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narrador 02

o atentado apanha o narrador desprevenido. apesar de todo tipo de loucura onírica que já lhe ocorrera durante os muitos R.E.M.s de sua vida pregressa, participar em primeira mão de uma armadilha para atrair vilões interessados no fim de seu protagonista (ou seria “de seus protagonistas”?) é mais que surpreendente para ele.

reutilizar a matéria de sonhos na urdidura de novas narrativas é habitual mas encontrar um sonho que seja evolução lógica de outro anterior é novidade.

o falso barman revelou-se ao(s) seu(s) objetivo(s) em algum momento perdido para a pretensão literária do Narrador, indicando a ele(s) que, em caso de necessitarem de ajuda especializada em vigilância-segurança-demolição, não se fizesse(m) de rogado(s) e o contatasse(m). Foi o o que seu(s) protagonista(s) fez (ou fizeram?) pois a agência que enviou o ex-barman não era a única interessada em suas atividades sombrias. o Narrador se aborrece com o fato de sentir-se incapaz de definir o número de protagonistas (no sonho tudo parece sempre tão perfeito mas na hora de transpor a barreira que o encadeamento verbal representa a característica mutável que a paisagem in/subconsciente se perde e solidifica em apenas um punhado de interpretações possíveis).

assim, o(s) protagonista(s) contat(ou/ram) o barman falsificado e pergunt(ou/aram) se a oferta ainda estava em pé.

como era de se esperar em histórias originadas em sonhos, há um salto que obedece apenas à lógica interna a eles e nada mais. o(s) protagonista(s) – e agora o Narrador tem quase certeza (sendo “quase” a palavra operante da frase) de que se trata somente de um indivíduo – está sendo vigiado de perto no caso de ser verdadeira a ameaça a sua vida.

usa todo tipo de aparato portável que permita ao ex-barman e sua agência acompanhar-lhe os passos e sente-se mais pesado por isso. está bastante visível no ponto de ônibus e assim que entra no coletivo e se acomoda da melhor forma possível em pé no corredor, o ataque é iniciado.

quem quer que ameace sua vida não tem qualquer consideração com as outras presentes no transporte e usa uma metraplhadora de grosso calibre montada na carroceria de uma picape 4×4 para retalhar metal, plástico, carne, sangue, estilhaçar vidro e osso. o protagonista, guiado pelo mais básico instinto de sobrevivência e a voz do ex-barman no comunicador em sua orelha, despenca para o chão arrastando consigo dois outros passageir(o/a)s próxim(o/a)s e gritando para os demais, sob fogo cerrado, que sentados não estão seguros.

(o Narrador pensa em fazer humor num momento assim, como se escrever que se trata de nova técnica para conseguir lugar sentado no coletivo fosse fazer alguém sequer esboçar o mais anêmico sorriso).

o motorista e o motor são atingidos e param de funcionar simultaneamente, a inércia ainda dura vinte metros, o ônibus para numa tangente com a calçada, como se o profissional do volante falhasse sem sua última tentativa de estacionar para o desembarque de passageiros.

o protagonista continua com as mãos cobrindo os ouvidos e grita por ajuda que não vem.

o Narrador, afinal, encontra uma barreira que ainda não pode superar: o despertar. o vazio informacional que se desenha diante de seus olhos tão tristes enquanto os abre e é inundado de estímulos externos.

seus ouvidos estão doloridos por causa do som de tiros.

 

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narrador 01

o Narrador acha que recebeu elementos suficientes através de sonhos pra cozinhar uma narrativa.

sem razão aparente, apesar da abstinência e sua ausência completa de ambientes assim há anos, um dos cenários ou o cenário paradigmático que se impôs na narrativa onírica é um bar tal e qual tantos de tantas outras histórias de outrem ou de suas próprias lavra e vivência.

a personagem que mais lhe intriga é o barman, um novato que substitui o original de fábrica enquanto este passa merecidas férias em uma daquelas colônias de concreto armado bancadas pelo estado cujas características mais marcantes são os horários rígidos das refeições, as poucas horas de lazer (exercícios no pátio, curra no chuveiro etc) e a fauna colorida (do mais simpático malandro ao mais selvagem matador e vice-versa).

