Arquivo do mês: fevereiro 2010

paralela

                 

Realidades alternativas não são novidade há um tempo. Toda mitologia, poema épico e ficção, qualquer que seja seu gênero, podem ser considerados dessa forma, como relatos possíveis somente em mundos paralelos.

Talvez isso justifique a atopia das peças de Bill Shakespeare, ou os erros de Stoker ao descrever o percurso de suas personagens até o cemitério em que Lucy está enterrada. Talvez não.

Bioy Casares descreve a travessia de um piloto de avião a um mundo em que o império cartaginês nunca foi derrotado por Roma. K. Dick elabora de modo convincente a geopolítica  e a vida de uns poucos personagens no pós-guerra de um mundo em que o Eixo venceu. Até Nabokov colaborou com o subgênero da ficção científica ao descrever as aventuras sexuais incestuosas de meio-irmãos residentes na Antiterra. Margaret Atwood, uma das poucas mulheres a participar desse rol, puxa a brasa pra sua sardinha e expressa preocupações verdadeiras sobre problemas reais criando um mundo orwelliano em que as mulheres ocidentais são submetidas ao mesmo tratamento que as muçulmanas numa América do Norte fundamentalista.

League of the Extraordinary Gentlemen, uma das criações recentes mais bacanas de Alan Moore e Kevin O’Neill, teve suas raízes lançadas nas primeiras HQs que o primeiro escreveu quando assumiu SwampThing. Num texto que falava da participação da Justice League nas aventuras iniciais do Elemental, Moore compara o grupo super-heróico com uma reunião dos principais personagens dos romances de aventura do século XIX, talvez inspirado pelo trabalho de Philip Jose Farmer.

Conscientemente ou não, a idéia formulada nos 80 retornou no fin de siécle com a publicação do primeiro volume das aventuras conjuntas de Mina (ex-Harker) Murray, Allan Quatermain, Mr. Hyde/Dr. Jekyll, Hawlley Griffin (um dos homens invisíveis) e Capitão Nemo, reunidos pelo equivalente do MI5 da época para enfrentar um vilão oriental nos moldes de Fu Manchu que pretende cometer atos de terror contra Londres utilizando-se de uma máquina voadora movida a cavorita.

Na segunda aventura, o grupo enfrenta uma invasão marciana nos moldes do livro de Wells e, com a ajuda do Dr. Moreau, a vence.

Este fim de semana consegui terminar de ler Black Dossier, que é HQ, prosa, arte 3D e muito mais. Usando a narrativa seqüencial como frame device das outras linguagens incluídas no livro, os colaboradores mostram Mina e Quatermain numa Inglaterra equivalente a de 1984, nos anos 50 do século XX, recuperando o dossier que dá título a história e justifica excertos de uma peça nunca concluída de Shakespeare em que Prospero e Orlando são agentes da rainha britânica e das fadas Glorianna, relatórios de agentes secretos que tentam traçar os passos da equipe de Murray, um catecismo (nos moldes de Carlos Zéfiro), tiras de jornal sobre a vida e as épocas que a personagem de Virginia Woolf atravessou, simulacros de cartuns da revista Punch, trechos de prosa que cruzam o lovecraftiano Cthullu com o mordomo Jeeves e os beatniks com um plus: preocupação em fazer um pastiche convincente de ambos.

Tipo de publicação que tem alguma coisa pra cada pessoa e faz ter vontade de fazer algo parecido. Um fio narrativo que sirva pra acomodar materiais em mais de uma linguagem. Pra pensar.

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hellfinger

Tarde. Evitando álcool por razões médicas. Suco de laranja primeiro, abacaxi na seqüência. Fraters Frey e R. bebendo cerveja, a marca não importa, só que esteja gelada. Ao manipular um dos tomos proibidos na mesa ao ar livre, Frater R. é vítima de um ataque psíquico massivo que, entre outras coisas, afeta terrivelmente sua coordenação motora e faz com que derrame o líquido sagrado da comunhão com Nyarlathotep sobre mim, um batismo profano e mal calculado que quase apaga meu cigarro.

