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milagre

então, este é um fragmento de roteiro que comecei a escrever no começo do ano e que, percebi a tempo, dava muito mais pano pra manga do que só as 8 páginas inicialmente planejadas.

a versão que deve aparecer em algum ponto do futuro, bem provável, não vai ter qualquer semelhança com o que segue:

MILAGRE DE CHUMBO

página 01;

quadro 01;

imagino que teremos 3 quadros nesta página. este primeiro é um splash-panel, ou seja, vai ocupar mais espaço (sugiro ⅔ superiores, equivalente as, se estivéssemos falando de proporções simétricas numa página, duas tiras de cima) pois queremos impactar o leitor, fisgá-lo e, se possível, também introduzir o MacGuffin de nossa história. então, à vaca fria: neste aqui mostramos de um ponto de vista (de agora em diante chamado pdv) descendente um de nossos protagonistas, Caio, caído – rárárá – no chão sobre as costas e erguendo as mãos em um movimento de defesa enquanto o outro, Aristides, (através dos olhos de quem vemos a cena) aponta um 38 Smith & Wesson (que podemos mostrar no quadro, junto com a mão do personagem, embora não mostremos Ari aqui de fato).

RECORDATÓRIO: A DITADURA MILITAR NO BRASIL NUNCA FOI PIOR DO QUE ENTRE OS ANOS DE 69 A 74, TAMBÉM CONHECIDOS COMO “DE CHUMBO”, MAS, MESMO EM SITUAÇÕES POUCO VANTAJOSAS PARA AS MASSAS, ALGUNS INDIVÍDUOS VÊEM OPORTUNIDADE DE LUCRO.

NOTA: AQUI SUGIRO QUE, SEGUINDO O MODELO DE QUADRINHOS MAINSTREAM DOS 70, JÁ INCLUAMOS O TÍTULO E CRÉDITOS DA HISTÓRIA.

CAIO: JURO QUE NÃO TE ENTREGUEI, ARI!

quadro 02;

vemos Caio numa posição similar a do quadro anterior, só que agora a imagem está refletida na lente dos óculos escuros de Aristides… isso mesmo, o que era direita é esquerda, façamos o esforço de criar um reflexo da imagem anterior num close-up de uma das lentes do óculos.

ARISTIDES: VOCÊ SABE COM O QUE PARECE DAQUI, CAIO?

quadro 03;

viajamos 40 anos no futuro mas ainda estamos dando um close no rosto de Aristides, obviamente 40 anos mais velho, nada de eufemismos. refletida na lente dos óculos espelhados, vemos a imagem de um menino de 10 a 12 anos, o neto de Ari, saindo de uma piscina.

ARISTIDES: UMA CRIANÇA.

RODOLFO (FORA DO QUADRO): CLARO QUE É, ARI.

sério…

…de verdade, me falta entender como todo o resto do mundo parece sempre ter algo a dizer.

toda vez que tento escrever qualquer coisa sem uma intenção específica, sem ser pensado, planejado, termina saindo algo como a entrada anterior: um monte de palavras ao qual falta, sei lá, sentido?, organização?, unidade?

ideias dispersas não são muito minha praia.

ainda assim invejo quem consegue estar sempre preparado pra tuitar o que quer que seja, ou quem tem um estoque inesgotável de anedotas, ou que parece ter nascido pra narrar…

dans chez Moraes as coisas terminam sendo mais demoradas porque, como ela sempre diz, ‘você é um virtuose’, e, claro, não se trata de um elogio e geralmente não se aplica a escrita.

qualquer coisa que me disponha a fazer termina demorando mais do que o normal pois, admito, sou bem mais estabanado que o normal.

e, agora, que deixei o único hábito saudável que tinha de lado e passei a negligenciar a atividade de escrever, mesmo o roteiro mais simples em que consigo pensar leva séculos pra ser registrado, independente da ferramenta de escrita que esteja utilizando.

MILAGRE FEITO DE CHUMBO, página 03, painel 03.

cinco páginas e dois painéis ainda por escrever.

sério…

Z.N.S. – Pág. 01

de ontem pra hoje recebi as duas últimas páginas da hq de COUTO que Wendell Cavalcanti desenhou e Leonardo Santana editou. pra comemorar, vai aí a 1ª página da versão final do roteiro, depois de muitas revisões, choro e ranger de dentes. escrevi esta história pra ser veiculada numa edição posterior do e-comic PERSONA NON GRATA. originalmente a dita cuja tinha 10 páginas. agora são só 8.

tó:

COUTO EM ZUMBIS NERDS SUBTERRÂNEOS!

A.Moraes.

Página 1;

Painel 1;
Mostramos o chão dum corredor escuro nem muito largo nem muito estreito do PDV duma pessoa que corre através dele, olhando para baixo. Linhas de movimento indicando velocidade viriam a calhar.

TEXTO (SEM BOX): N.A.D.A., Divisão de P&D, laboratório central, subsolo 13.

RECORDATÓRIO: TODO INÍCIO É INOCENTE.

Painel 2;
Mostramos, neste, as paredes do corredor – que continua escuro – afunilando-se, mas agora podemos ver seu fim. Ele desemboca numa sala iluminada, daí que teremos um retângulo branco e vertical em seu final.

RECORDATÓRIO: QUERÍAMOS DESENVOLVER A CURA PRA UMA DOENÇA QUE SÓ EXISTIA EM OBRAS DE FICÇÃO.

Painel 3;
Ao nos aproximarmos do fim do corredor, podemos ver membros humanos (sem pintos, só braços, pernas, cabeças etc) mordidos e espalhados pelo chão, assim como grandes poças de um líquido escuro (sangue? pschiii!) que também mancha as paredes.

