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Nihil

A revista Nihil é resultado da 2ª Oficina de Quadrinhos de Araguari / MG, que foi ministrada entre os meses de maio e dezembro de 2009 pelos quadrinhistas Beto Martins e Rosemário Souza (co-editor junto com Matheus Moura da CdiR), com incentivo da Fundação Araguarina de Educação e Cultura e subvencionada pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura. Foi o sr. Souza quem fez a gentileza de enviar uma cópia do material e fiquei surpreso com os resultados.
 
Eram 30 participantes com idades entre 10 e 20 anos. Pessoal novo, alguns muito novos. Tem todo tipo de história na revista, mas alguns gêneros predominam, principalmente ação e aventura, uma iconografiazinha de terror e as mangazices que se pode esperar da molecadinha mais nova. Só pra deixar claro: isso não é uma crítica. Apesar da pouca idade, eles estão fazendo dentro daquilo que gostam e podem.
 
Algumas histórias valem à pena e não dá pra sentir a diferença entre quadrinhistas iniciantes ou o pessoal veterano das hqbs indies.
 
BARBATANA E BORBOLHA EM: PERDIDOS EM ALTO MAR, de João Roberto, é uma gag visual simples e efetiva que empresta alguns recursos de grandes quadrinhistas que não são grandes desenhistas ou não têm tempo pra desenhar a mesma cena de vários ângulos diferentes. O cenário, no entanto, muda e as ‘expressões faciais’ das personagens também;
 
O PADRINHO, de Bárbara Figueiredo, tem arte mais pormenorizada e usa o recurso da referência visual a seu favor, homenageando o cinema como bônus; 
 
LE CHAT, de Renata Rinaldi, prende a princípio pela ilustração eficiente e depois pelo enigma (mas o que esperar de gatos, certo?);
 
VEZES MENOS MAIS, de Talita, tem mais de uma curiosidade, e, diferente das outras hqs destacadas aqui, todas onepagers, tem duas páginas. A quadrinhista usa vários recursos de metalinguagem num espaço exíguo, dois estilos diferentes de desenho pra diferenciar o mundo ‘real’ do ‘das hqs’ e trata de um tema que interessa o pessoal na faixa etária que, acho, ela está incluída. Com umas páginas a mais a hq deixaria de ser boa e se tornaria excelente.
 
Fica a torcida pra que todos os participantes dêem continuidade ao aprendizado iniciado na oficina e desenvolvam seu talento. Aprendizado não se restringe às disciplinas usadas na confecção de uma hq, mas a tudo que se sabe ou pode-se saber a respeito de todo o resto. Aprendizado não se esgota.

Camiño

dá uma nova dimensão à expressão lowlife, né-não? sim, formas de vida ‘inferiores’ (leia-se: dotadas de um tipo diferente de ‘consciência-inteligência’ que nosotros, humanos, arrã, tenemos) são as mais bem-sucedidas nesta bola de lama porque andam por aqui literalmente há eras.
 
e eu estava pensando em adotar uma nova filosofia condizente com minha condição de roteirista-fake e e(x)scr(e)itor: o tao da bactéria! não o ‘tal’ pronome demonstrativo, sabe? o fritzjof popularizou com o seu, ‘da física’. simples-né?
 
mas como sempre acontece com as idéias razoáveis, alguém chegou antes de mim… a de que quem faz ficção e, mais especificamente ainda, quadrinhos, é uma forma de vida inferior (espero que ninguém se ofenda… é só ler no contexto que tudo fica bem), apesar de não ser obrigatoriamente bem sucedida. e fizeram uma revista.
 
Matheus Moura (nome aliterado, jornalista, treina aiki-do… será a identidade secreta de um supa tupiniquim?) e Rosemário são os responsáveis pela empreitada impressa CAMIÑO DI RATO que é uma revista de VERDADE. sério, até no formato.
 
e logo de cara juntaram sujeitos como Danton & Eder, Greco, Franco, Andraus, Bentes, Martins, Freiberger, Marçal, Ivo, Eremita e, claro, eles mesmos. MM ainda assina duas peças jornalísticas sobre hqb e vegetarianismo(no contexto faz todo sentido!). o problema de falar de qualquer revista que traga material tão diversificado é não dar a impressão de que os caras simplesmente pegaram o que estava à mão e imprimiram, que a antologia não passa de um ‘saco de gatos’, só pra manter a metáfora do ‘mundo animal’ com que comecei.
 
tem gente que vai pegar, ler, e não sacar que a proposta é justamente essa: diversidade.
 
os veteranos Franco e Andraus, por exemplo, entram com hqs lírico-filosóficas, não exatamente o que o leitor de supas espera, ou o leitor de histórias com ‘enredo’ espera. Beto Martins faz uma digressão bacana com AS BOAS INTENÇÕES, que me parece ser a cereja no bolo da revista. estas entram naquela categoria mais subjetiva, como convém à crônica e à poesia.
 
Danton & Eder enveredam por outro camiño, a biografia, denúncia ou nenhuma das anteriores com COMO SER ENGANADO POR UM PSICOPATA. o Antonio continua sendo um dos desenhistas mais versáteis com quem trabalhei (ponha juntos aí o sr. Aguiar e meu camarada Daniel, além, é claro, do meu parceiro no crime, Jean Okada).
 
mesmo deixando a desejar no quesito enredo, ENDOPARASITAS chama atenção pro potencial artístico de Greco, mas não se trata de arte de revistinhas de homens-bombom. é mais aquela coisa punk, de garagem, suja… um trampo que me faz lembrar do Mutarelli dos anos 90.
 
Rosemário e MM vão com sêlo de recomendação desta bactéria-escriba que vos fala. até um painel solto do primeiro já vale o preço de admissão. nem vou falar da capa que o cara fez, seria covardia. e os textos do Matheus, cara… mesmo sendo onívoro, pensei seriamente nas conseqüências do consumo de carne. o texto sobre hqb só não ficou melhor por conta de uma revisão menos acurada. mas não se pode ter tudo logo de cara, na 1ª edição, n’est ce pas?
 
será que eles aceitam contribuições de microorganismos?
 
não custa tentar.