o novato – e o Narrador pensa que dizer isso é chover no molhado – era alguém plantado no bar especificamente pra avaliar o nível de ameaça representado por um (ou dois) habituès. depois de um par de semanas e no exercício de suas funções de barman e insider, o dito percebe que gosta do(s) sujeito(s) e até o(s) considera amigo(s).

talvez (o Narrador gosta de fazer interferências por vezes inoportunas enquanto a história cresce organicamente – isso mesmo, sozinha) este seja o momento de temperar a trama onírica com algo que se origina da caminhada mais do que banal que empreende na sexta, ao fato de gostar de cães e ter dado atenção a um particularmente solitário em momento de grande necessidade.

estranha e inexplicavelmente, memórias do Narrador com outros canídeos vazam em seu olho mental no momento em que tenta costurar algo que faça algum sentido.

mas agora o Narrador tem sono.

argumentos

uma das coisas que podem atormentar a consciência de alguém é exigir demais de outrem e pouco de si mesmo. quando se elabora um texto, por exemplo, que funcione como artigo de opinião, fazem-se necessários três movimentos básicos: uma introdução (na qual devem ser apresentados tanto tema quanto posição do enunciador sobre o mesmo); desenvolvimento (no qual devem ser articulados argumentos e exemplos, positivos e negativos, que sustentem e comprovem a posição adotada pelo enunciador no momento anterior) e conclusão (na qual, óbvio, o enunciador retoma a posição apresentada em primeiro lugar e, através de uma rápida revisão dos argumentos favoráveis e contrários, comprova-a, de preferência, irrefutavelmente).

não tão difícil, certo?

difícil, dificílimo é encontrar um assunto atraente o bastante com o qual se atracar por alguns parágrafos ou, com sorte, páginas, algo que renda mais do que 1000 palavras e, ao fim e ao cabo, faça sentido para o leitor.

apelar para a 1ª pessoa e tornar o artigo de opinião algo como um mash-up de ensaio e crônica simplesmente não é tão satisfatório quanto outrora. opinião, por mais paradoxal que isso soe, deve ser expressa impessoalmente.

se um texto começasse dizendo “eu li * &%@ d@ 73RRU@3M” já estaria errado de princípio, antes mesmo que qualquer coisa fosse dita sobre a história. o ideal seria algo como “ao ler * &%@ d@ 73RRU@3M o leitor médio…” viu só? impessoal, certo?

se chegasse a ponto de falar realmente da história poderia-se dizer que

“a mesma não impressiona muito e a arte é apenas funcional. tal desinteresse pode ser atribuído à idade avançada e ranzinzice decorrente dela ou ao fato de estar sendo um pouco mais exigente com o material consumido.”

“é compreensível que alguém pense numa semelhança com um desenhista genérico de grande editora norte-americana mas a arte é mais parecida mesmo com a de um outro artista, tantinho mais indie mas igualmente genérico como o 1º,  por causa do uso que faz das cores (algo mais para elétrico, azuis e amarelos). o sr. ******* não foge do uso da hachura, mas até aí, tudo bem. a história é outra fantasia de poder, só que, dessa vez, o protagonista tem sua sanidade posta em questão não por si mesmo, mas por todo o resto do elenco (menos a adorável @@@@@ – provável que baseada em alguma garota conhecida do desenhista). aliás, eis outro aspecto perturbador da história: o fato do sujeito só se relacionar, basicamente, com pessoas que conhece desde criança.”

enfim, uma argumentação módica sem qualquer comprometimento e, ao reler a bendita coisa, tampouco conclusão.

ensaio deve ser algo parecido com isso aí em cima, exceto que a similaridade seria maior com uma colcha de retalhos do que com um texto propriamente dito.

fezes

“qualquer um que entenda a escrita como um passeio agradável na direção dum estilo de vida de classe média jamais escreverá qualquer coisa que preste.” Charles Staniland em HE DIED WHITH HIS EYES OPEN.

então, foi mais ou menos isso que aconteceu recentemente: …

escrever tornou-se atividade desafiadora e o grau de dificuldade só faz aumentar. juntar duas frases por mais imbecis que sejam parece um trabalho de Hércules (talvez a limpeza daquele estábulo).

pensando em estrutura, criatividade, conflitos, personagens e despejo.