Desfio uma ladainha de impropérios e esconjuros que faz com que os paquistaneses e o casal de adoradores do diabo das mesas circundantes ergam seus rabos heréticos, acertem suas respectivas contas e escafedam-se na noite que se anuncia.

A alta-sacerdotisa traz um pano molhado e limpa a mesa.

Mais calmo, distribuo entre os irmãos cópias do hinário recém-entregues pelo correio. Cantamos ao som da Camiño di Rato #3.

Frater R. tenta a redenção entoando o mantra da criação de sua personagem, O homem dedutivo, o que compraz a congregação que se junta a ele e entra em transe criacional do qual emerge o místico definitivo.

Julius Hellfinger, proctomante.

A especialidade de Hellfinger é prever o futuro usando um método escatológico desenvolvido a partir da combinação de suas duas maiores paixões: a medicina, na qual especializou-se em proctologia e a futurologia, na qual especializou-se, bom, em prever o futuro.

Homens poderosos curvam-se para Hellfinger, em mais de um sentido, a fim de saber o que o amanhã lhes reserva. Eles tremem ante a expectativa da intrusão mapplethorpeana de Julius e, dependendo do padrão que seus excrementos formem ao aderir ao dedo metafísico do proctomante, há choro e ranger de dentes, ou suspiros e alívio. Julius é um homem de personalidade magnética e seus consulentes não o esquecem com facilidade.

Apesar de, quase sempre, desejarem nunca tê-lo consultado. O preço de saber o futuro é muito alto e traz conseqüências terríveis, principalmente aos desventurados que sofrem com hemorróidas e as tão temidas fissuras anais (não esse tipo de fissura, Joãozinho).

Na maior parte do tempo, Hellfinger, ao ler os padrões ainda mornos em seu dedo, vaticina:

“Vejo muita merda em seu futuro”.

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o relato acima tem alguma ficção e não se pode confiar totalmente no narrador, que tomou liberdades excessivas. a coisa toda foi originada entre gargalhadas, três amigos falando merdas, bebendo etc. trabalho criativo em rede sem auxílio da internet.

o novo amigo da casa é o blog Literativa, iniciativa pra lá de bacana do Ricardo, que deve incentivar todo mundo a praticar atos criativos, psicomagia jodorowskyana.

borboleta_pg.01

e BORBOLETA começa a tomar forma, cortesia do gentleman dos quadrinhos indies, Edu Mendes.

tentativa

Tnttv

Estranho olhar pras palavras desse jeito.

Hoje gastei umas horas do dia fazendo o tipo de exercício que pode significar tudo ou nada. Um ato poético, algo voltado à criação, ou pura futilidade, perda de tempo. O que foi de verdade? Ainda por decidir.

Mudo de idéia com muita facilidade.

O exercício consistia em ajustar um timer pra tocar num intervalo de tantos minutos e, num caderno (optei por fazer isso analogicamente), anotar, sob três colunas diferentes, ‘o que estava fazendo’, ‘o que estava pensando’, ‘o que queria fazer’ a cada vez que o alarme soasse.

Atenção ou espreita, depende do autor que você lê. É esse o exercício.

Apesar de perceber que nunca estava fazendo algo em que estava pensando ou que gostaria de estar fazendo, a atividade teve um efeito relaxante. Foi quase como meditar. Aquele lance de prestar atenção em si mesmo que normalmente não fazemos.

Neurofeedback xamânico.

Tivemos um almoço português uma vez na faculdade, num fim de semana, só as pessoas de nossa turma. Na época eu devorava os livros de Castañeda e, enquanto comia bacalhau, alinhei ‘fazer’, ‘pensar’ e ‘querer’ na mastigação, saboreando o alimento, tão concentrado naquilo que os colegas me pediam pra passar o vinho e eu não ouvia (em 95, pré-perda de audição). Gozado como tinha esquecido disso.

Comer pensando em comer e querendo comer.

