Arquivo do mês: novembro 2013

sampling

copra01

 

ensaiando escrever a respeito de dois gibis ou dois autores (ou três, já não sei bem) há tempo suficiente pra saber que dificilmente vou fazer valer o esforço.

então

bem mais fácil

escrevo qualquer merda, impensada mas não impensável, sobre o que gostaria de escrever de fato. um truque mental (aprendido em livros, entrevistas com autores que admiro e coisas assim) me orienta a tentar pensar como tal escritor se quiser alcançar o efeito X (que nada tem a ver com mutantes mas, se a memória não falha completamente – e pouco importa que falhe – representa a incógnita) com a peça que estiver produzindo.

de qualquer jeito

encomendei, recebi e li no mês passado os dois #s de COPRA COMPENDIUM, de Michel Fiffe. pra quem não sabe, Fiffe vem fazendo algo parecido com fan fiction mas em que prefiro pensar como um som sampleado tão profundamente que torna-se outra coisa apesar de manter certo dna do original. Fiffe, como eu, leu bastantes quadrinhos dos 80 e parece ter muito afeto por alguns deles. Claro que suas influências no mundo dos quadrinhos vão mais longe que isso e incluem, entre outros, Steve Ditko. o grupo título é uma espécie de SUICIDE SQUAD (pense em John Ostrander e Luke McDonell) que tem aliados como THE PUNISHER e DOCTOR STRANGE, SHADE THE CHANGING MAN (ambos de Ditko) e inimigos semelhantes a BROTHERHOOD OF DADA, THE MARAUDERS e assim por diante. vilões e heróis dos dois grandes monopólios dos quadrinhos de super-heróis usados pra contar uma história que o cartunista QUER contar e produz sozinho, do roteiro à colorização e às letras, mensalmente, numa tentativa de ser ele próprio a linha de montagem, verdadeiro auto-experimento dos limites da resistência humana. os seis números colecionados nesses dois compêndios são legais o bastante pra me fazer querer saber como continua e, também, mais a respeito do sr. Fiffe. cabei de descobrir que o 3º foi lançado agora em novembro.

mais quando houver mais

provável que antes do que eu gostaria.

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tatuagem

numa das últimas ocasiões em que a Confraria dos Míopes se reuniu – algum momento de outubro, se não me engano, percepção cronológica fodida como sempre – discutíamos um dos talentos de Frater Frey, que foi iniciado há mais de um ano nos mistérios da tatuagem e agora nos brinda volta e meia com mais demonstrações de sua capacidade em um canvas diferenciado, a carne humana… tá bom, a pele.

enfim, Frater R. já tinha tomado a sua, como ele chama?, “coquinha” e andava pela metade da primeira (e única) cerveja quando decidiu satisfazer sua curiosidade: de onde Frey tirava os desenhos? eram dele mesmo?

eis aí todo gatilho necessário pra tecer uma narrativa absurdista ou dadaísta. interferi, pois penso ser este meu papel como grão-nada da Confraria dos Míopes, e disse que “Não, é claro que não! Frater Frey é o Marcel Duchamp do mundo da tatuagem! ele só tatua imagens encontradas nas ruas, jogadas fora, os tais objets trouvés! dia desses vai tatuar um bidê no meu ombro caídaço! daí, quando ele encontra uma imagem que quer gravar em carne – perdão – pele humana, seleciona o candidato mais apropriado, ou quem quer que esteja à mão e não frequente a ala dos queimados, e passa a fazer seu trabalho. suas peças de arte são disputadas à tapa por colecionadores da Yakuza!”

depois de rir sozinho de minha piada sem graça, pensei que talvez valesse à pena transformá-la numa gag de 5 painéis. depois pensei melhor.

e continuo pensando.

distante

há pouco vi uma fotografia no tumblr que me fez lembrar de ALINA REYES, A DISTANTE, um dos primeiros contos de Julio Cortazar que li. menção gratuita?

sem muito sucesso, tento manter-me mais adepto do uso de canetas e lápis do que de ferramentas de escrita digitais. estas dão a noção equivocada de que o que se escreve deve ser publicado em um ou outro formato. o esforço de arrastar caneta ou lápis no papel já se provou mais que útil trocentas vezes, impedindo-me de passar por situações vexatórias desnecessárias em que afirmo o óbvio ou erro demais na digitação.

