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novamente outra vez

xeu contar sobre essa atividade de escrever: é chata depois de um tempo.

quando se é novo e inexperiente o bastante, a gente se deixa levar pelo entusiasmo e, no caso de acertar mais do que errar, a coluna positiva se deve à sorte ou ao talento (não o chocolate, tampouco a unidade monetária referida por Yasha na parábola bíblica) ou à uma conjunção de fatores que escapa da compreensão de quem tá completamente desperto (sim, isso tem mais de um sentido).

conversando com os partners no findi e a posteriori lendo a produção dum outro roteirista nacional que admiro me dei conta de quão pouco preparados somos pra escrever de verdade. sério. no gibi lido, não de todo mau, tinha um recordatório que, se pensado melhor, teria comunicado uma idéia clara e limpa. os valores de produção altíssimos, nesse caso, não compensam a fragilidade do roteiro e, embora goste do que o sujeito em questão escreve (pelo menos duas hqs curtas do cara, pra mim, são antológicas), a experiência dum gibi de vinte e poucas páginas foi frustrante.

tá na cara que o sujeito pegou todo tipo de coisa que mais lhe entusiasma nas hqs gringas e tentou aclimatá-las aos ‘tristes trópicos’. e errou feio. a arte não ajuda muito mas isso era de se esperar. o lance gráfico parecia decalque mal feito dum desenhista argentino que me gusta. a narrativa visual… bom, nem vale comentar.

nem todo bom ilustrador é um desenhista de quadrinhos adequado. por outro lado, vários desenhistas de quadrinhos, apesar de suas limitações e por causa delas, dão show no quesito narrativo e no uso da linguagem.

mas escrever… véio, escrever é um troço que demanda mais. entusiasmo é pouco, sorte e talento são instáveis, voláteis demais pra merecer confiança. disciplina é a chave.

só com a dita cuja, a que não se dá o devido crédito, é possível fazer diferente.

minha aproximação das hqs com a poesia não vem de hoje. como a poesia, as hqs são uma forma de falar sobre algo e, como qualquer forma, tem limites rígidos que só podem ser subvertidos se o fulano tiver conhecimento deles.

tem um ensaio em quadrinhos do Clowes que li há um ou dois anos (e que já devo ter mencionado aqui) muito, mas muito válido, mesmo pra quem não gosta do homme: só dá pra fazer um trampo legítimo nessa linguagem se cê ganhar experiência e amadurecer.

tempere o que vai acima com sal e limão antes de consumir.

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maduro?

Uma das coisas mais bacanas que me aconteceram ano passado (não foi em Marienbad, mas vá lá), foi receber o link prum arquivo dum encarte em quadrinhos desenhado pelo Daniel Clowes falando de coisas que me faziam (ainda fazem?) a cabeça.

 

Em seu ensaio, Clowes diz que o artista de histórias em quadrinhos (e aqui convêm os parênteses, porque o que ele tem em mente quando diz isso não é só o ilustrador, é o criador propriamente dito, o sujeito responsável tanto pelo texto quanto pela arte) só se tornará de fato artista se persistir em sua atividade tempo o suficiente pra amadurecer.

 

Amadurecimento é um conceito espinhoso. Que é ser maduro? É tratar de temas da atualidade? Do ‘real’? É tornar-se mais eficiente na manipulação da ferramenta escolhida, da arte a que se dedica? É conseguir um trabalho lucrativo e desejar conforto na velhice? Pode ser tudo ou nada disso. Não sei. Nem tenho como saber.

 

São quase 4 da manhã enquanto vandalizo o teclado e tento não pensar com muita força pra poder conciliar o sono em instantes.

 

Se na realidade de Clowes em que há um mercado maior para entretenimento (e aí tudo cabe, inclusive quadrinhos) a gente sabe que vários artistas mudam de campo em busca de ‘pastos mais verdes’ (ou dinheiro, se você não estiver a fim de metáforas ruminativas), imagina só aqui, no nosso Brasilzão tosco, com presidente semi-analfa e quase ninguém ligando pressa coisa de cultura? Ou de entretenimento?

 

Sei lá, é onde o bicho pega pra mim também, não saber direito até onde vai uma coisa e outra…

 

O Clowes disse um outro troço numa entrevista na época em que tava lançando o filme GHOSTWORLD que é meio complementar a informação anterior. ‘Ser o maior cartunista dos EUA é como ser o maior anão do mundo.’

 

Vou dormir.