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Café no trânsito

           

Ontem, por circunstâncias que ultrapassam qualquer explicação, quase não fui ao dropmail (crédito pro cel, crédito pro coletivo, ração), mas, inexplicavelmente – também – mudei de idéia e terminei passando lá e, oh, devotos de Baphomet!, minha cópia do # mais recente de Café Espacial já tinha chegado. Assim como Frater Frey… aliás, foi por causa dele que resolvi passar no dropmail, e, claro, Frater Frey é inexplicável.
 
Frater R. sentava-se garboso e sorridente à mesa celebratória, ostentando sua túnica negra, imaginando que como esta semana celebraríamos Baphomet, alguém lhe daria o beijo da vergonha e acenderia seu kundalini (!). Pra nossa felicidade nunca fomos adeptos desse tipo de ocultismo, o que frustrou Frater R. sobremaneira.
 
Fiz circular pela mesa a Café. Frater Frey vocalizou o pensamento geral, falando do cuidado gráfico cada vez mais acurado e elogiando a mudança de papel (não tínhamos certeza, mas nos pareceu reciclado). Depois das beberagens e dos xingamentos regulamentares à mesa, nos separamos de boa vontade. Frater R. ainda insistia em seus avanços ambíguos, mas um gancho nos rins e um uppercut no queixo ajudaram-no a readquirir um mínimo de autocontrole.
 
Hoje, parcialmente recuperado dos traumas infligidos durante o culto por nosso irmão invertido, pude refestelar-me no conteúdo da Café.
 
O serviço:
 
Capa de Guilherme Caldas (Candyland), com # de ISSN, sem a descrição do conteúdo (alguém me ouviu?) e com a pergunta ‘açúcar ou adoçante?’;
 
Frontispício com foto de Laura Gattaz;
 
‘Com ácido de bateria nos dentes’, de DW. Ok, sou suspeito, já que sempre elogio o trampo desse cara. Mas é boa a historinha. O que me incomodou foi a verbosidade, principalmente nas págs. 8 (um painel com um balão dentro, praticamente) e 9. A moral? O que vai, volta; o que sobe, desce;
 
Na seção ‘literando’, Lídia Basoli resenha ‘Sinuca embaixo d’água’ de Carol Bensimon e ‘Os espiões’, de L. F. Veríssimo;
 
A hq ‘Abrecartas’, de Sofía Berge e Berliac é um dos pontos mais altos da C.E. até agora. Recursos mais simples e eficazes podem ser usados pra criar uma elipse na narrativa visual e, ao invés de dizer ou mostrar tudo ao leitor, sugerir. Sugerir é sempre melhor, dá algo pro sujeito fazer. E Theda Bara, porra! Quem não quer uma hq com a Theda Bara num painel?
 
‘Cafeína pura’ tem entrevista com a banda VitrolaVil, que desisti de ler porque a ilu usada na diagramação tava comendo palavras. Um dos pontos negativos da edição;
 
‘A última noite de um violinista’ de Eder S.(aragiotto?) Rodrigues e Allan Ledo (meu herói!). Romantismo romântico de 1ª, mantendo, claro, aquele tom enigmático que caracteriza a parceria dos caras;
 
‘Arte revelada: partes de um todo’, por Laura Gattaz. Essa é, fácil-fácil, uma das minhas seções preferidas da Café. Exceto pelos gatos (é tão difícil fotografá-los e tem uma foto ótima na 1ª página do ensaio), o material me fez voltar a Valêncio Xavier e suas narrativas visuais, principalmente uma ou outra de detalhes, uma parede, uma escadaria, uma folha morta (esse cenário é Vera Cruz?); 
 
‘Candyland – estabilidade’, de Olavo Rocha e Caldas (o da capa, lembra?) é outro acerto. Mantendo as características do webcomic (humor negroooooo – é politicamente incorreto? – , crítica social e simplicidade);
 
Aqui. ‘No coração do cinema, a sala de projeção’ é o melhor texto de Lídia Basoli de não-ficção que li até agora.  A temática é a mesma, o cinema, mas dessa vez ela vai numa curiosidade que mais leitores têm, entrevista projecionistas da velha guarda, traça um paralelo com ‘Cinema Paradiso’ (inevitável) e, apesar de ser um texto que deixa claro o afeto da autora tanto a mídia quanto a sua cidade, não ficou forçado;
 
‘Cosmogonia’, de Cadu Simões e Jozz, brinca com a metalinguagem de modo eficaz e, porque não, engraçado;
 
A featurette da ‘Nanquim descartável’ (agora é uma seção fixa?) é gozada e bem executada. Tem só uma falha, e isso é pentelhação minha: além do nome das personagens aparecerem no título, nenhuma delas os diz enquanto conversam. Apesar de ter lido 2 #s da revista, não consegui lembrar quem é Ju e quem é Sandra. Aliás, a loira uma hora dessas não vai cair na real e perceber que não é de abusos que amizades são feitas? Até quando o ego enorme dela vai impedi-la de ver que nada é garantido? Pelo premiado Daniel Esteves com arte de Wanderson de Souza e Mário Cau;
 
‘Mais uma dose’ com texto crítico de Talita Prado sobre a programação televisiva.
 
