Arquivo do mês: maio 2008

taiko

Quando foi a última vez que senti minhas entranhas, meus ossos, meus músculos vibrarem?

 

Fácil.

 

Essa sexta.

 

Fui numa apresentação de percursionistas de taiko e ficou claro o porquê desses tambores serem utilizados como estímulo pros guerreiros em campo de batalha.

 

As ondas sonoras me fizeram sentir vivo mesmo depois de tanto sedentarismo e atividade mental. Fiquei meio receoso de que meu corpo estivesse em processo de atrofia por falta de uso, mas a vibração causada pela batida me provou errado.

 

E é vibração mesmo.

 

O ar se desloca por causa do som. Tentei imaginar como um dos sujeitos com as ji nas mãos se sentiria…

 

Fantástico!

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DESVIO

o que eu mais gosto no trabalho do Jean é que, além de não estar restrito a um único estilo, vê-se sempre a disposição pra tentar coisas novas.

vá conferir: http://www.desvio.art.br

speculum

Sem floreio com a mão, nenhum gesto hipnótico que garanta sua atenção, faço uso de fumaça e espelhos, ‘per speculum…’, enquanto sigo tateando pelo terreno inexplorado da realidade.

 

Conceitos novos que assolam minha parca imaginação no momento:

 

-A área do cérebro responsável pela visão é, também, onde se fomentam alucinações… neurologistas concluem que a visão, portanto, é uma forma controlada de alucinação;

 

-Criamos mitos (judaico-cristão, muçulmano, budista et al.) pra tornar suportável a vida em sociedade. A cultura, a expressão artística, assim é um método de apaziguar as massas.

 

Crowley, como fabulador, talvez não tenha pensado neste uso do ‘tudo é permitido’.

 

Só nos contemos nos nossos acessos de raiva por temer represálias da moral, este fantástico construto, vigente.

 

Tememos a exclusão.

 

Queremos aceitação.

nada

 A sensação é de estar submerso em merda e não poder fazer coisa alguma pra me livrar dela. A velha raiva difusa que costumava sentir e me fazia estourar em momentos menos felizes, quando alvos apropriados se punham em meu caminho, voltou.

 

Só que são tantos motivos dispersos que acionaram o gatilho dessa vez que não sei como lidar com ela. Motivos que não são necessariamente causas ou explicações, claro. Apesar de minha tentativa de racionalizar a sensação, de me colocar sob o microscópio dos lobos frontais, a resposta que grita em minha direção vem do sistema límbico, da amídala, o que seja.

 

“Escrever é perigoso”, diz William Lee em NAKED LUNCH, “não escrevo desde que tinha dez anos”, complementa.

 

Não que eu seja dono da verdade, mas pensar por escrito expõe os nervos, deixa mais sensível pro mundaréu de estultices e desgovernos que assolam a ‘humanidade’. Entre aspas, porque, sério, é uma puta decepção.

 

Dá pra entender por um ângulo totalmente novo o lance do escapismo. Quem quer fazer parte da humanidade aí? Agora, quem quer ser elfo, ciborgue, anão ou outra alternativa qualquer?

 

Prefiro ser designado como primata digitador. Um amontoado de tripas num saco de pele, articulado por ossos, abastecido por sangue.

 

Às vezes gostaria de conseguir ignorar, bom, tudo!

o problema…

…não é mais ser ou deixar de ser capaz de concatenar idéias. lembro de falar com um colega quadrinista sobre minha obsessão com a composição de um roteiro, de minha necessidade visceral de que todas as coisas estivessem no lugar a fim de que a história funcionasse como havia pretendido originalmente… e da resposta que ouvi, paradigmática do povo brasileiro (viva ele!): ‘o importante é fazer.’

na época eu era obsecado por controle. hoje, nem tanto, porque tenho a sorte de colaborar com desenhistas que são intérpretes ótimos e capazes de transformar as sugestões visuais banais que sou capaz de articular em algo atraente, interessante aos olhos do leitor.

