Arquivo do mês: agosto 2008

GH#4

Talvez não fosse suficiente pra dissolver o bloco de raiva que senti formar-se em meu estômago desde ontem, mas me encaminhei, depois da falta de semana passada, pro meu endereço de correspondência e encontrei lá mais do que esperava.

O que esperava: um pacote (mais-que-bem-vindo) da Livraria Cultura;

Não esperava: o envelope com o #4 de GARAGEM HERMÉTICA.

Cumpri as obrigações de sempre funcionando no automático e voltei pra casa com o sólido propósito de me esbaldar no gibi. De longe, a melhor edição até agora, conta com a primeira parte da série QUADRINISTAS, de Cadu Simões e Kleber de Sousa. Apesar de ser tradicional, os autores usam recursos narrativos como personagens (mais referências à mitologia e drama gregos) eficientemente. Parece ser a nova tendência dos independentes fazer quadrinhos sobre quem faz quadrinhos (CIRCO DE LUCCA e NANQUIM DESCARTÁVEL). O difícil é acertar a mão, ainda mais quando se trata de produção de equipe e não de uma só pessoa. Mas convém esperar novos episódios antes de avaliar.

OS ESTRANHOS VESTIDOS DE PRETO traz um Fabio Cobiaco emulando o Ted McKeever da melhor fase pra valer. Bacana que só, com um clima A1 de inexplicado e sem a babaquice do realismo mágico latino-americano, benzadeus.

TRANSTORNO, terror em prosa de Vince Vader, conto bastante promissor, curto e prestando homenagem a classicões do gênero, como O CASO DE CHARLES DEXTER WARD.

Fábio Santos ousa um tantinho mais com ATÉ O FIM… DE NOVO… dois painéis por página em quatro delas mais uma palavra. Além do título, claro. Funcionaria lindamente numa página quadrupla, mas faz sentido fracionada também.

Um texto de Nobu Chinen sobre a revista BALÃO que precisa ser lido. Aliás, os textos dele em todas as edições são bastante recomendáveis, apesar de, na #1, o que escreveu sobre a hq de Moebius que originou o nome da revista GH ter me deixado com os nervos, pra ser bem popularesco, à flor da pele. Quer dizer, o título do gibi francês é A GARAGEM HERMÉTICA DE JERRY CORNELIUS e eu já estava chegando ao fim do artigo sem captar nenhuma menção à série de livros de Michael Moorcock… mas tudo se resolveu no último parágrafo. Jerry Cornelius, J.C. pros íntimos, inspirou tantos personagens e séries de quadrinhos seminais que seria criminoso deixar de mencioná-lo: Luther Arkwright, de Bryan Talbot; Gideon Stargrave, de Grant Morrison e, recentemente, Casanova Quinn, de Matt Fraction e Gabriel Bá.

Catzo! Acho que nunca escrevi tanto sobre uma revista nacional. E ainda não falei do melhor: o filé fica pro final, pra soar bem aliterado.

Edu Mendes comparece com mais duas peças irretocáveis.

UMA HISTÓRIA QUALQUER economiza no vocabulário verbal escrito e esbanja em ícones, símbolos e outras pictografias. Preste atenção redobrada às molduras dos painéis. Falar mais dela estragaria qualquer surpresa.

O COLECIONADOR DE CHEIROS é outra experimentação digna de nota. Os 40% iniciais da história são ocupados por um perfil fake do pianista Artur (uma recorrência?) Linderman. Não dá pra falar muito dessa parte sem estragar a ironia fina de Edu. Preste atenção aos closes na terceira página, na expressão corporal e nos cenários nas subseqüentes. Tudo construído meticulosamente. Edu tem no currículo, que eu sei, pelo menos uma graduação em arquitetura. É importante notar como os quadrinistas brasileiros mais interessantes (Luiz Gê, André Kitagawa, Gil Tokio) têm o mesmo background.

Victor Hugo acertou em cheio ao estabelecer que arquitetura também era linguagem e contava histórias (em NOTRE DAME DE PARIS). Jorge Luis Borges fala, num ensaio belíssimo, dos pontos de contato entre a concepção arquitetônica do palácio de Kublai Khan e a poesia de Coleridge (em O LIVRO DOS SONHOS). Corroborando tudo isso, o físico Niels Bohr acrescentou sua visão holística, quântica até, dizendo que todas as disciplinas trabalham sobre o mesmo material usando linguagens diferentes para descrevê-lo.

Verdade e beleza nunca estiveram tão unidas. A linguagem sintética dos quadrinhos nunca foi tão bem utilizada por brasileiros.

