Arquivo da tag: Steven Johnson

por acaso

tanto tempo sem digitar (maior parte da escrevinhação ainda feita na munheca e às custas de sabe-se lá quantas árvores… é, mesmo que o papel seja reciclado, não convém esquecer sua origem, mas, sim, pensar em quantas vezes ainda dá pra reciclá-lo) que quase consegui me convencer da perda do uso dos dois dedos com que cato milho. nada de novo. já quase me convenci de tantos outros absurdos… R.A.W. já falou bastante da capacidade humana de autoconvencimento ou autohipnose quando se opta por acreditar ou aceita-se sem qualquer espírito crítico algo socialmente imposto.

se, por exemplo, eu decidir acreditar em todo spam que pipoca em minha conta de email e pro qual nem olho mais antes de apagar, o tamanho do meu órgão reprodutor não é satisfatório e eu deveria ler a versão da Bíblia recém-publicada por uma editora católica. eu poderia, assim, me tornar criativo associando as duas ideias a ponto de achar que por ter um pau maior precisaria ser um cristão melhor.

as coisas em que escolhemos acreditar…

claro que o sistema de crenças inclui tudo que aceitamos como certo mas que termina funcionando na maior parte do tempo por puro acaso… o próprio corpo humano. é por acaso que ainda estou vivo, é por acaso que a simbiose da mitocôndria com a célula eucariótica tornou possível a vida multicelular à base de carbono como a conhecemos, é por acaso que alguns de nossos ancestrais aquáticos decidiram aventurar-se em terra firme…

é por acaso que ainda temos água potável e que as cidades e demais aglomerações de primatemaia disseminada não implodiram numa grande epidemia de uma coisa ou outra não plenamente manifesta por falta de, sei lá, um ingredientezinho mixuruca (higiene, hidratação, alimentação, qualidade do ar, privação dos raios do sol ou excesso de calor…. enfim, dá pra criar uma imagem com facilidade, não?)…

também por acaso ou por ter sido acometido por uma onda irremediável de preguiça que tamborilo a transmissão de hoje na solidão da escrivaninha e a envio ao deserto www.

lendo ‘o mapa fantasma’ e pensando em como as bactérias são superiores. inclusive em número, inclusive em esperteza. a maior armadilha em que o ser humano pode cair (e me incluo no gênero enquanto minhas parceiras microscópicas não se apossam de vez do meu cadáver) é acreditar em sua própria importância… ou que tudo faz sentido de uma forma ou outra… que o mundo deixaria de existir sem nós (pra nossa percepção? certamente!)

inercial

nenhuma lei rege o pensamento inercial.

se faltar começo, as probabilidades de desenvolvimento caem a zero. havendo gatilho e fagulha iniciais, no entanto, tudo pode acontecer.

o pensamento inercial (ou intuição lenta, no jargão cunhado por Steven Johnson) geralmente é mantido aceso na fronteira entre consciência e inconsciência por migalhas, detritos, poeira informativa.

uma palavra curiosa aqui, uma distorção inconsequente ali, uma nota no jornal, um detalhe de romance, um o-que-aconteceria-se eu cortasse isso e enxertasse aquilo, polisse um pouco mais esta superfície, reconfigurasse um tantinho a linguagem escolhida desta vez, homenageasse àquela época, aquele autor ou arquitetura.

o pensamento inercial, agora pouco mais que um início de fogo, pede combustível. então torna-se necessário inventar conceitos, roubar ideias, formular hipóteses e tentar, dentro da medida do impossível, corroborá-las.

o pensamento persiste, então, não mais por inércia.

nota rápida a quem interessar possa: a Julia fez um comentário aqui no blog há uns dias e, por sei lá que cargas d’água, o dito cujo foi bloqueado como spam… mas ela só tava pedindo que ajudasse a divulgar algo que acho que seria interessante pros que ainda passam por aqui e dão uma olhada nas besteiras e se interessam por quadrinhos e querem fazê-los sabe-se lá por quê. se foi o suficiente pra despertar sua curiosidade, olha e tente participar.

dígitos

às vezes coisas acontecem pra servir de advertência. outras vemos significados em fenômenos acausais porque precisamos que eles existam, precisamos que haja algum sentido na vida. ou só resta um vácuo frio e um dia-após-o-outro de desesperança.

há coisa de mais ou menos um mês comecei a escrever um texto que serviria, na minha imaginação, como justificativa pra minha ausência prolongada do único veículo de auto-expressão de que disponho – este blog, se é que isso ainda não ficou claro – e nele falava de um par de conceitos recém-aprendidos no livro DE ONDE VÊM AS BOAS IDEIAS, de Steven Johnson, um daqueles recursos familiares que quem frequenta estas plagas digitais já se acostumou a ver usado e abusado.

por algum motivo empaquei ali e passei a enxergar aquele produto de esforço como mais um display de minha pretensão. e larguei mão, como fiz tantas outras vezes, com tantos outros textos iniciados e nunca terminados, que me assombram na eventualidade de eu abrir o google docs.

textos natimortos… ainda em construção e já ruína, parafraseando o Veloso, fora da ordem.

na última semana de agosto estive em Sampa e, pra variar um pouco, pude ir à Livraria Cultura onde encontrei, arrá, o livro novo de Grant Morrison, SUPERGODS. terminei de lê-lo segunda feira e acho que serviu de antídoto pras elucubrações em espiral descendente que vinham me ocorrendo e que já começavam a afetar-me fisicamente. coisa psicossomática, mesmo. sentia minhas mãos doloridas e descobria que estavam esfoladas sem que me lembrasse da causa, do incidente que originou as abas de pele levantadas, as lacerações mínimas nos dígitos.

escolhi aceitar a hipótese proposta por Grant em seu livro – de que podemos, de fato, escolher e reescrever o tipo de narrativa em que vivemos, de que podemos optar pelo que acreditamos sem, ao mesmo tempo, deixarmos de ser críticos e ter uma visão imparcial a respeito do assunto – e, coisa mais esquisita, minhas mãos melhoraram e já há uns dias não estão tão esfoladas, nem com abas de pele penduradas, nem com lacerações mínimas nos dígitos.

a vida é narrativa.

acho que, aos 40, finalmente encerrei o primeiro livro da minha.

o segundo está só começando.

vou descobrir como me saio com este.