Arquivo da tag: grant morrison

sim-outro-também

tava pensando em como os palavrões podem ser divertidos e o quanto tenho rido do texto cada vez mais esdrúxulo dito pelos elencos de trocentas séries da hbo e/ou outros canais.

minha preferida, que mais dá flashback das pornochanchadas  dos 70 exibidas pela tevê aberta dos 80, é true blood.

rárárá

vai falar de trash talk sem mencionar os doidos que escrevem esses diálogos cheios de porra, merda, caralho, filho-da-puta, puta-que-o-pariu e mais outro tanto de incorreção política, blasfêmias,  e ofensas gratuitas, e digo que isso nem chega perto das doideiras que li antes (nem vou mencionar o Bom Marquês, Knut Hansum, Henry Miller e o Chuck) nas boas e velhas histórias em quadrinhos.

com mais efeito, pois havia um contexto, e, melhor, havia uma trama que pedia esse tipo de coisa.

uma das hqs mais lembradas dos 90, PREACHER, tinha tanto palavrão que o Morrison, na época do lançamento de INVISIBLES, tirava o sarro dizendo que o sucesso do gibi era proporcional ao número de vezes que a palavra “fuck!” era usada por edição e, seguindo essa lógica comercial peculiar, mais engraçado ainda, que ele planejava adotá-la como palavra fetiche pra um dos protagonistas da sua própria série, Jack Frost.

como disse antes, rárárá, os 90 forram mais engraçados do que os 80.

toda e qualquer ideia ultrajante – que hoje em dia seria  considerada tão somente ofensiva – era levada às últimas consequências resultando em histórias divertidas mas as pessoas de então eram menos temerosas a respeito de quem seria ofendido por isso e aquilo e aquilo outro, esse monte enorme de estrume que escrevi… não dá pra deixar de rir do elenco de true blood desfiando todos aqueles impropérios sem qualquer convicção porque, episódio-sim-outro-também, a única intenção parece ser chocar e, depois de uma exposição prolongada a uma população cuja principal característica etária é usar o palavrão como A forma de comunicação ideal que assustaria os adultos etc, bom, resumindo, não funciona nem um pouco.

claro que ainda vale à pena dar uma olhada de quando em vez pra espiar as ruivas e brunnetes que dão as caras (mas não só isso) em episódio-sim-outro-também e, óbvio, pelo fator nostalgia que a versão dublada causa, “caralho”, apesar de eu estar “cagando e andando” pra essa “porra”, “filho-da-puta”.

os entre aspas fizeram parte de uma ou duas frases do diálogo inicial dum episódio que vi hoje.

dígitos

às vezes coisas acontecem pra servir de advertência. outras vemos significados em fenômenos acausais porque precisamos que eles existam, precisamos que haja algum sentido na vida. ou só resta um vácuo frio e um dia-após-o-outro de desesperança.

há coisa de mais ou menos um mês comecei a escrever um texto que serviria, na minha imaginação, como justificativa pra minha ausência prolongada do único veículo de auto-expressão de que disponho – este blog, se é que isso ainda não ficou claro – e nele falava de um par de conceitos recém-aprendidos no livro DE ONDE VÊM AS BOAS IDEIAS, de Steven Johnson, um daqueles recursos familiares que quem frequenta estas plagas digitais já se acostumou a ver usado e abusado.

por algum motivo empaquei ali e passei a enxergar aquele produto de esforço como mais um display de minha pretensão. e larguei mão, como fiz tantas outras vezes, com tantos outros textos iniciados e nunca terminados, que me assombram na eventualidade de eu abrir o google docs.

textos natimortos… ainda em construção e já ruína, parafraseando o Veloso, fora da ordem.

