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tentativa

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Estranho olhar pras palavras desse jeito.

Hoje gastei umas horas do dia fazendo o tipo de exercício que pode significar tudo ou nada. Um ato poético, algo voltado à criação, ou pura futilidade, perda de tempo. O que foi de verdade? Ainda por decidir.

Mudo de idéia com muita facilidade.

O exercício consistia em ajustar um timer pra tocar num intervalo de tantos minutos e, num caderno (optei por fazer isso analogicamente), anotar, sob três colunas diferentes, ‘o que estava fazendo’, ‘o que estava pensando’, ‘o que queria fazer’ a cada vez que o alarme soasse.

Atenção ou espreita, depende do autor que você lê. É esse o exercício.

Apesar de perceber que nunca estava fazendo algo em que estava pensando ou que gostaria de estar fazendo, a atividade teve um efeito relaxante. Foi quase como meditar. Aquele lance de prestar atenção em si mesmo que normalmente não fazemos.

Neurofeedback xamânico.

Tivemos um almoço português uma vez na faculdade, num fim de semana, só as pessoas de nossa turma. Na época eu devorava os livros de Castañeda e, enquanto comia bacalhau, alinhei ‘fazer’, ‘pensar’ e ‘querer’ na mastigação, saboreando o alimento, tão concentrado naquilo que os colegas me pediam pra passar o vinho e eu não ouvia (em 95, pré-perda de audição). Gozado como tinha esquecido disso.

Comer pensando em comer e querendo comer.

Essa é uma das coisas que mais me estressam, a atenção esparramada em diversas preocupações e tarefas a realizar enquanto só sou capaz de umas poucas e, quase sempre, nunca de uma vez só. Ao menos se quiser fazer bem feito.

A atenção do indivíduo que produz qualquer tipo de material, seja arte ou entretenimento, tende a ser desfocada num modo multitarefeiro que não deve ser saudável, salvo àquelas raras exceções superdotadas.

Comecei a escrever isto aqui sem um foco, talvez com a intenção de dar continuidade aos pensamentos pouco pensados da última entrada ou só contar a experiência, sei lá, e terminei encontrando um fiozinho que une as duas coisas.

O artista ou escritor que se dedica a fazer ficção, autobiografia, prosa pura, HQs, poesia, ensaio, pintura etc., precisa ter uma profissão, um emprego ou trabalhar como freelancer pra sustentar a atividade de que gosta de verdade.

E a dita cuja, geralmente, é rotulada como hobby… outro fator de estresse, outra bifurcação de atenção… talvez a pessoa não se dedique tanto a alcançar um resultado superior porque, porra, é só um hobby.

Mas entretenimento ou arte é (são) campo(s) de atuação supersaturado(s)… porque, cacete, todo mundo escreve ou todo mundo se acha talentoso pra uma ou outra coisa, seja jogar futebol ou cantar.

O chato e frustrante é que ainda não temos, como num dos futuros próximos do Gibson, subculturas suficientes pra toda essa produção ser mais diversificada. Sim, temos nichos de consumo pra produtos diferentes, mais caros, com melhor acabamento, ou mais baratos, que seja, mas isso é o bastante pra absorver tantos super-heróis?

Qual a cara da HQB? A pergunta pode até não parecer válida, temos autores em vários gêneros e subgêneros diferentes, mas o grosso continua insistindo em escrever supas, desenhar supas, ou fazer histórias de aventura com personagens recorrentes obedecendo basicamente aos mesmos estereótipos dos supas. supas disfarçados de qualquer outra coisa.

seqüência

o homem médio desejando e trabalhando ativamente pela destruição do super-herói enquanto ele, iludido, vítima de um complexo de messias, salvador, redentor ou o que seja, pensa que ajuda a comunidade em que está inserido.
 
daí algumas associações livres tornam-se possíveis:
 
-supondo que o sujeito não possa refrear a dedicação à comunidade (com o auxílio de antipsicóticos, talvez) e, com isso, provar que há algum problema neurológico e/ou psicológico, ele teria que afastar-se dela.
 
