Arquivo do mês: setembro 2011

inercial

nenhuma lei rege o pensamento inercial.

se faltar começo, as probabilidades de desenvolvimento caem a zero. havendo gatilho e fagulha iniciais, no entanto, tudo pode acontecer.

o pensamento inercial (ou intuição lenta, no jargão cunhado por Steven Johnson) geralmente é mantido aceso na fronteira entre consciência e inconsciência por migalhas, detritos, poeira informativa.

uma palavra curiosa aqui, uma distorção inconsequente ali, uma nota no jornal, um detalhe de romance, um o-que-aconteceria-se eu cortasse isso e enxertasse aquilo, polisse um pouco mais esta superfície, reconfigurasse um tantinho a linguagem escolhida desta vez, homenageasse àquela época, aquele autor ou arquitetura.

o pensamento inercial, agora pouco mais que um início de fogo, pede combustível. então torna-se necessário inventar conceitos, roubar ideias, formular hipóteses e tentar, dentro da medida do impossível, corroborá-las.

o pensamento persiste, então, não mais por inércia.

nota rápida a quem interessar possa: a Julia fez um comentário aqui no blog há uns dias e, por sei lá que cargas d’água, o dito cujo foi bloqueado como spam… mas ela só tava pedindo que ajudasse a divulgar algo que acho que seria interessante pros que ainda passam por aqui e dão uma olhada nas besteiras e se interessam por quadrinhos e querem fazê-los sabe-se lá por quê. se foi o suficiente pra despertar sua curiosidade, olha e tente participar.

think punk

uma semana sem exercícios foi suficiente pra estancar o fluxo de opióides endógenos – endorfina, serotonina and the like – e me deixar insatisfeito o bastante pra voltar a bater nas teclas em busca de coerência e auto-expressão.

devido a uma série de limitações de caráter genético, nunca consegui pensar bem o bastante sem o auxílio da tecnologia verbal e só alcanço a expressão ótima por escrito. ainda assim ser mal compreendido em tempos de reflexão escassa e trabalho-trabalho-trabalho é mais que lugar comum. vou te poupar do superlativo porque ficaria muito ‘josé-dias’ além de a palavra ser semelhante a ‘comunismo’. e não queremos mal-entendido algum, certo?

antes um momento de background pra que fique claro de onde vem tudo isso: na segunda metade dos 80, quando conheci Frater R., este estava muito interessado no movimento punk o que , por extensão, também me interessou. apesar do atraso de pouco mais de uma década, o punk ainda tinha bastantes atrativos pra manés como eu, ávidos por fazer algo parecido com arte, mas seriamente doutrinados pelo status quo pra pensar que, sendo oriundos da classe trabalhadora, essa era uma ambição que não nos cabia.

o ‘do it yourself’ do punk me fez ver que as coisas não eram tão quadradinhas e havia espaço de manobra pra, pelo menos, fazer uma tentativazinha. tempo, espaço e outras palavras que dêem ideia de grandiosidade mostraram que o ‘do it yourself’ inicial, com os recursos esparsos de que dispunha então, podia passar por vários upgrades antes de ser dado a público. este aqui foi um dos primeiros, mais de 10 anos depois das tentativas iniciais.

à vaca fria: a carência de opióides e a preguiça generalizada me fizeram voltar a pensar. e pensar sempre traz algum tipo de resultado.

outra coisa geralmente ignorada nessas horas de processo criativo ou quando se menciona criatividade é a importância da memória. importa não só ter ideias, mas também lembrar de informações apreendidas ou história vivida.

então cá estava, inerte e insatisfeito como é preciso, necessitando findar o processo metabólico da escrevinhação compulsiva, quando percebi que, afinal, tinha chegado no ponto de maturação necessária pra por uma história no papel.

os cliques finalmente clicaram e assim por diante.

só isso não é suficiente, claro, então comecei a pensar num modo de dar a história supra ao mundo e acho que cheguei mais ou menos ao que será necessário fazer pra escoar essa produção específica.

agora é só esperar pra ver se o material vai emergir como espero que aconteça. em algum ponto do ano que vem, quando o mundo estiver acabando pela primeira vez nesta década.

crunch!

esta é uma das primeiras vezes em que abordo a página (virtual) em branco de forma mais ou menos consciente… tenho consciência dum propósito inexistente ao martelar as teclas, quer dizer, propósito existe, só tou incerto com relação a quem, além de mim mesmo, pode ser beneficiado com essa súbita necessidade de cometer mais um texto – quando sei que, a cada segundo, alguém que tem realmente algo a dizer transmite seus juízos através da rede sutil e fantasmagórica que, mal ou bem, nos conecta no séc. xxi.

um par de notícias me fez encarar os dias da semana passada com um pouco menos de cinismo. não, na verdade não interessa quais notícias, a não ser que deixem de pertencer ao hipotético e passem a manifestar-se como realidade – apesar das incertezas com relação a existência desta.

