Arquivo do mês: agosto 2010

assim

isso aqui não é a continuação prometida na entrada anterior.

ainda assim…

acho que vale à pena desenvolver um pouco aquilo que falei sobre o Neil.

primeiro, ele não é mau escritor e, claro, é inevitável que se leia qualquer coisa escrita por um dublê de meu naipe como pouco mais que ressentimento pelo sucesso do sujeito. dor de cotovelo. inveja. pode ter uma parcela de verdade nesse julgamento mas sei que, se quisesse de fato, me esforçaria um pouco mais. o que não é o caso. segundo, os temas e o gênero de preferência do cara não são do meu agrado. apesar disso reconheço que em alguns momentos ele tem lá seu mérito até como escritor de prosa.

é meio difícil desenvolver o assunto sem parecer mais pedante do que já pareço.

mas…

boa parte de minha vida adulta foi dedicada a estudar o funcionamento e as técnicas de confecção de histórias em quadrinho em particular e de literatura em geral. boa parte dos últimos dez anos foi dedicada, inclusive, a tentar desvendar os ‘mistérios’ por trás do impulso original de expressão artística em qualquer modalidade que seja. os ‘mistérios’ por trás da linguagem. enfim…

pode até ser delírio de grandeza de minha parte, mas acho que sei reconhecer o que é bom de fato, o que nos faz querer pensar, refletir e aprender um pouco mais sobre a realidade que nos cerca e o que é só entretenimento. deixa dizer isso com clareza: nada errado com querer só entretenimento. a coisa vira problema pra mim quando se lê, como li recentemente, histórias escritas por brasileiros, inclusive algumas que emulam os temas tão queridos do bom e velho Neil, e se percebe que a única coisa que serviu como referência e influenciou a produção foi o Sandman ou qualquer outro trabalho de fc, fantasia ou o diabo a quatro.

não tem receita pronta, mas um troço que acho recomendável pra qualquer pessoa que deseje escrever é descobrir as influências da sua maior influência e descer a árvore genealógica cultural do sujeito até as raízes. engenharia reversa, se quiser.

só que não dá pra parar aí.

é preciso escrever com seriedade e sempre, disciplinadamente, e não tem problema se não se mostrar os resultados dos esforços pra qualquer pessoa enquanto não se adquire confiança na qualidade da produção.

ter um interesse salutar pelo material com que se trabalha. se o vício for escrever, tentar entender as origens da expressão escrita, um pouco de etimologia pode ser divertido, n’est ce pas?, e quais os limites que a língua escrita impõe. essa é uma caixa de ferramentes e o material de trabalho simultaneamente; convém ter alguma familiaridade e proficiência no que se propuser fazer com ambos.

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mais uma vez

sabe quando as pessoas vivem falando de coisas que teriam feito e que cê sabe de antemão que se trata da mais pura e simples balela, encheção de lingüiça e coisa e tal?

lembro de ter lido numa entrevista com um desses roteiristas britânicos que são praticamente unanimidades (é tu mermo, Neil!) que ele teria redefinido ‘a gramática’ das hqs apra contar as histórias que queria contar.

embora concorde que, sim, ele é um bom escritor que, sim, fez pelo menos duas hqs memoráveis (SIGNAL TO NOISE e MIRACLEMAN: THE GOLDEN AGE – não inteiro, mas os segmentos SPY CITY e NOTES FROM THE UNDERGROUND) tenho que discordar que tenha feito qualquer coisa de diferente com a linguagem dos quadrinhos. na minha concepção, linguagem dos quadrinhos ou arte seqüencial ou como quer que queira chamar, é a sinergia de elementos que vão além da palavra pura ou da ilustração pura com a finalidade de narrar algo visualmente.

linguagem dos quadrinhos inclui tudo, até o que não é visível (o espaço vazio entre painéis) ou audível/legível (o silêncio: repare em como as histórias do Neil são verborrágicas); onomatopéias, ângulos inusitados (veja Paul Pope pra encontrar exemplos disso), a porra toda.

antes de morrer pro mundo das hqs eu tinha o prazer de conversar por horas com um camarada desenhista que as pensava de modo muito parecido e chegamos a usar o termo ‘caligráfico’ pra descrever o estilo de alguns de nossos desenhistas-fetiche.

porque, e esse é o ponto em que queria chegar desde sempre, contar uma história visualmente utilizando a linguagem dos quadrinhos implica, e essa é só minha opinião, escrever usando esses elementos constituintes básicos como se fossem uma coisa só.

daí, talvez, eu pensar que os melhores narradores nesse meio, que usam essa linguagem, são os artistas completos, os que escrevem e desenham suas próprias histórias.

os autores.

evidente que algumas equipes alcançam resultados pra lá de satisfatórios (veja a entrada anterior pra ter um exemplo), mas pouca gente consegue chegar no nível de, sei lá, Alex Toth ou Hugo Pratt, Flávio Colin ou André Kitagawa.

e o nível foi elevado novamente por David Mazzucchelli e seu ASTERIOS POLYP.

terminei de ler o material hoje, ainda não digeri, mas é uma das hqs mais entusiasmantes no uso que faz da linguagem que já vi.

parafraseando as cinesséries e gibis ruins da gringa:

to be continued…

clichês

clichê, acho eu, é um termo que se afasta cada vez mais de seu sentido original. atualmente é usado pra descrever a repetição de uma fórmula narrativa, musical, poética, gráfica, etc. ad nauseam etc.

originalmente dizia respeito às placas utilizadas na impressão do que quer que fosse: jornais, revistas, livros… enfim, deu pra captar, certo?

Walt Benjamin escreveu um ensaio sobre ‘a obra de arte na era da reprodutibilidade técnica’, que influenciou e influencia as gentes de toda parte e discute o valor da arte a partir do momento em que a difusão e aquisição da mesma passou a não ser mais um privilégio das elites abastadas.

arte tornou-se acessível.

ter a pulga atrás da orelha com relação ao sentido atual do termo me faz bem.

porque acredito que o clichê pode ter utilidade. o clichê pode ser usado, por exemplo, para acelerar uma narrativa ou surpreender quem consome o produto cultural que faz uso dele. se você introduz o início de um clichê (ou repete uma convenção de gênero) e o (a) interrompe no meio do caminho, as chances de que um leitor/espectador experiente complete as lacunas sozinho são altas. taí um uso perfeitamente justificável; assim se pode, usando o repertório do leitor/espectador, acelerar o desenvolvimento ou frustrar as expectativas.

fiz isso um par de vezes e fiquei contente com os resultados. a maior parte das pessoas que leu (IN)VERSÃO, por exemplo, entendeu do que se tratava sem a necessidade de qualquer explicação.

na última semana li  LOGICOMIX, uma hq interessante por ter como tema a lógica e seus heróis, filósofos e matemáticos em luta com a loucura. Bertrand Russel é o protagonista, o pano de fundo é a história do séc. XX, e os coadjuvantes vão desde Frege até Gödel, passando pela equipe que produziu o álbum (roteiristas, pesquisadora, desenhista e colorista – não, não é ordem de importância, é a equipe, mesmo). é uma narrativa autorreferente, algo que tá longe de ser inédito, mas mesmo isto é usado a favor dela.

funciona perfeitamente bem como livro de história, introdução a um assunto interessante, entretenimento e regalo visual. usa a linguagem dos quadrinhos – que é quase sempre associada aos benditos super-heróis – pra contar as histórias de pessoas que, por serem tão diferentes, tão individuais, tão sujeitas a suas próprias idiossincrasias, são especiais como qualquer um de nós.