dois livros que li recentemente trazem na contracapa blurbs do autor dominicano Junot Díaz, dos meus contemporâneos preferidos, e duvido que tenha sido por acaso. também não por acaso Díaz ganhou o Pulitzer há uns anos com o romance A FANTÁSTICA VIDA BREVE DE OSCAR WAO em que mixa (mi/ki/ça) cultura nerd de montão (mormente quadrinhos) com a experiência dominicana sob Trujillo. ou algo assim. antes dele Chabon já tinha escrito seu hino aos quadrinhos (que também levou o Pulitzer) e acabou envolvido na produção dos mesmos, autorizando a criação de narrativas gráficas do personagem dos quadrinhos em seu romance AS INCRÍVEIS AVENTURAS DE KAVALIER E CLAY. certa tendência de premiar livros que tratem da cultura pop? o escritor que, no entanto, mergulhou mais fundo no mundo dos comics foi Jonathan Lethem, autor do calhamaço A FORTALEZA DA SOLIDÃO, outro hino aos quadrinhos e cultura geek geral (com mais destaque aos livros baratos de fc, outra obsessão de Lethem), que foi convidado pela Marvel pra escrever OMEGA THE UNKNOWN, ilustrado, como se diz?, majestosamente por Farel Dalrymple e Gary Panter. surpresa pra mim – mas nem tanto – foi encontrar versão nova do livro mais recente do camarada Díaz na amazon. o diferencial? ilustrações de Jayme Hernandez pros contos novos de É ASSIM QUE VOCÊ A PERDE (THIS IS HOW YOU LOSE HER).

vês o problema de escrever usando ferramentas digitais?

é fácil se distrair, perder atenção e foco, distanciar-se do texto.

ambos livros lidos com citações de Junot são histórias em quadrinhos.

o 1º é BATTLING BOY, de Paul Pope, e quem costuma frequentar aqui, apesar do abandono, está familiarizado com o nome – ou deveria estar –  já que é um dos cartunistas atuais que mais inspira por seu senso de design e capacidade de imprimir velocidade a manchas estáticas no papel. o fato do cara ter produzido esta ogn visando o público juvenil (a mesma idade que lia Harry Potter, lê Rick Riordan etc) diz muito mais a seu respeito do que qualquer coisa que eu possa escrever. o gibi é bom e eu queria as camisetas do personagem título se as houvesse em preto.

o 2º é RASL, de Jeff Smith (o mesmo de BONE), um livrão indie cabuloso que experimenta com uma combinação diferente de gêneros: fc e noir. não é história pra criança, embora nada impeça que um moleque inteligente de 12 anos digira a narrativa sem problemas, mas seria mais apreciada por alguém um pouco mais maduro, com repertório maior de leitura, e capaz de apreciar os truques de Smith. o fato de Nicola Tesla figurar proeminentemente na história só acrescenta uma cereja ao bolo.

garanto que não tinha a menor intenção de escrever tanto.

culpe as ferramentas digitais.

quero mesmo distância dessas joças.

ensaiar

pensando muito sobre ensaio, ensaísmo, o que é, do que se trata. nada excessivo, acho eu, e tudo a ver com interesses atuais.

grande dilema é que gostaria de voltar a comentar alguns trabalhos mas receio cair na esparrela de considerar tão somente o túnel de realidade em que vivo no momento, deixar que uma e só uma opinião domine o que quer que queira dizer.

esmiuçando: escrever ensaios é tentar provar pontos de vista e sabe-se que, dependendo do túnel de realidade em que se vive, enxerga-se ou entende-se tudo dentro dos limites determinados pelas paredes e extensão do dito cujo.

“o homem é a medida de todas as coisas” etc e tal, como diz Heráclito.

pois bem.

expressar opiniões é o tipo de atitude temerária que, quando feita por escrito (scripta manent), quase certamente voltará pra morder o indivíduo na bunda porque qualquer um medianamente informado pode (e) mudar(á) de opinião, notando que um debate sobre a polêmica do momento seria melhor apreciado das arquibancadas, quem sabe de um camarote, como qualquer esporte de contato, sem a necessidade da participação ‘hands on’ e, dessa forma, tornar-se algo divertido.

ser um observador interessado pode satisfazer plenamente qualquer curiosidade, certo? o que escolhemos acreditar tolhe qualquer exercício puramente intelectual.