Boa sorte e boa noite.

procurado

Prima vez que assisto a uma adaptação de material seqüencial e fico positivamente impressionado.

PROCURADO pega os elementos de humor negro da hq original, corre com eles em direções inusitadas, extrapola e entrega um resultado superior ao produto original.

Salta aos olhos a ausência dos homens-bombom. Puta bom começo!

Tem elementos do drama grego norteando o arco da personagem principal que, numa leitura psicologista, seriam considerados beeem freudianos. Referências à mitologia universal, em particular a de que existe uma ‘tessitura’ de realidade formada a partir das linhas vitais de todos os indivíduos e de como afetamos uns aos outros em nosso inconsciente entrecruzar.

Sacadas e desenvolvimento bonitos.

Pra completar, fica a mensagem de que tudo que pode ser previsto pode também estar errado, que sociedades secretas são a mais pura enganação e que sofremos condicionamento até mesmo pra nos tornarmos capazes de perceber condicionamentos.

A idéia da falta de sentido de toda vida humana dá a tônica do encerramento.

Agora, pra quem caga e anda pra interpretações pseudo-intelectuais, o filme também não é nada mau. Efeitos especiais, eyecandy, a bunda magra de Angelina Jollie e uma narrativa com cortes bruscos no melhor sentido publicitário, prendem a atenção e vão fazer qualquer um sair dançando ao ritmo de Wesley Alan Gibson.

fluxo

Me manter acordado é a preocupação. Puta sono me nublando a visão e tudo mais. Único colírio disponível não se cala e me desconcentra de suas tetas perfeitas. Cismou que pareço Booty, o cachorro morto, e é meio assim que me sinto, mas não dá pra evitar a pergunta, ele comia?, nada a ver com alimentação, só outro tipo. Olhos fora de foco, vesga momentaneamente, e não sei se tou vendo assim por causa do sono ou se é expressão de raiva, assimetria contrastando com sobrancelhas e cílios judiciosamente penteados. Outro contraste que me distrai de suas tetas perfeitas e quadris rebolantes é o preto na raiz dos cabelos, morena sufocada sob loira. Descanso sobre omoplatas, suor brotando, purgando toxinas, centros de energia em desarranjo. Ela corre a mão em meu peito e gasta algum tempo enrodilhando pêlos esparsos como quem formula um pavio mas, porra, já explodi, não sobrou combustível pra coisa alguma. Ela move lábios músculos faciais contraem-se voluntariamente e sinto formigarem, a seguir, corpúsculos de Krause, pequeno motim que contraria meu querer minha vontade o que quer que signifique. Fora do corpo agora. Visão ascendente. Me introduz, máquina de ossos velha, pistão, travelling subindo da vagina que me acolhe ao abdômen branco imaculado e penetro não só o véu físico, ultrapasso pro outro lado, movimentos quase-autistas de ir e vir, identidade diluída em vai-e-vem maior e caudaloso, novo esforço batendo velhos recordes, descarga de opióides endógenos, prazer primal e recompensa, pago sua energia, isso é pertencer. Ela também,eu sei, me sabe. Dura pouco mas o sono foi pra puta-que-o-pariu. Revigorado caralho murcho pernas frouxas e cansadas ombros mordidos e arranhados digo, não sou cachorro morto, porra. Eu amava o Booty seu escroto. Em revulsão corro pro banheiro sem levantar a perna abro a boca e ela me deixa.

Lucca

Fiquei interessado por O CIRCO DE LUCCA desde a primeira vez que li sobre o livro na rede. O gatilho lingüístico da vez foi ‘metalinguagem’. Geralmente quando se lê esse tipo de obra a expectativa pode ser frustrada por causa dos aspectos técnicos que o autor acha relevante destacar, o que adiciona um verniz de aridez a uma história que pode não ser necessariamente má. Afinal, é uma linguagem sendo usada pra descrever seu próprio funcionamento.

Certo.

Li várias resenhas (ou pseudo-resenhas) que tentavam esmiuçar os conteúdos e demonstrar quão inteligente o resenhador era. Bullshit! Tudo que você precisa saber sobre essa hq, sua composição, materiais utilizados, enredo e a porra toda, está no apêndice ou na introdução de Luiz Gê. Não compre interpretações fáceis, já te disse, chegue a suas próprias conclusões etc, idem.

A melhor abordagem pra entrar na história é lendo, não esmiuçando. Se for boa o bastante a coisa se sustenta e pronto.

O que não vi ninguém mencionar é a humanidade que a história transmite. Emoção. Dúvida. Frustração. Alegria! A alegria que as coisas simples proporcionam a nosotros e nossos corações empedernidos. O movimento das entranhas, o entorpecimento dos sentidos, as lágrimas que se formam, a máscara que cai, finalmente, e revela o que sentimos a quem importa.