sim, é importante fazer, mas… a preocupação com a qualidade do que se faz, onde fica?

escrevo pouco, muito pouco. todos os dias tento reservar meia hora pra escrever. gasto o resto do tempo com minha atividade (pouco) lucrativa (mas que sustenta meu vício em leitura), o convívio com minha parceira, caminhadas não muito extensas e a ocasional cerimônia do café.

ainda assim tenho a pretensão de escrever material que faça sentido. mesmo que dentro de uma lógica distorcida, de um mundo de fantasia, de uma fabulação qualquer.

se sou ou não bem-sucedido, eis a questão, é algo a ser decidido pelos outros.

segundo Luiz Costa Lima, a cultura brasileira, melhor a cultura literária brasileira não é muito dada à reflexão.

será que devo me preocupar?

comics

ler também pode ser um processo de (des)construção textual.

é possível observar, por exemplo, quando falta um argumento que sustente uma afirmação ou um exemplo que a justifique.

foi a sensação que tive lendo um artigo sobre o suposto quadrinho pós-moderno de super-heróis, assim chamado pelo autor por abordá-los de forma diferente, mais complexa, às vezes naturalista-realista, outras, psicológica…

claro, toda observação é válida porque pode servir como ponto de partida pra uma outra, talvez mais acurada, mais justa.

no artigo fala-se das várias eras dos quadrinhos de super-heróis. o que não se menciona em qualquer momento são as mudanças sociais, morais, econômicas que prenunciam, moldam essas eras.

apesar de as hqs terem surgido como fenômeno de massa há não muito tempo, esse status mudou. ainda assim é uma forma de expressão eficaz e reflete, sim, o espírito do tempo em que é produzida. como todo entretenimento.

se hoje temos abordagens que levam em consideração a psicologia dos personagens ou a nostalgia e obsessão dos leitores por continuidade é porque há diversidade no público consumidor.

‘nada a perder’

a seguir, o roteiro da primeira página, que achei que não precisava mais ser mexido por uns dois minutos antes de mudar de idéia. a versão que você lê agora será submetida a revisão e, com alguma sorte, vou acrescentar umas referências ao ‘mito da caverna’ e a Paulo, aquele, da bíblia, e Bob Dyllan, claro.

 

NADA A PERDER

A.Moraes

 

Página 1;

 

Painel 1;

Pepe, um mulato de 18 anos, usando só shorts e tênis apropriados pra atividade, corre por uma rua de pedras (diferente do asfalto costumeiro). Na mão direita uma 9 mm é balançada, acompanhando os movimentos pendulares de seus braços.

 

REC.: Pepe pensa que não devia ter feito o que fez. Não agora, pelo menos… agora que ele é considerado maior, 18 anos.

 

Painel 2;

Vemos Pepe mantendo o ritmo da corrida e virando uma esquina à direita. É engraçado, mas desde que comecei a pensar nesta história, achei que seria interessante que o cenário fosse composto pelo patrimônio histórico, que a trama ocorresse numa cidade cheia de prédios tombados ou algo assim. Dessa forma teríamos um confronto subjacente entre tradição e inovação.

 

REC.: Sua mente trabalha mais depressa que seu corpo, que suas pernas, e vai escrevendo um roteiro bruto do que fazer a seguir.

 

Painel 3;

Pepe passa correndo na frente da fachada de um prédio antigo. As ruas são estreitas e cheias de ladeiras, como em Minas, talvez Ouro Preto.

 

REC.: Deixar o lado histórico da cidade pra trás. Alcançar a banda nova, tecnológica, de ruas largas e menos claustrofóbica.

 

Painel 4;

Pelo beco em que Pepe corre agora, podemos divisar ao seu final uma grande avenida de mão dupla, iluminada, com tráfego intenso de carros.

 

REC.: O cenário afeta seu humor, o desoprime. Ele conta com isso, que essa variação de local afete também seus perseguidores.

 

REC.: Aposta que as luzes e ruas amplas terão um efeito relaxante neles.