fluxo interpretativo de imagens.

lembrei dum ensaio do Steiner em que ele diz que o futuro só existe nas palavras, mais particularmente como tempo verbal…

no tumblr.

podia dizer que é inveja, mas trata-se de preguiça.

coisas novas aqui.

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Aqui: o modelo de roteiro que costumo usar quando não sei quem vai desenhar a hq. Quando fechei esta narrativa particular só consegui pensar em dois desenhistas pra ela: o Léo ou o José ( tava pensando nos resultados que ele conseguiu em GENEALOGIA DO MAL). A página acima é do Léo.

Conversando neste último sábado a respeito do ‘contentamento’ que o trabalho proporciona e os resultados que alcançamos, chegamos à conclusão que o projeto atual sempre será decepcionante e o que prentendemos com ele só vai ser possível no próximo e o que pretendermos pro próximo só será… etc.

Página 2; 

Painel 1; 

Faça este grande, de modo a ocupar os dois quartos superiores da página. Mostramos numa tomada descendente onde os dois estão, afinal: no alto de um prédio cujo terraço está bem mais próximo ao leitor do que a rua, que vemos em perspectiva lá embaixo. Não esqueça que Lúcio está fumando. 

CIRINO: É. 

LÚCIO: Cê subiu aqui porque queria colocar as coisas em perspectiva, não? 

CIRINO: Isso mesmo. 

Painéis 2, 3 e 4: 

É uma seqüência de painéis com a mesma altura que devem ser entendidos como uma imagem seccionada. No 2º temos Cirino e Lúcio de perfil pro leitor, olhando no sentido de leitura da página. Fumaça se desprende do cigarro de Lúcio. No 3º vemos a fumaça se dispersando cinzenta contra o céu claro. No 4º a fumaça encontra uma rajada de vento e turbilhona pro alto. 

DIÁLOGOS P.2; 

CIRINO: Eu precisava. 

LÚCIO: Tá. 

CIRINO: Só não sei se resolveu. 

DIÁLOGOS P.3; 

LÚCIO: Procurou alguém pra conversar antes de vir aqui? 

CIRINO: Pensei em procurar mas ela não ia entender. 

CIRINO: Afinal é minha mãe. 

DIÁLOGOS P.4; 

LÚCIO: Quer falar agora? Deve ser coisa importante. Não é qualquer probleminha que faz a pessoa subir 30 andares pra encarar o mundo. 

CIRINO: Acho que sim. Não te conheço mas sinto que quer ajudar. 

LÚCIO: Eu te conhecer já é alguma coisa. 

Painel 5; Lúcio sozinho novamente, anda pelo corredor daquele prédio inacabado da página 1. Ele tapa o nariz com indicador e polegar, apertando-o como uma criança. 

RECORDATÓRIO: Não tem esgoto. O cheiro de mijo e merda quase me cega.

grab!

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é assim que a gente tem trabalhado atualmente. não determino mais número de páginas em histórias pessoais. descrevo, se possível, a essência do que deve aparecer e fica tudo a cargo do desenhista.

este é meu mano Léo que participou não só na realização visual do material. em várias outras ocasiões histórias que escrevi foram beneficiadas pela discussão com ele, mesmo quando não as desenhou.

abaixo o fragmento de texto que se passa por roteiro.

GRAB/PEGADA
A.Moraes
 
1-Começa com um close  numa xícara de café muito preto e fumegante.
 
2-Inverte o pdv e mostra nosso cara de costas pro leitor enquanto clientes do café, sentados numa mesa longe do balcão (onde nosso cara contempla o sentido da vida na tal xícara), falam dele em pp.
 
CLIENTE 1: Todo ano, mesma data e horário.
 
3-Primeira vez que mostramos o sujeito de frente, ampliando aquela primeira tomada da xícara e englobando as mãos, calejadas, rudes,  pousadas relaxadamente sobre o balcão de fórmica.
 
4-Amplia novamente e nosso cara olha diretamente pro café negro, fumaça espiralando em direção ao seu rosto, que ainda não vemos devido à posição em que ele se encontra. No background, garçons do café circulam, carregando bandejas enquanto falam dele.
 