na última semana de agosto estive em Sampa e, pra variar um pouco, pude ir à Livraria Cultura onde encontrei, arrá, o livro novo de Grant Morrison, SUPERGODS. terminei de lê-lo segunda feira e acho que serviu de antídoto pras elucubrações em espiral descendente que vinham me ocorrendo e que já começavam a afetar-me fisicamente. coisa psicossomática, mesmo. sentia minhas mãos doloridas e descobria que estavam esfoladas sem que me lembrasse da causa, do incidente que originou as abas de pele levantadas, as lacerações mínimas nos dígitos.

escolhi aceitar a hipótese proposta por Grant em seu livro – de que podemos, de fato, escolher e reescrever o tipo de narrativa em que vivemos, de que podemos optar pelo que acreditamos sem, ao mesmo tempo, deixarmos de ser críticos e ter uma visão imparcial a respeito do assunto – e, coisa mais esquisita, minhas mãos melhoraram e já há uns dias não estão tão esfoladas, nem com abas de pele penduradas, nem com lacerações mínimas nos dígitos.

a vida é narrativa.

acho que, aos 40, finalmente encerrei o primeiro livro da minha.

o segundo está só começando.

vou descobrir como me saio com este.

grrrr

 
eu sei que pode parecer ridículo, que no mais das vezes minhas pretensão e arrogância (demasiado humano, no less!) me fazem parecer o que de fato não penso ser, que meu gosto estético-artístico-bullshítico é no mínimo arbitrário, mas aí vai:
 
eu tenho comprado gibis da Panini. mais esquisito ainda, tenho gostado de lê-los. além dos que Grant Morrison escreve (imbatível, como sempre).
 
não sei se vocês viram, mas essa editora tem publicado uma coleção de reedições de hqs ‘clássicas’ dos personagens medalhões da DC. os parênteses aí não são gratuitos porque tem umas tranqueiras dos anos 80 e 90 que eles enfiam junto com hqs mais interessantes tentando convencer o leitor de que o rótulo é cabível.
 
dessas reedições, a que é de longe mais cool é a do FLASH. quem acompanha CIDADE sabe que sou fã do personagem e até dei um jeitinho de colocar um look-a-like na trama.
 
cara! tem pelo menos duas histórias do John Broome na edição! John Broome é o equivalente quadrinhístico de Lewis Carroll, André Breton e Eugène Ionesco, porra!
 
no final de uma de suas histórias, Barry Allen olha na direção do leitor e FALA COM ELE! em outra, acho que com roteiro de Cary Bates, o Flash encontra com Julles Schwartz, editor da DC na época e pede ajuda dele pra voltar à sua dimensão de origem! e, no final, Julles fica se perguntando que tipo de hq resultaria se ele resolvesse relatar os ‘acontecimentos’.
 
Broome, Schwartz and the like são os ancestrais dos meus autores contemporâneos preferidos. nas histórias compostas pelos sujeitos, valia tudo! ah, claro que não se pode esperar o uso da linguagem seqüencial de que um Eisner foi capaz uma ou duas décadas antes, mas é diversão nobrainner garantida.
a maior qualidade encontrada nas hqs de super-heróis é o escapismo. não precisam nem prestar atenção no que digo, leiam AS INCRÍVEIS AVENTURAS DE KAVALLIER & CLAY, do ganhador do Pullitzer Michael Chabon, que acerta em cheio reciclando as biografias de Siegel & Shuster e dando, não só à literatura mas também aos quadrinhos, o super-herói definitivo com o qual leitores de hqs de supas podem identificar-se sem maiores problemas: o Escapista!
claro que há sempre a possibilidade de enxergar metáforas, mitos e toda a merda que se quiser imaginar nesse tipo de hq, perfeitamente aberto ao repertório do leitor. pena que a maioria dos autores de quadrinhos de supas hoje em dia leve a coisa tão a sério e queira acrescentar um verniz desnecessário de ‘realismo’ (rá!) ao que deveria ser diversão no sentido mais estrito da palavra.
 
mais que fã de histórias em quadrinhos, sou fã de metalinguagem em qualquer mídia.