Essa é uma das coisas que mais me estressam, a atenção esparramada em diversas preocupações e tarefas a realizar enquanto só sou capaz de umas poucas e, quase sempre, nunca de uma vez só. Ao menos se quiser fazer bem feito.

A atenção do indivíduo que produz qualquer tipo de material, seja arte ou entretenimento, tende a ser desfocada num modo multitarefeiro que não deve ser saudável, salvo àquelas raras exceções superdotadas.

Comecei a escrever isto aqui sem um foco, talvez com a intenção de dar continuidade aos pensamentos pouco pensados da última entrada ou só contar a experiência, sei lá, e terminei encontrando um fiozinho que une as duas coisas.

O artista ou escritor que se dedica a fazer ficção, autobiografia, prosa pura, HQs, poesia, ensaio, pintura etc., precisa ter uma profissão, um emprego ou trabalhar como freelancer pra sustentar a atividade de que gosta de verdade.

E a dita cuja, geralmente, é rotulada como hobby… outro fator de estresse, outra bifurcação de atenção… talvez a pessoa não se dedique tanto a alcançar um resultado superior porque, porra, é só um hobby.

Mas entretenimento ou arte é (são) campo(s) de atuação supersaturado(s)… porque, cacete, todo mundo escreve ou todo mundo se acha talentoso pra uma ou outra coisa, seja jogar futebol ou cantar.

O chato e frustrante é que ainda não temos, como num dos futuros próximos do Gibson, subculturas suficientes pra toda essa produção ser mais diversificada. Sim, temos nichos de consumo pra produtos diferentes, mais caros, com melhor acabamento, ou mais baratos, que seja, mas isso é o bastante pra absorver tantos super-heróis?

Qual a cara da HQB? A pergunta pode até não parecer válida, temos autores em vários gêneros e subgêneros diferentes, mas o grosso continua insistindo em escrever supas, desenhar supas, ou fazer histórias de aventura com personagens recorrentes obedecendo basicamente aos mesmos estereótipos dos supas. supas disfarçados de qualquer outra coisa.

desenhistas

Ler comics – os poucos indies a que tenho acesso, tanto em português quanto no original, mais que compensam as deficiências – do mainstream (exceção recente: THE WINTER MEN) tem sido uma verdadeira tortura… às vezes é quase como se estivesse jogando dinheiro fora…

Nem todo ilustrador tem o dom da narrativa. A coisa é séria. Até entendo a necessidade dos caras em pensar o produto como roteiro e storyboard pra futuros projetos cinematográficos, mas quase sempre a narrativa é truncada. No blog de Rick Johnston, há pouco tempo, ele tem escrito umas entradas pra lá de engraçadas em que explora justamente esse aspecto da narratividade.

Os caras sequer podem usar a desculpa do experimentalismo pra justificar a inépcia generalizada. Até bons ilustradores pisam legal na bola nesse quesito que deveria ser, hm, uma segunda natureza, uma vez que se produz arte seqüencial.

Sei lá. Talvez eu só esteja sendo chato.

O layout de uma página, a dinâmica das figuras humanas em oposição a cenários, a ilusão de tridimensionalidade… esses fatores precisam ser mobilizados, fazer parte do repertório do desenhista se ele quiser alcançar alguma, melhor, qualquer narratividade.

Enquanto alguns vão com demasiada sede ao pote, outros nem tentam. Conversando por email com um recém-convertido à prática pouco aconselhável de escritura de roteiros pra quadrinhos, ele comentou que o desenhista envolvido no projeto pessoal que vêm desenvolvendo está com dificuldade pra começar a história. Ah, como se fosse possível alcançar os mesmos resultados que seus ídolos assim, de estalo, por pura inspiração.

Os ídolos provavelmente são desenhistas highprofile americanos ou ingleses que tiveram anos de experiência remunerada fazendo trabalhos sofríveis até que, com a prática contínua, alcançaram excelência.

É um dos problemas de ser jovem e inexperiente demais, de ter vivido pouco e lido menos ainda (dá pra imaginar quantos só lêem histórias em quadrinhos). A gente pensa que sabe tudo. Sei disso porque, porra, já soube tudo.