RECORDATÓRIO: POR ISSO A TORNAMOS REAL.

RECORDATÓRIO: INOCULAMOS COBAIAS COM O VÍRUS, UMA DELAS FUGIU E INICIOU O CONTÁGIO.

Painel 4;
Mostramos, afinal, quem corria há pouco: um sujeito barrigudo, com óculos de lentes grossas, um uniforme parecido com o usado pelos personagens de STAR TREK, linha do cabelo bastante recuada, enfim, o estereótipo do nerd. Agora, o PDV é de quem está dentro daquela “sala iluminada” e nosso nerd – vamos chamá-lo de Sid – está parado no batente da porta, boca aberta, arfando, litros de suor vazando por todo seu corpo.

RECORDATÓRIO: COMO EVITAR QUE A DOENÇA SAÍSSE DO LABORATÓRIO?

Painel 5;
Certo… Invertemos o PDV pro de Sid de novo. Ele vê:
Couto (vestindo camiseta clara lisa, jeans escuros com botas de couro, cabeça totalmente raspada e os indefectíveis óculos escuros de armação redonda) segurando um zumbi adolescente (caracterize à vontade, só não esqueça que ele deve estar num estado avançado de decomposição) pelo pescoço, erguendo-o do chão com uma das mãos enquanto, com a outra, encosta sua 9mm sob o queixo do “podre menino morto”. Tudo isto num plano de conjunto.

RECORDATÓRIO: QUE UNS POUCOS SOBREVIVENTES FOSSEM CONDENADOS A ENFRENTAR UM CENÁRIO PÓS-APOCALÍPTICO?

Painel 6;
Inverte de novo. Plano americano mostra Sid, o nerd, aproximando-se de Couto e do zumbi-boy.

RECORDATÓRIO: CHAMAMOS COUTO! EXTERMINADOR PROFISSIONAL, OBSERVADOR DE U.F.O.S. AMADOR!

SIDNEY: Ajudar! Preciso…

79/97

Zé Carlos, colega de classe na 2ª série do primário em 79, foi o primeiro outro nerd com quem conversei. Isolado pelos outros meninos não por causa de sua esquisitice evangélica, mas por ser um dos poucos negros da escolagozado. 79 é o ano da campanha pela Anistia dos brasileiros presos ou exilados por sua oposição  política à ditadura e ainda assim o preconceito ficou na memória… ou talvez eu a esteja enfeitando e o preconceito não fosse racial, mas social. Os únicos negros públicos eram Pelé e um ou outro ator ou atriz de televisão (escravos ou lowlifes ou bandidos, na ‘telinha’) e um ou outro cantor(a).

Como eu, Zé Carlos desenhava. Gostava de HQs de super-heróis. Colaboramos na ‘narrativa gráfica’ mais antiga que ajudei a bolar. Envolvia um alienígena alado caindo na terra e não muito mais que isso. Uma origem.

O sonho: estava em algum lugar, qualquer lugar, lugar algum, paisagem onírica construída com elementos colhidos e amontoados aleatoriamente pela necessidade do psicodramaum balcão de bar familiar, chão de terra batida (um terreiro?), pessoas bebendo, rostos imprecisos, sem contornos. A chegada de Zé no local, o tom de voz peculiar, baixo e reverberante, foi o índice de reconhecimento e o que me levou a perguntar-lhe, por não ter dúvida do que fazia, onde ele cantava.

No mundo real, reencontrei Zé em 97 e falamos de nossas vidas, the story so far. Era um cara forte e pragmático, muito mais que eu. Comentei minha separação recente e o trabalho como professor. Ele era estivador e suas relação com as mulheres era de caráter profissional. Mesmo. Nas circunstâncias achei sua postura mais engraçada que triste. Sofria então de um caso moderado de misoginia, contraído por uma psique imunológica danificada e enfraquecida.

O sonho: sua resposta, provável, foi puxada dessa última conversa. Cantava em ambientes reservados e pra poucas pessoas.

Não sei quanto tempo passou devido à arbitrariedade da cronologia onírica, mas reencontrei-o no coletivo, ou uma personagem análoga, e ele, diferente do encontro anterior em que estava bem vestido e limpo, apesar de levemente bêbado, agora parecia decadente e preparava uma seringa pra injetar-se ali mesmo, no ônibus em movimento, o carro pra lugar algum… pedi que o motorista abrisse a porta e ele perguntou-me se o cara estava me incomodando e ainda, sem esperar resposta, comentou que se tratava de um chato. Lá estava eu tropeçando exausto pela rua, quase certo de que não conseguiria dar mais um passo madrugada adentro, quando um braço desabou sobre meu ombro e a mão ligada a ele tamborilou ao lado do meu pescoço. Sabia que era o Zé e a sensação tátil foi tão forte que acordei assustado.

Tentei ler e conciliar o sono, mas só depois de fazer as anotações em que me baseei pra escrever isto aqui, assistir à programação pseudo-erótica e assustadora da madrugada, beber 600ml d’água e fumar um par de caretas, consegui.

Me pergunto qual acontecimento do dia elencou o Zé pressa história e porque estes elementos específicos foram escolhidos na composição do roteiro. Os cenários eram bons, assim como o som… nos sonhos minha audição é perfeita… o susto antes dos créditos finais fechou a narrativa de um jeito inesperado. Pelo começo parecia ser só mais um daqueles sonhos em que encontramos pessoas que não vemos há tempos. A virada abrupta na trama incomodou, mas os cortes ágeis compensaram.