Arquivo do mês: fevereiro 2012

Hamlet, atuação e outros subprodutos do bipedalismo

então, semana passada, enquanto grande parte do povo brésilien carnavalizava, ganhei uns minutos extras que me permitiram assistir a alguns filmes, ler (reler, nunca dá pra ter certeza) a peça do Shakespeare e o ensaio do Bloom e começar a pensar na importância que a atuação pode ter pruma hq ser bem-sucedida, algo que não tinha me ocorrido ainda mas que, pra minha sorte, já tinha sido pensado por Alex Toth.

todo mundo (sim, vocês dois são “todo mundo”) sabe à essa altura que Toth, pra mim, é a epítome do que um desenhista de quadrinhos pode ser. lendo as hqs desenhadas pelo Homem no início de sua carreira (sua produção começa antes disso, mas 1952-54 são os anos pivotais em que começa a tornar-se o Toth que conhecemos) têm-se uma boa noção do tipo de ilustração de que Ele era capaz então e Sua arte subsequente ganhou em profundidade, dinamismo e exploração do storytelling, a história em quadrinhos como narrativa sequencial, algo que era amplamente ignorado (raras exceções: Kurtzman, Eisner, Krigstein) em detrimento de peças pesadas de texto ilustrado, o que pode não ser necessariamente mau mas também não é necessariamente história em quadrinhos (wink!).

catzo! depois desse desvio quase inacabável do meu ponto de partida, sei lá se ainda quero escrever a respeito da importância da atuação nas hqs ou só dedicar mais umas linhas à como é essencial aceitar Alex Toth como seu único e suficiente salvador.

nevermind. também: não faço ideia se isso vai fazer sentido pra mais alguém além de mim mesmo e os outros envolvidos com a história que tou tentando contar.

pós-tergiversação, ainda apaixonado pela leitura recente de Hamlet e da dedicação religiosa de Bloom à peça (e suas ideias de como a peça poderia ser levada: Hamlet interpretado relaxadamente mas sob a direção de alguém cuja mão pesasse de modo a criar CONFLITO na própria execução do material, o que enriqueceria e redimensionaria a experiência da plateia), me peguei num daqueles momentos em que tentava traduzir tudo isso em palavras ao escalar, por mais arbitrário que pareça, um elenco de atores reais que teriam, em minha visão idealizada deles, as características das personagens dessa nova narrativa visual inacabada.

me vi pensando em como essas pessoas se movimentam, no arsenal de expressões faciais de que dispõem, quanto pesam e em como todas essas informações influenciam o modo como a história deve ser contada.

a seguir, passando pela Cripta do Terror e sua hostess, Jane Austen zumbi, vi um livro que passei a cobiçar quase automaticamente: Manual Mínimo do Ator.

aventura

enquanto espero que meu corpo alquebrado se recupere o bastante pra mais uma ida à rua com todas as implicações que disso derivam, resolvi escrever uma baboseira qualquer aqui à guisa de entrada-do-dia.

escrever a história que estou escrevendo no momento tem seus percalços.

por exemplo: ao começar a 3ª seção da dita cuja, sem ter a menor ideia de como os outros envolvidos no projeto reagiram às duas primeiras, percebi que gosto demais das personagens que constituem o núcleo familiar de um dos protagonistas, pois elas falaram em 2 páginas mais do que todos os personagens e o narrador em 14 páginas.

a atitude correta, quando alguém se vê entusiasmado assim, é tomar um banho frio e esquecer. os diálogos de que gostei tanto vão precisar ser limados impiedosamente porque estou escrevendo para uma linguagem que privilegia a imagem em detrimento da palavra.

claro que isso não significa que o texto deve ser descuidado. ao contrário: as limitações vão obrigar-me a tentar transmitir o mesmo espírito aos/dos personagens com muito menos palavras.