A sensação é ótima. Você sente a energia primordial da criação percorrendo suas veias e sabe que, quando abrir o processador de texto ou tocar seu lápis transcendental no papel, o milagre acontecerá. Todas as peças se encaixarão como mágica e você, o fazedor, será erguido nos ombros dos fãs, ovacionado por seus pares por ter conseguido um acerto tão fodidamente grande na primeira tentativa.

Essa efervescência é como um pico. Ou uma carreira. Você se sente ótimo por um tempo. Se tiver algum senso crítico vai reconhecer os erros e acertos como fruto de uma tentativa. E é assim que se aprende. Fazendo, errando, voltando e estudando mais, fazendo e se fodendo novamente (tanto trabalho, tanto tempo desperdiçado), voltando a estaca zero, reaprendendo do começo, pensando qual seria o melhor processo pra contar aquela história específica, afinando seu estilo, estudando…

Se faltar a porra do senso crítico vai ser pior. Você pode mostrar pros amigos o material e eles vão dizer que tá do caralho, que você é a reencarnação de algum desenhista pica grossa e mais um monte de merdas genéricas e sem noção que amigos costumam dizer pra não magoar amigos ou só pra fazê-los calarem a porra da boca e pararem de pentelhar com essa coisa de olha-aqui-minha-história.

Ou ainda vai mostrar o material pra algum veterano amargurado que vai te provar por a mais b que você é cego de nascença e não faz idéia de como desenhar ou fazer qualquer outra coisa, além de te convencer que fazer quadrinhos foi o pior erro que ele próprio cometeu.

É foda mas é assim.

Então desconfie de elogios rasgados e não se acomode porque conseguiu copiar aquele quadrinho deslumbrante da página não-sei-qual que Bryan Hitch desenhou pro ‘ultimates’ número tanto. Porra, Bryan Hitch era um clone pobre do Alan Davis quando começou, no fim dos 80, começo dos 90. Davis misturava Neal Adams e John Byrne (que era um clone de Adams no início de carreira) de um jeito meia-boca nas primeiras histórias que ilustrou. Adams não era tão bom em anatomia humana e dá pra continuar essa lenga-lenga ad infinitum…

Desconfie da certeza de que já sabe tudo. Diferente dos desenhistas gringos, os brasileiros não são remunerados pra aprender e boa parte dos que se dão ao trabalho fazem isso em momentos livres do trampo secular, que precisam manter porque têm contas a pagar, além de comida a comprar. É fácil pra quem nasce em berço esplêndido, pra quem tem uma mamãe e um papai que bancam tudo e, por acaso, são tão talentosos quanto o monte de famintos que querem fazer o mesmo mas não têm os meio$.

Então use isso a seu favor. Use a fome, a vontade de fazer melhor, de alcançar reconhecimento e estude e produza montes de merda até chegar em algo passável e continue a produzir que o passável vai tornar-se agradável e efetivo e, no final, excelente.

Mas não tem jeito, não dá pra procrastinar.

Tem que fazer.

Aproveite e dê uma olhada no blog do Gerson Lee, Janelas.

E no Labirinto, onde cê encontra o 9º e 10º segmentos de AO INFERNO PELA COMPANHIA. Acabei de editar o epílogo e aí, pá, cabou.

mangás

No que agora parece ser outra vida, eu lia e gostava de um mangá publicado pela Panini. FC. A trama inicial só seria mais clichê se, ao fim da história, um homem e uma mulher sobrevivessem ao cataclismo da vez, ao grande desastre, qualquer que fosse e tivessem que repovoar a terra. Mas nunca vou saber o final, como você vai descobrir num instante.

Algo a ver com uma praga que atacava em consumia seres humanos, literalmente cristalizando-os. Um robô militar foderoso, também. E um protagonista adolescente e ingênuo.