-efetivamente, com o afastamento, estaria imitando o comportamento de outro tipo de louco, ancestral, quase mitológico, o xamã…
 
talvez aí as coisas ficassem mais interessantes.
 
pode ser uma plataforma boa o bastante pra lançar um projeto neste subgênero da fantasia.

horizontes

nenhum ineditismo no horizonte.
 
hqs condenadas a repetir o paradigma da cultura pop estabelecido há 70 e poucos anos pela indústria de entretenimento estadunidense: super-heróis. divindades que caminham entre os homens.
 
no mundo real criaturas assim seriam odiadas por sua perfeição.
 
sua segurança não estaria ameaçada só pelos insanos ou, tremo ao digitar esta palavra, vilões, mas pelo cidadão comum, o sujeito da urbanidade, trabalhador que, com dificuldade crescente, ganha a vida de modo honesto.
 
a mesma hostilidade que é dirigida a figuras públicas, quer sejam políticos ou celebridades (quer mereçam ou não tal celebração), seria dedicada a essas personagens impossíveis.
 
isso sim seria um acréscimo à mitologia dos super-heróis. ainda não seria totalmente inédito, mas um pouco de ar fresco seria soprado nas estruturas narrativas pra lá de batidas que repetimos ad nauseam.

LAW

A história começa com um assassinato.

 

Uma mulher anatomicamente incorreta corre desesperada por ruas sujas, perseguida por um homem mascarado, vestido de preto. A máscara do homem é um saco de papel pardo. Ele é um super-herói.

 

‘Eu caço super-heróis. Não encontrei um até agora.’ ou algo que o valha, é uma das muitas frases de efeito de MARSHAL LAW, criação de Pat Mills e Kevin O’Neill.

 

Fico imaginando a cara dos editores da Epic, selo cool da Marvel nos anos 80, quando os ingleses que disseram sim à sua proposta de trazer algo novo pro gênero super-heróis apresentaram seu caçador de mascarados.

 

Marshal odeia super-heróis. E é um deles.

 

Mills falando com O’Neill durante o desenvolvimento da história disse algo como ‘sabe, acho que nosso cara vai caçar super-heróis’, ao que O’Neill respondeu, ‘você quer dizer super-vilões?’ A resposta era NÃO!

 

Sim, eu concordo com essa abordagem do tema super-heróis. Acho que quem se fantasia pra combater o crime tem um ‘parafuso a menos’, se é que a expressão não tá ultrapassada.

 

Minha outra HQ favorita de super-heróis é THE BADGER. Um sujeito que sofre de múltiplas personalidades. Uma das quais se disfarça e combate o crime.

 

Super-heróis e ficção científica hoje em dia só são válidos, na minha opinião, se usados como metáforas. De outro jeito, não, obrigado. Escapismo é bom, a gente vive na era do escapismo, em que se valoriza muito mais o que se vê ou se lê do que o que se vive.

 

Outro uso possível dos super-heróis é como recurso narrativo. Como ferramenta pra fazer a história avançar. Como parte de uma trama maior. De um contexto.

 

Uma vez, há muitas luas, comecei a escrever uma HQ em que havia um super-herói. A HQ na verdade era sobre política e manipulação das massas, por isso a necessidade de um supa. Num país sebastianista como o nosso quer desculpa melhor?

 

Acho que fiz o roteiro de uma ou duas HQs da série. O desenhista com quem estava colaborando teve o bom-senso de desistir do projeto e foi a última HQ com mais de 8 páginas que escrevi.

 

E com super-heróis.

 

A prosa já é outra coisa. Lembro dos pulps de aventura, particularmente dos proto-supas e isso me inspira a escrever sobre eles do que, imagino, seja o ponto de vista de um sujeito médio, como eu.

 

Claro que há vários outros elementos numa história em prosa que os quadrinhos não poderiam capturar adequadamente.

 

Hoje comecei a reler minha edições de MARSHAL LAW.