Outra coisa chata são errinhos de ortografia  e um homônimo homófono que um revisor pegaria passando batidos.
 
A melhor edição até agora, mas ainda tem por onde melhorar.
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CE #5: resenha simultânea.

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Abre lindamente com capa de Ebbios, muito orientada pela composição design&cores e uma pegada vintage/psicodélica, se é que faço sentido. Escrevo as 7h35 da manhã de sábado num ambiente hostil. Cardápio com outra foto de Laura Gattaz sobre um dos meus temas favoritos ilustra o serviço.
 
As hqs da edição formam um grande grupo temático cujo mote, síntese, o que seja, é algo como relacionamento e maturidade.
 
‘Inferno de boas intenções’, de Sergio Chaves e Allan Ledo, é muito boa. O desenhista só fez arte comparavel antes (dentro da CE, claro) no #2, visualizando uma narrativa de Eder Saragiotto. Aqui o contraste e a tridimensionalidade plástica dos cenários e personagens engrossa o caldo do roteiro de Chaves, que tá matando a pau, enquanto seu narrador vive a história. Aliás, a identificação com ele rola sem grandes dificuldades. Amigos reúnem-se sem as respectivas namoradas na expectativa de reviver aventuras sexuais e etílicas que causam nostalgia. Em 9 páginas ganhamos uma personagem bem definida sem esforço: duas ou três frases e o tom de seus diálogos bastam; Sérgio usa silêncio com eficácia, principalmente na última página. Único downside é uma súbita epidemia de ‘aí’ entre as páginas 3 e 4. Me desconcentrou e tive que reler tudo.
 
Entrevista com a banda do circuito alternativo Venus Volts (aliteração! adoro aliteração!) que li inteira. As fotos da vocalista ajudaram, evidente. Vou fuçar a rede atrás de mais. Por Aloísio de Moraes (sem parentesco).
 
Jozz participa com uma hq sinestésica, ‘Sabotagem’. Visual evocando olfato enquanto o verbal evoca a aparência dos cheiros. Mais umas páginas (5 no total) e outra brincadeira, dessa feita com o verbal falado. O narrador ‘ouve’ e o leitor lê a fala da personagem, óbvio, e a escolha de como mostrar que o primeiro não presta atenção ao que lhe é dito tem brilho próprio.
 
‘Mas será o Benedito’, por Lídia Basoli, traz memória afetiva da escritora sobre o Clude de Cinema de Marília, cidade onde vive. Outra experiência de fácil identificação, por envolver descobertas e até a figura de um mentor… quase arquetípica, mas não tão bem executada quanto aquele conto da CE #1.
 
A bola da vez em ‘Além do cinema’ é Tarantino, que tem sua história cinematográfica relatada por Bruno Ondei. Coisa pra quem não ouviu falar do cara, o que é bem mais gente do que se esperaria, ainda mais no nosso país inculto… e olha que o Tarantino é pop! Me fez lembrar dum ensaio meio bêbado do David Foster Wallace sobre a filmagem de ‘Estrada Perdida’, do Lynch, em que já dizia que as pessoas não captavam a dívida do Quentin ao seu cinema… Ondei não é DFW, cujo texto tem mais de 20 páginas… o que me divertiu foi perceber que Tarantino, como Lynch antes dele, já se tornou  parte da história recente do cinema, adjetivo e referência.
 
Em ‘Joaquina pede água’, Sérgio Chaves compete consigo mesmo, mas é uma competição injusta, já que seu roteiro adapta um conto de Jana Lauxen, acompanhado, dessa vez, pela arte de Sueli Mendes. Competentes, a narrativa visual alcançada é quase cinematográfica. A quinta página sofre com excesso de texto, que talvez pudesse ser enxugado. A história é curiosa: o narrador, por uma dessas circunstâncias fortuitas, termina presenciando um suicídio, melhor, uma despedida. Título tem mais de um sentido.
 
‘Arte revelada’ traz ‘Olhar cansado’, por Luc de Sampaio, ensaio fotográfico que ganha maior dimensão graças ao texto breve e preciso do fotógrafo. Plus: deu pra matar saudade de Curitiba. Não vou lá desde 99.
 