Lembro de ter lido o #1 e pensado algo como Mais um mangá que segue exatamente a mesma estrutura de todos os outros mangás, significando que a tal estrutura é muito parecida com os games primitivos e atuais, com aumento de perigo a cada fase e assim por diante.

Vocês sabem…

Não lembro exatamente por qual motivo, provável que minha inércia absoluta, continuei comprando e lendo o troço sem qualquer esperança de que fosse melhorar ou que chegaria a algum lugar.

Nem em que número foi, mas a porra do robô foi eliminada da trama e as coisas começaram a ficar interessantes. Tecnologias e personagens bizarras começaram a pipocar e, numa das storylines, um troço parecido com uma revolução começou e o mangaká colocou até umas prostitutas como coadjuvantes.

Intriga e conspiração, o submundo do crime pós-praga, inteligências artificiais, o caso do adolescente ingênuo com uma das prostitutas… enfim, era um bagulho que eu esperava todo mês pra ler, agora não mais por inércia, mas por curiosidade.

Que merda o cara faria na seqüência?

O nome do mangá era ÉDEN e, por causa de uma estratégia falha, foi descontinuado. A princípio os atrasos eram justificados com a ladainha de sempre de renovação anual de contrato com a editora japonesa. Ok, justo que a gente espere.

Depois a edição nacional tinha alcançado a japonesa e não tinha como dar continuidade, daí… bom, essa desculpa é perfeita, certo? Não temos esse produto pra atender a tal demanda.

Há dois ou três anos a mesma editora começou a publicar outro mangá, também de fc, que me deixou curioso a ponto de querer lê-lo. Dessa vez são dois protagonistas adolescentes, a história se passa no presente, mas envolve tecnologia e criaturas bizarras.

Tá percebendo um padrão?

Li o 1º descrente da qualidade do material, a mesma desconfiança de sempre. Terminei comprando alguns outros números meio como quem não quer nada. A estrutura era exatamente a mesma: games, níveis de dificuldade diferentes…

Larguei mão. Fui ler outras coisas.

Sem ter nada de novo pra ler em casa, um dia comprei um par de #s em ordem e o mangaká, dentro de 400 páginas, mudou todo o status quo da série. Matou protagonistas e começou a transformar a personalidade de um dos sobreviventes.

Não foi algo feito de uma hora pra outra. O cara ficou ali trabalhando devagar e fez um moleque egoísta, covarde e insosso passar a se preocupar com os outros, a se importar. Ficou convincente, bem executado.

Cara, qualquer coisa pode acontecer nessa merda. As regras não estão escritas em pedra, pensei. E foi assim que comecei a ler GANTZ com assiduidade e até corri atrás de uns #s que não tinha pra, logo no final do ano passado, ficar sabendo da renegociação do contrato e da suspensão da publicação por uns meses, mas dessa vez com a data da morte estabelecida, já que a versão brasileira deve alcançar a japonesa em breve.

Nem vou dizer que isso é exclusividade da Panini porque a Conrad fez exatamente a mesma coisa com outros dois mangás que eu lia, SANCTUARY e BLADE, sem contar OORU, que supostamente era uma história mais curta mas que sumiu depois do #3.

Sei lá o que pensar disso.

Acho que vou deixar de ler mangás ou pelo menos esperar a história toda ser publicada pra garimpar os #s atrasados depois.

hoje: 6º segmento de ‘ao inferno’. uma personagem que é (bem) mais do que aparenta dá as caras.

winter men

Xeu dizer isso logo de cara: puta-que-o-pariu!

Há muitas luas uma HQ do mainstream norte-americano não me impressionava. E não tou dizendo que os caras reinventaram o vocabulário, a gramática ou a sintaxe da linguagem, coisa que muitos autores afirmam ter realizado e só uns poucos fizeram de fato.

Usando um storytelling tradicional, sem firulas, só os recursos narrativos de sempre, o roteirista Brett Lewis e o ilustrador John Paul Leon contaram uma daquelas histórias que não dá pra parar de ler.