GARÇOM 1: Perdeu tudo: mulher, filhos, bicho de estimação, emprego, casa, carro…

silêncio

quase 20 horas acordado e digitando com uma só finalidade: manter-me são.
 
não mentalmente são, claro, pois duvido da existência desse espectro de ‘normalidade’ tão propalado.
 
a trama se desenrola a partir dum mote comum: purgar o máximo possível de veneno do organismo, garantir a sobrevivência partindo da noção freudiana de ‘cura pela palavra’. mas não espere anamnese. minha memória é boa demais preu só esquecer e pronto, não se fala mais nisso. e já se vão umas décadas desse conceito datado, esse ‘passado’, essa ilusão no curriculum vitae.
 
o que tem me fodido a cabeça e a paciência é o presente. em ‘kung-fu panda’, mestre Oogway diz: ‘o passado é história, o futuro é mistério, o presente é uma dádiva’.
 
procurei durante as últimas semanas meus cadernos de apontamentos perdidos do ano de 2003 e no começo desta encontrei. logo que comecei a escrever hqs, no final dos anos 90, produzi um punhado de plots que, achava, valiam à pena roteirizar e desenhar. as idéias vinham de toda parte, de onde pudesse consegui-las.
 
as mais bem-sucedidas, e isso é pessoal e intransferível, são as que subvertem num ou noutro nível as amarras dos gêneros, quebram velhos clichês e os reciclam pra uso novo e assim por diante.
 
tou fugindo do assunto. o que me guiou, me fez por caneta no papel pela primeira vez (dedos na keyboard atualmente), foi a necessidade de gerir minha raiva. digerir minha raiva… meu demônio mais assustador. o conceito todo remete ao endorcismo, claro. valeu, rabino.
 
não superei essa necessidade de destilar a raiva, como cê bem pode deduzir pela linhas iniciais desta entrada. mas no fazer, no cometer textos e roteiros, aprendi a ir um pouco além disso. a olhar pras personagens de outra perspectiva que não lembrasse vodu.
 
‘todo silêncio é pouco’ é um dos plots perdidos do final dos 90 e em que trabalhei como roteiro febrilmente em 2003. eu não tinha noção do que estava fazendo. lembra que falei das idéias vindo de toda parte? este título encontrei grafitado num coletivo.
 
a vantagem de ganhar a perspectiva de 6 anos é que pude reler o negócio e ver que ainda era algo muito intuitivo, prolixo e que usei como válvula pras muitas frustrações de então, inclusive médicas. o mote era ‘viagem lisérgica de auto-descobrimento’, ‘vision quest’ ou como queira chamar.
 
culpe Castañeda.
 
culpe McKenna.
 
culpe são João na Ilha de Patmos e seu livrinho agridoce.
culpe a automedicação.
 
sempre vou ter uma queda por estados alterados da percepção porque desde 98 não sei o que é um estado não-alterado.
 
o plot envolvia uma danceteria e um índio brasileiro que se vestia como uma das cores de Tarantino. envolvia Kennedy, o mistério de sua origem, o fantasma de seu pai, o rei do morro, e segue. no roteiro a história foi transplantada prum campus universitário. um delegado era o vilão e a mãe de Kennedy tinha culpa no cartório. o índio era um amigo imaginário da infância que afastou-se por um tempo até retornar magistralmente e crescido no aniversário de 21 anos do protagonista. e o protagonista só sentava e observava as coisas acontecendo ao seu redor. não muito mais que isso.
se precisasse dizer qual a característica mais marcante desse roteiro relido hoje, eu diria, sem pestanejar muito (a não ser que tivesse um cisco no olho): entusiasmo.
 
dá pra salvar alguma coisa?
 
sim.
 
tou fazendo o possível dentro das limitações de tempo atuais.
 
quando não estou pensando no 3º episódio duma série infanto-juvenil em que venho trabalhando; quando não estou pensando na segunda cena de BORBOLETA; quando não estou rangendo os dentes de frustração com o trampo secular.
 
silêncio.
 
cama.