‘Os ratos, os gatos e os homens’, prosa pura por Jana Lauxen, é quase rodrigueano na descrição dos moradores patéticos de um hotel de 5ª. Norberto odeia o gato da vizinha; a vizinha odeia tudo, inclusive a si mesma e os homens que a desejam; os donos do hotel odeiam os ratos que infestam o lugar. Apesar de bem construído tem uma falha quase crucial na estrutura que permite ao leitor deduzir o final, que deveria ser surpresa. Humor negro pra dar e vender e a ironia generalizada das ações das personagens tresloucadas impedem que perca impacto.
 
‘Sambinha de ave de arribação’, hq do Laudo, é outra memória afetiva. Desenho mais estilizado que nunca e firmeza na voz narrativa garantem, sustentam a atenção. O narrador de meia idade, consciente dos truques que a memória prega, reencontra ex-amante e, graças à visão de vida mais vivida e realista (mas não mal humorada ou sem entusiasmo) ganha o leitor. 

emenda/soneto

Emenda/Soneto

Dizem que pra ganhar a simpatia do público quem se pretende escritor(a) deve contar um incidente patético de sua vida. Ainda preciso decidir se me pretendo escritor. É, eu sei, só escrever isso já poderia ser considerado patético, não?

Então: quando publiquei a última entrada esqueci de mencionar dois itens constantes do #4 da Café Espacial. Você deve saber como essas coisas acontecem. Quero imaginar que sim, na verdade, posso imaginar que sim, porque querer é poder e coisa e tal. Não que seja verdade.

Mas vamos escamotear a vã filosofia. Rar de rar rar.

A HQ ‘Ping pong: platonismo orkutiano’, de Sueli Mendes, tem três páginas que são mais que suficientes pra mostrar como as relações humanas se tornaram pasteurizadas neste começo de século. O ‘show do eu’, o ‘broadcast yourself’ permite que conheçamos desconhecidos mais intimamente do que as pessoas com as quais convivemos e, ao mesmo tempo, nos mantém a uma distância segura deles. Uso interessante de ângulos, o desenho mais realista do grupo de HQs da edição que, espero, evolua pra algo mais pessoal. Texto enxuto, preciso, sem adiposidades. Todo mundo sabe a essa altura que me interesso pela linguagem dos quadrinhos em primeiro lugar. Nessa HQ a Sueli dá mostra de potencial pra mobilizar e usar conhecimentos e ferramentas necessárias na produção de peças interessantes, complexas, engraçadas e despojadas.

Talita Prado na seção ‘Além do cinema’, com um texto sobre Tim Burton que faz um apanhado geral da carreira do cara. Senti falta de uma notinha sobre os livros infantis dele mas a seção é de cinema, então não tenho do que reclamar.

 

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 Em todo esse tempo que engano as pessoas com a rotina de ‘escritor’ (ainda imune a falar de minha ‘obra’, rar de rar rar) uma das coisas que mais pegam pra mim é escrever diálogos. Bons diálogos. Coisas que pessoas falariam em situações corriqueiras ou extraordinárias.

Alguns acreditam na escola dos diálogos ‘realistas’ (não entendo o significado dessa palavra). Outros em diálogos objetivos, expositivos e sei lá mais o quê.

As sinapses espoucam na noite, a baba ameaça escorrer e uma tempestade eletroquímica pode completar a qualquer momento o circuito, me jogar no chão e presentear-me com o avô de todos os AVCs. Ou esse lance de ‘diálogos’ me pôs pra pensar. Não sei o que é pior.

Preciso dormir agora pra acordar daqui a pouco, mas pense com carinho na diferença entre poema e poesia.

Porque tem, ora!

café no espaço

CafeEspacial4-bg-08052009

Em geral (essa expressão me faz lembrar, inevitável, da professora de análise do discurso que me disse um dia que, quando criança, pensava que ‘geral’ era um lugar por causa da preposição) começo com a fórmula rotineira, mesmo, dos sábados.

A essa altura, no entanto, você já a conhece porque, como dito acima, é repetição.

Então.

Além da surpresa agradável de encontrar minha cópia do #1 da Peiote no dropmail tinha também um envelope menor, familiar. Quando pus as mãos nele foi como ser percorrido por uma onda de informações, quase psicométricamas não de verdade. Como acontece conosco mortais, bastou ler nome e endereço do remetente pra saber do que se tratava: Sergio Chaves, V*** C***.

Yeah.

Daí uma sessão de fotos na livraria da Rô, a ida cerimonial ao café, a céu aberto, o sol depois de meses de chuva, sereno e nuvens, as beberagens do rito e um número não aconselhável de cigarros e elogios dos camaradas à produção das revistas que circulei na mesa.