é quase como atender às restrições autoimpostas pelos experimentalistas do Oulipo.

sem, é claro, ter a pretensão de me comparar a eles.

no fucking around

um dos problemas de estar ocupado com o trampo secular é faltar tempo pra todo o resto.

não quis deixar isso aqui tão às moscas mas, apesar disso, o artigo supra escasseou horrores e a prioridade tá em destrinchar um plot monstro sentado e olhando feio do hd pra mim.

comecei ontem e espero que isso previna mais mutilações das mãos (a última foi uma punhalada num dedo ao cortar um tomate). se a coisa continuar funcionando, em breve devo ter duas páginas e não uma e um painel.

como sempre a abordagem da escritura variou, por exemplo, da que usei com A.P.I., a qual foi escrita quase instintivamente, com toneladas de anotações servindo pra nada e com os arremates finais feitos diretamente na digitação.

agora tentei um processo derivado da sapiência dos roteiristas de quadrinhos americanos, escrevendo um plot, uma decupação do plot página à página e, finalmente, depois de buscar a voz e o tom certo pra narrativa, um ataque direto ao roteiro.

já tinha tentado isso outra vez atendendo ao pedido de um camarada desenhista que, como era de se esperar, abandonou o projeto com uma linha saída diretamente de Batlerby, do Mellvile.

dessa vez, porém, tenho esperanças de que o mesmo não aconteça. convivo com as ideias que norteiam essa história por tempo suficiente pra acreditar nela.

só espero não quebrar a cara de novo.

mas isso não garante picas.

toth, again

ontem passei no dropmail e peguei uns doces pra lembrar do que importa neste momento de retorno ao trabalho secular.

o item principal é SETTING THE STANDARD, uma coleção de hqs do admirável e admirado Alex Toth produzidas entre 1952 e 1954, pouco antes de ele ser convocado pelo exército. o livro tem de tudo um pouco, desde uma entrevista aprofundada com o sujeito concedida a um prozine em 1968 a histórias curtas de romance, fc, terror etc. é muito bacana, muito bonito e acho que ficaria ótimo do lado do livro que o Greg Sadowsky produziu com material do Bernie Krigstein.

que posso fazer?

esses caras realmente sabiam contar histórias com imagens e apesar de o Toth ainda não ser o artista que se tornaria alguns anos adiante é fascinante ver o quanto das características que lhe eram peculiares já estavam presentes nessa produção primitiva e o quanto de excesso o cara pelou até chegar em sua expressividade máxima utilizando o mínimo. Toth é meu ideal de artista de quadrinhos.

e tenho dito.

escoar

entre a anotação original do horário de início desta entrada e o presente momento, dois minutos se passaram.

que fiz nesse intervalo de tempo?

saquei o último cigarro de um maço e, ato contínuo, puxei novo maço do pacote, rompi o lacre de celofone, destaquei o papel alumínio e selo da marca, enfiei tudo no maço vazio, coloquei o novo na lata e fim.

agora, entre o início de fato do relato e o presente, passaram-se quatro minutos (sim, sou um péssimo digitador), só que desta vez não preciso descrever minhas ações porque você acabou de ler aí em cima, certo?

escrevi.

é o que venho fazendo há um tempo e, depois da pausa necessária pra recolocar a cabeça no lugar, talvez esteja voltando a fazê-lo de modo integral.

a ideia absurda de que preciso ganhar dinheiro com a atividade, ter algum tipo de compensação pelo esforço, persiste, mas, porra, continuar tentando até, de repente, acertar o prego providencial na cabeça não vai me fazer mais mal.

nuvens

meio tarde pra resoluções de ano novo, até porque o apocalipse se aproxima ainda no 1º trimestre, mas decidi não me importar tanto. percebi que o desgaste é demais e as poucas energias que restam neste cadáver ambulante são necessárias para outros feitos.

se a eletroquímica continuar mais ou menos estável e os níveis de estresse sob controle é bem provável que mais material veja a luz do dia do que em anos anteriores. não, não quero ser otimista. melhor deixar que o que quer que ocorra (clique! clique! clique!), ocorra.

um documento de 1980 palavras (e contando) está pronto e nas nuvens, já encaminhado às pessoas que interessam nesse primeiro momento e aguardando retorno. depois deve haver a parte ainda inédita e burocrática, experiência nova mas aguardada.

nesse meio tempo, pesquisando algumas empresas da região, prestadoras de um serviço bastante específico e que tem a ver… tem a ver.

de resto, só continuar enchendo as cadernetas de anotações e transferindo a posteriori para o documento nas nuvens, torcendo pra que tudo se concretize e funcione como esperado.