A premissa é bacana e a princípio até pensei que os caras tavam reciclando personagens da DC que ficaram conhecidos nos anos 80, os sovietes supremos, soldados russos em armaduras brancas e vermelhas que serviam a URSS antes de seu desmantelamento pós-glasnost, pós-perestroika. Enfim, aquele instinto leve de fanboy que assombra até mesmo o mais empedernido crítico fez bater a curiosidade.

O plus era a arte do John Paul. Curiosidade dobrada.

Daí uns caras que entendem do riscado começaram a falar bem da história, o que fez o dial da curiosidade girar mais uns pontos. Quando começaram a chegar as notícias de que a série agora seria uma mini-série de 8 números o sinal de perigo começou a tocar. Quando divulgaram que iam abreviar a parada pra 7, pensei com meus botões ‘nunca vão publicar esse troço em tpb’. Quando o 6º número demorou meses pra se materializar e depois foi substituído por um irônico ‘winter special’ final, minha certeza era quase absoluta.

Por algum motivo tudo mudou, publicaram o tpb e passei o domingo me deliciando com ele.

Então, após o desmanche da União Soviética, a ‘ameaça comunista’ com que assombravam todo mundo desde o fim da 2ª guerra, várias unidades das forças especiais russas tornaram-se, como se diz no vocabulário dos administradores de empresa, redundantes e esses caras altamente treinados ficaram sem emprego. Alguns foram absorvidos pela polícia, outros tornaram-se soldados de aluguel, guarda-costas e até mafiosos.

Os caras dessa unidade específica, a RED-11, protagonistas da história, eram pilotos de ‘tanques foguetes’, como eles mesmos definem suas armaduras, os spetsnaz que pilotavam essa tecnologia maluca e pertenciam ao programa winter men, que visava a criação de super-humanos. Eles faziam parte da divisão de armaduras, que era um recurso pra deixar em xeque a divisão que tinha criado super-humanos verdadeiros.

Doideira, né?

Mas esse é o mundo paranóico em que os caras cresceram, um pouco mais fantasioso que nossa realidade, pero no mucho.

A história começa com o seqüestro de uma criança. Kris Kalenov, o policial que vemos pela primeira vez caído na neve e dado como morto pelos guardas do parque, e ex-membro da RED-11, spetsnaz, é quase imediatamente envolvido na investigação, o que implica uma viagem aos EUA onde ele se infiltra na mafiya local a fim de rastrear a tal criança, o mcguffin que põe a trama em movimento.

Drost, o soldado, aparece e já toma parte ainda no comecinho. Depois é a vez de Nikki, o gangster, Nina a guarda-costas e, só no último episódio, o Siberian, a que Kalenov se refere quase como uma criatura de outro mundo (que ele é, de fato).

Sou super-curioso com relação ao estado da Rússia pós-abertura, capitalista, e uma das coisas que Lewis fez muito bem foi a pesquisa. A corrupção está em todos níveis (nenhuma novidade aqui, vivendo no país em que vivemos todo mundo sabe disso), mas a coisa é disseminada de um jeito maluco. Todo mundo é corrupto. Não tem um só Quixote, inclusive os protagonistas, que, se não fazem vista grossa pro ilícito, participam ativamente dele.

É uma história sem heróis, mas com um super.

O bacana é que mesmo os caras tendo debandado a unidade e cada um assumido uma posição que poderia até mesmo ser considerada antagônica aos outros eles ainda são fiéis aos companheiros de unidade. A interação entre eles é um barato.

São amigos.

Lewis também fez um troço cool com a língua inglesa aqui. Ele adotou várias expressões da língua russa características, assim como adaptou o modo como formulam a frase. Tá, é tudo em inglês, compreensível, mas é aquele inglês que a gente sente meio truncado, que não é a língua materna do falante. Do John acho que nem preciso falar muito, já que o trampo dele é bem disseminado no mainstream, tendo desenhado franquias gigantes como Batman, X-men e correlatos.

e, claro, como é praxis agora, 5º segmento de ‘ao inferno’ upado. Lucas Profit recebe a visita de Lúcio. Izzy monopoliza a conversa.