No envelope que o Sergio mandou os #s 4 e 5 da Café Espacial, se é que você ainda não tinha associado o nome do homme à revista. Já tinha lido a #3, claro e gostado, como quase sempre acontece, das HQs. Tem uma do editor com uma desenhista cujo nome não vou lembrar agora (perdão, Srta/Sra desenhista – mas passei  meu exemplar pro Leonardo, uma causa excelente) que ficou na memória, talvez por causa de um verniz autobiográfico e honestidade sumária.

Ok. Respirar fundo. Encontrar o tom certo e tentar formular adequadamente em palavras as impressões iniciais não deve ser tão difícil. Não que me considere o tipo certo pra resenhar qualquer coisa, ainda mais quando se trata de material coletivo.

Já falei anteriormente do cuidado que a equipe, capitaneada pelo Sergio e a Lidia (Basoli), dedica à revista e isso vai desde título e logo bem bolados até os créditos finais. Sério.

As capas dos primeiros #s (Ebbios, Samanta Floor, Fabio Lyra) não me prepararam pra do #4 (Shiko). No café queria pedir um expresso como aquele, com uma brunette usando só meias dentro. Doce, hm.

Eles ainda insistem no subtítulo descritivo do conteúdo e eu ainda não entendo a necessidade de diferenciar ‘hqs, música, arte’. Mas sou limitado. E repetitivo.

Índice ou ‘Cardápio’ (mais uma vez, bem bolado) com foto da Laura Gattaz e começa o que interessa de verdade, o conteúdo.

‘Vida enquanto sonho’, por Allan Ledo tem uma conexão temática com ‘F for knife’, por Shiko (HQs) e ‘Maldita Sandra’, por Jana Lauxen e ‘Superfície’ por Vivian Pizzinga (contos). Todas as histórias ligam-se por trazer a temática do sonho ou da percepção alterada da realidade por quaisquer outros meios, quer sejam sérios distúrbios psíquicos ocasionados por danos cerebrais, sexo sem proteção ou síndromes dissociativas.

Tanto a HQ de Ledo quanto o conto de Lauxen devem ao clima onírico do tio Dave (Lynch, claro). Na primeira, a paisagem em constante mutação, os diálogos enigmáticos; no segundo, as personagens masculinas imaginárias produzidas pela culpa e sabe-se lá que outras substâncias endógenas de Sandra, remetem aos recorrentes homens com tourette e egressos de pesadelos violentos. O desenho de Ledo também faz lembrar de outro Dave, o Mckean, principalmente em ‘Cages’. O conto, por outro lado, me fez pensar em Kafka e uma das constantes em suas narrativas: a ausência de resoluções.

A HQ de Shiko começa com a referência aos romances policiais de Sue Grafton (‘A’ de álibi; ‘B’ de Busca e assim por diante), dando uma ligeira torcida e brincando com a idéia de ‘palavra x objeto descrito’ em dois idiomas. Neat. E violência sobre violência sobre violência. Funciona principalmente por causa do tom ‘tongue in cheek’, como dizem os camaradas da gringa. A violência aqui é sem vítimas (exceto pelo sujeito que inicia a coisa toda) e irônica.

A peça curta de Vivian é o conto mais bem executado, não desmerecendo os outros, claro. A opção por um narrador onisciente e o conhecimento de psicologia ajudam a convencer. É quase um estudo de caso.

‘Contramão’, do Sergio com ilu do Laudo, poderia ser melhor. Nada errado com o conto ou sua construção. A idéia é muito bacana: relações banais no ambiente de trabalho e suas conseqüências trágicas; o pano de fundo mencionado que cresce na imaginação do leitor é o diferencial: a contagem regressiva para o fim do mundo ao qual as personagens estão alheias. Novamente, nada errado com estrutura e idéias. Os mundos das personagens (o chefe aproveitador, a morena bonita, o colega de trabalho platonicamente apaixonado) acabam antes da contagem chegar ao fim, o que é bem bacana. O que pega pra mim é o estilo. O primeiro parágrafo, por exemplo, é instigante e foi o que segurou meu interesse. Depois disso a coisa afrouxa. Nada que um revisor pentelho não resolvesse, mas que, ainda assim, interfere no fluxo, cria ruído na leitura.

Tem ainda ‘Intercâmbio insólito de idéias absurdas’, de Esteves e Mario Cau, que se divertiram fazendo a hq que tem idéias legais, mas meio que se esforça demais; ‘Um quadrinho’, de Vinicius Mitchell e Fabio Lyra, mais singela, menos verborrágica e bastante eficaz.

Também uma entrevista com ‘the cleaners’, banda do circuito alternativo, por Lidia Basoli. Lidia: eu quero ler mais dos seus contos! Vai lá escrever ficção!

Texto (muito bom) sobre cinema e budismo por Elias Lascoski e a seção ‘arte revelada’, com fotografias de Marcelo Kubotsu.