– DREAMLOGcrunch: um sonho gozado na madrugada de sexta pra sábado: reencontrei um editor independente premiado numa visita à sua cidade e, sei lá por que cargas d’água, era conduzido ao inferno por ele e o inferno era uma réplica exata, porém subterrânea, do local de trabalho secular;

– COMICREADINGcrunch:entre ontem e hoje li uma série de quadrinhos que me pegou desprevenido por ser tão boa. nunca pensei que algo baseado nos vilões de uma linha de brinquedos que existe há 40 anos ou mais seria entretenimento de boa qualidade;

– GUILTYPLEASUREcrunch: cheguei ao cap. 57 de THE STAND, livro do King que li em português no final dos 80 e tou relendo agora no original e numa versão revista e ampliada. 800 e poucas páginas já foram faltam 300 ou mais;

– BOOKREADINGcrunch: cerca de 50 páginas restando de RESPIRAÇÃO ARTIFICIAL. lendo a edição de bolso da Cia das Letras e rindo à toa com a brincadeira de discurso direto – indireto que Piglia faz, e dum pastiche joyceano encavalado ali no meio.

na minha cabeça, quase nada acontecendo.

dígitos

às vezes coisas acontecem pra servir de advertência. outras vemos significados em fenômenos acausais porque precisamos que eles existam, precisamos que haja algum sentido na vida. ou só resta um vácuo frio e um dia-após-o-outro de desesperança.

há coisa de mais ou menos um mês comecei a escrever um texto que serviria, na minha imaginação, como justificativa pra minha ausência prolongada do único veículo de auto-expressão de que disponho – este blog, se é que isso ainda não ficou claro – e nele falava de um par de conceitos recém-aprendidos no livro DE ONDE VÊM AS BOAS IDEIAS, de Steven Johnson, um daqueles recursos familiares que quem frequenta estas plagas digitais já se acostumou a ver usado e abusado.

por algum motivo empaquei ali e passei a enxergar aquele produto de esforço como mais um display de minha pretensão. e larguei mão, como fiz tantas outras vezes, com tantos outros textos iniciados e nunca terminados, que me assombram na eventualidade de eu abrir o google docs.

textos natimortos… ainda em construção e já ruína, parafraseando o Veloso, fora da ordem.

na última semana de agosto estive em Sampa e, pra variar um pouco, pude ir à Livraria Cultura onde encontrei, arrá, o livro novo de Grant Morrison, SUPERGODS. terminei de lê-lo segunda feira e acho que serviu de antídoto pras elucubrações em espiral descendente que vinham me ocorrendo e que já começavam a afetar-me fisicamente. coisa psicossomática, mesmo. sentia minhas mãos doloridas e descobria que estavam esfoladas sem que me lembrasse da causa, do incidente que originou as abas de pele levantadas, as lacerações mínimas nos dígitos.

escolhi aceitar a hipótese proposta por Grant em seu livro – de que podemos, de fato, escolher e reescrever o tipo de narrativa em que vivemos, de que podemos optar pelo que acreditamos sem, ao mesmo tempo, deixarmos de ser críticos e ter uma visão imparcial a respeito do assunto – e, coisa mais esquisita, minhas mãos melhoraram e já há uns dias não estão tão esfoladas, nem com abas de pele penduradas, nem com lacerações mínimas nos dígitos.

a vida é narrativa.

acho que, aos 40, finalmente encerrei o primeiro livro da minha.

o segundo está só começando.

vou descobrir como me saio com este.

duelo

li ‘os duelistas’, de Conrad, num período de poucos dias, entre uma aula e outra, e a construção da narrativa é tão dinâmica que tornou-se difícil simplesmente deixar D’Hubert e Féraud em favor de qualquer outra leitura. difícil não significa impossível, claro.

comprei a edição da L&PM numa dessas bienais – já frequento as ditas há mais de 10 anos e não consigo lembrar se foi na última ou na penúltima – por causa do filme de Ridley Scott, assistido há anos sem conta, numa outra cidade, no que parece hoje ser um mundo perdido.

vi porque Harvey Keitel estava no elenco e sou muito parcial com esse sujeito.

mesmo depois de tanto tempo da experiência, é impossível dissociar a imagem de Keitel de Féraud, e li a narrativa com ele e Carradine em mente, as descrições físicas de Conrad mostrando o acerto de Scott na escolha do elenco.

retornei à essa história porque já não lembrava mais do filme e não lia coisa alguma de Conrad desde ‘o coração das trevas’.

depois de ver toda a tensão construída em torno da desavença dos dois hussardos sobre uma questão irrelevante, irracional, até, em diversos embates num período de dezesseis anos (durante a campanha militar de Napoleão Europa à fora), achei gozada a solução oferecida pelo Joe… a violência e as feridas desses encontros, reduzidas à quase nada diante do amor recém descoberto por um deles, e a saída razoável, comedida e, de certo modo, generosa para com ambos.

mesmo o que seria automaticamente classificado como ‘vilão’ do texto não recebe o tipo de punição considerada necessária, inevitável na literatura do período.

a clareza e concisão do trabalho de Conrad são as cerejas no bolo.