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por acaso

tanto tempo sem digitar (maior parte da escrevinhação ainda feita na munheca e às custas de sabe-se lá quantas árvores… é, mesmo que o papel seja reciclado, não convém esquecer sua origem, mas, sim, pensar em quantas vezes ainda dá pra reciclá-lo) que quase consegui me convencer da perda do uso dos dois dedos com que cato milho. nada de novo. já quase me convenci de tantos outros absurdos… R.A.W. já falou bastante da capacidade humana de autoconvencimento ou autohipnose quando se opta por acreditar ou aceita-se sem qualquer espírito crítico algo socialmente imposto.

se, por exemplo, eu decidir acreditar em todo spam que pipoca em minha conta de email e pro qual nem olho mais antes de apagar, o tamanho do meu órgão reprodutor não é satisfatório e eu deveria ler a versão da Bíblia recém-publicada por uma editora católica. eu poderia, assim, me tornar criativo associando as duas ideias a ponto de achar que por ter um pau maior precisaria ser um cristão melhor.

as coisas em que escolhemos acreditar…

claro que o sistema de crenças inclui tudo que aceitamos como certo mas que termina funcionando na maior parte do tempo por puro acaso… o próprio corpo humano. é por acaso que ainda estou vivo, é por acaso que a simbiose da mitocôndria com a célula eucariótica tornou possível a vida multicelular à base de carbono como a conhecemos, é por acaso que alguns de nossos ancestrais aquáticos decidiram aventurar-se em terra firme…

é por acaso que ainda temos água potável e que as cidades e demais aglomerações de primatemaia disseminada não implodiram numa grande epidemia de uma coisa ou outra não plenamente manifesta por falta de, sei lá, um ingredientezinho mixuruca (higiene, hidratação, alimentação, qualidade do ar, privação dos raios do sol ou excesso de calor…. enfim, dá pra criar uma imagem com facilidade, não?)…

também por acaso ou por ter sido acometido por uma onda irremediável de preguiça que tamborilo a transmissão de hoje na solidão da escrivaninha e a envio ao deserto www.

lendo ‘o mapa fantasma’ e pensando em como as bactérias são superiores. inclusive em número, inclusive em esperteza. a maior armadilha em que o ser humano pode cair (e me incluo no gênero enquanto minhas parceiras microscópicas não se apossam de vez do meu cadáver) é acreditar em sua própria importância… ou que tudo faz sentido de uma forma ou outra… que o mundo deixaria de existir sem nós (pra nossa percepção? certamente!)

full hand

 

Um lance que continua me interessando entra-ano-sai-ano desde que ultrapassei a membrana de meu quasiautismo por volta dos, hm, quinze é a aprendizagem. Como professor sou muito meia-boca, mas como estudante… também. Pelo menos gosto, né?

 

Claro que o princípio é torto. Se fosse diferente duvido que gastaria tanto tempo com isso. Motivos egoístas. Auto-engrandecimento, auto-crítica, auto-aperfeiçoamento… escolha uma. Ou todas. Sim, po, não. Sem resposta certa.

 

O foco dos meus estudos varia. Meus interesses pra única finalidade em que consegui pensar são legião. ‘Ah, o cara vai falar de escrever outra vez?!’ Redundância, claro, quem vem aqui fica tranqüilo. As surpresas ainda tão de férias.

 

É assim, com esse gosto onívoro por material de leitura, que me chegam as idéias. A maioria infelizmente só funcionaria num contexto maior.

 

Já tinha falado da necessidade de cooperação antes, citei, inclusive, organismos unicelulares que firmaram parcerias pra garantir a propagação de seus genes, iluminação dada pelo Sr. Stephen Jay Gould e agora afinada pela ex-sra. Carl Sagan, Dra. Lynn Margulis.

 

Quem precisa de evolução quando tem a simbiogênese? O bacana dessa teoria é que ela é neolamarckiana! Show de bola!

 

Tem jeito melhor de começar o ano?

troço

é, foi isso que escrevi. um troço cheio de ressentimento com o mundo e a vida e tudo mais. como um romântico. mas o lance de tentar fugir da realidade, da ‘vida real’ começou bem antes deles, n’est ce pas? com o primeiro sujeito que inventou o primeiro mito pra explicar algo que não entendia ou não aceitava como realidade.
 
‘a vida não devia ser assim!’ ele deve ter dito, brandindo a pedra que matou seu irmão, ou tentando regurgitar o fruto envenenado que a mulher lhe deu. tá vendo? as mulheres são diferentes. elas aceitam as coisas como são. ‘bom, isso aqui vai me tornar mais sábia? o que são uns anos a mais de vida sem sabedoria?’ e deu uma dentada gulosa, o suco escorrendo por seu queixo perfeito, recém-fabricado.
 
a oferenda recusada é uma justificativa. a serpente tentadora outra.
 
a vida fede. a gente joga perfume com explicaçõezinhas fáceis e tal. a gente se põe no topo da cadeia alimentar que nós mesmos bolamos. ah, sim, temos ‘inteligência’, somos ‘conscientes’ e aonde chegamos com todas essas vantagens? o que deveria ser uma ferramenta evolutiva tornou-se prisão.
 
e tentamos escapar dela.
 
‘eu sou um ex-escritor em recuperação. não escrevo ficção há seis meses.’ e se sente melhor.
 
quem escreve ou lê ficção quer escapar da vida, da realidade. mas não há escapatória. não exercemos controle. o controle ou a obsessão pelo controle é decorrente de trauma na fase anal. freud disse, não eu. confie em freud. venere freud. colecionar é outro jeito de exercer controle. bom, não, obrigado. você entende? tem a ver com reter. em casos extremos ganha o nome de disposofobia.
 
não importa se a ficção é o mito ou a música, a ‘cristalização do tempo’, como queria lévi-strauss, que seja um jogo qualquer, cinema, tevê, religião, enfim…
 
temos medo do mundo que nos cerca.
 
queremos sair.
 
deixar a gaiola.
 
me pergunto o que aconteceria com os ultraromânticos se eles soubessem que a morte já estava se acomodando em seus pulmões, formando lindos tubérculos, enquanto desfiavam louvores em verso à ela. ‘morte como fuga da vida’. claro!
 
as bactérias agradecem. e nós devíamos agradecer a elas. graças a elas somos capazes de digerir o que comemos. as bactérias são a forma mais bem sucedida de vida. elas sabem como as coisas são mesmo sem ‘inteligência’ ou ‘consciência’. na metáfora evolutiva de que mais gosto, tempo é equiparado a espaço e os bilhões de anos da vida na terra equivalem a um quilômetro. a vida humana existe há dois centímetros.
 
somos pequenos desse jeito e ainda assim nos autocoroamos como o ápice da evolução.
 
já as bactérias, que não fazem idéia de sua importância, estão aí praticamente desde que o mundo é mundo. elas não dão a mínima pra porra nenhuma!
 
isso é que é vida!