Jozz não chega como uma surpresa, pelo menos não pra mim, porque já tinha experimentado a elegância do seu trabalho em um aperitivo publicado no #2 do ZINE ROYALE. O CIRCO, no entanto, é uma refeição completa.

Me sinto alimentado.

arg

Toxinas e tensão muscular combinam muito mal.

Inalo CO2 sem perspectiva de descarga.

Hoje, privado pela monção da escapada costumeira, estacionei no sofá, li, assisti tevê e só levantei pra fazer café, chá, sanduíches e várias atividades físicas que ficam mais palatáveis somente na imaginação, mas que, ainda assim, são corriqueiras.

Depois das 22hs me desloquei pra escrivaninha, perto da janela, onde li mais um punhado de coisas e tomei as notas que estou digitando agora. É lá que fumo, by the by.

Ontem o dia foi mais agradável. Tão agradável e sem acontecimentos quanto hoje, mas ontem me faltou disposição pra escrever a respeito.

Digitei umas possíveis storylines pruma antologia aí. Se tiver algum retorno dou um toque.

desnate

Pensando na satisfação de necessidades. Cansado de ser só mente. Somente. A fim de reivindicar as alegrias do corpo, inteligência física, inteligência total.

Verbo não mais satisfatório.

Comunidade não existiria sem linguagem e acordos dela derivados, mas, caralho, é difícil ignorar limitações da narrativa quanto ao papel a ser desempenhado por quem pensa.

Fodam-se Platão, Descartes e suas malditas compartimentalizações da totalidade. Maldita mania de desmontar pra análise. Foda que só fique nisso. Quer analisar? Ótimo. Junte tudo quando terminar, feito? Menos solve, mais coagula.

Nessas bateu vontade de escrever sobre um gibi ruim que terminei de ler hoje. Super-heróis, héin? Metáforas, avatares do desejo. Gibis com homens-bombom são legais enquanto veículos pra idéias. Como boa fc.

Vou ler fc com prazer crescente enquanto tiver minha ração de idéias que ultrajem o status quo.

De ‘realidade’ estou sempre bem alimentado e sem esforço. Só sentar diante da tevê e deixar rolar.

Mesmo que o/a âncora fale do crime que estarreceu a nação como quem narra uma partida de futebol. Mesmo que, segundos depois, ele/ela esteja sorrindo, sou só o mensageiro, não me mate, sem ser afetado/a pelo que nós, supostamente, devemos saber. Mesmo que ao fim do programa ele/ela diga boa-noite, a gente se vê, sabendo que é uma puta mentira, a não ser que você se torne uma vítima nas estatísticas que ele/ela vai desfiar no futuro próximo.

Mais consenso, mais linguagem.

Desnate pra mim, por favor. Atenha-se aos fatos. Cérebro, entranhas, sangue, músculos, pele, pêlos. Sem confeitaria, sem perfumaria, no entanto, com higiene.

Idéia que valia à pena ser desenvolvida no gibi ruim mas foi largada: super-vilões são produto de uma conspiração corporativa pra evitar que super-heróis se concentrem nos problemas de verdade.

Saúde pro Léo Andrade, autor do novo header.

hermético?

Apesar de ter, sim, interesse na percepção alterada pelo estado febril da semana passada, fiquei chateado por não ter escrito.

Perdi uma batida.

Durante esta, tempo consumido em trabalho, lazer e esgotamento físico e mental, possibilitando só brechas pra composição do diário analógico.

Digital abandonado.

Li três #s de GARAGEM HERMÉTICA. Salvando o conteúdo, duas peças de Edu Mendes, que escreve e desenha ambas.

FRAGMENTOS no #2, conta a história do Edifício Porchat e seus moradores de 1939 a 2012. Dramas domésticos, alegrias e, sublingualmente, a biografia do prédio. Quadros que são janelas e portas no espaço-tempo, lateralmente, sem ordem cronológica, demonstrando que a idéia de linearidade temporal é mesmo supervalorizada. Tanta coisa em quatro páginas…

Que, coincidência ou não, é o número de páginas de INTERLÚDIO no #3, brincadeira com a literatura pulp. Sanduíche com duas páginas externas imitando chamadas pras aventuras de Jack Straw e a splash-dupla interna (com inserts) mostrando uma pausa, um momento de descanso, no qual a esposa do herói reflete sobre problemas conjugais e familiares aos quais Jack permanece alheio.

Puro gênio no uso da linguagem.

Fica a vontade de ver do que Edu seria capaz em mais páginas.