lembre do último item da lista.

stand

por mais que tenha necessidade de acelerar alguns processos iniciados em priscas eras (não faça isso em casa, sem supervisão, por favor. adjetivo antes de substantivo é simplesmente… repulsivo, porém é um clichê atraente demais pra deixar passar batido) a preguiça tem levado a melhor sobre mim. não que seja preguiça derivada de inatividade, isso, aliás, é artigo raro atualmente. assuntos demais a resolver no mundo secular, daqueles que demandam esforço físico e fosfato em proporções que não estou habituado a despender quotidianamente mas que, inevitável, se quiser ver no escaninho de saída devem receber exatamente o que pedem.

enfim, nenhuma novidade.

deixar material em stand-by, quer dizer.

dizem os gringos que isso é bom.

vou tentar aproveitar o fim de semana prolongado e todo o tempo livre que me sobrar neste pra fazer o que de fato preciso fazer e me ver desobrigado de pelo menos uma etapa dos processos supra a fim de poder dedicar atenção minuciosa a detalhes da mecânica ou carpintaria (ou outra metáfora de trabalho manual qualquer) que a história que pretendo contar com meus camaradas desenhistas necessita.

a parte interessante de ter tudo planejado com tanta antecedência é que no fazer se afinam detalhes, enriquecem-se tramas e somos surpreendidos por personagens, suas atitudes e desvios das ideias originais que só tornam tudo mais estimulante.

pra isso serve a técnica: abrir espaço pra criatividade acontecer.

uma vez estabelecido o molde em que se deseja trabalhar, subvertê-lo é só uma questão de fazer um jam de informações, referências e quejandos, tanto verbal quanto visual e ver no que resulta.

sem técnica só se vai de um lado a outro arrancando cabelos e entupindo ralos e rezando pra que, no fim do dia, tenha-se algo minimamente legível.

texto crítico sobre BATMAN, DEATH BY DESIGN, o livro novo do Chip Kidd com arte de Dave Taylor me mostrou que não sou o único preocupado com as contradições inerentes entre arte, mídia, expressão pessoal, produto, comércio e outras nomenclaturas que me escapam no momento.

ajudante

a palavra “enfezado” é derivada de fezes mas a maioria parece ignorá-lo. o humor de alguém com intestino preso certamente não é dos melhores, estresse sendo um daqueles fatores determinantes que, na hora H, contraem o esfíncter a ponto de nem ar escapar pelo dito cujo. é o estado em que vivo atualmente. não enfezado, mas estressado. o processo de atingir a meia-idade é um tantinho mais avassalador do que eu esperava. como não sou cool como alguns escritores que admiro ou mobilizo seus recursos intelectuais e financeiros, crise é crise e a estou vivendo sem adotar a magia como solução para ela, comprar um porsche ou arrumar uma amante com metade de minha idade.

o que significa vivê-la diariamente, com tudo de bom e estranho que dela deriva.

não é muito.

pode acreditar.

os níveis energéticos aqui em casa estiveram numa baixa tão terrível que tivemos um curto-circuito e ficamos sem luz de 5ª para 6ª da semana passada, o que me fez interromper a produção do único trabalho que venho desenvolvendo desde o final do ano passado.

na última terça, afinal, depois de trabalhar três dias (5ª, 6ª e terça) como ajudante de eletricista e de pedreiro na tentativa de resolver o problema do lar, chegamos a uma solução permanente.

posso voltar a escrever.

a demanda física me esgotou (que novidade!).

Rodrigo Nemo, que desenha DOIS LOBOS, já quase terminou sua parte e ando à procura (preguiçosamente) de alguém que possa letreirar, ajudar com diagramação e outros serviços para os quais me faltam habilidade. se você, que lê este blog, tem algum desses talentos indispensáveis para quem faz quadrinhos com intenção de publicá-los, sentir-se compelido por um desejo cristão a ajudar, basta deixar um comentário com um endereço em que possa encontrá-lo que entrarei em contato. se precisar de ajudante de eletricista e encanador e viver nas imediações do bairro, conte comigo.

o roteiro de MdC, como sugerido, entrou em sua reta final em algum momento desta semana (sim, minha memória cronológica continua irremediavelmente fodida, obrigado) e a qualquer momento devo ficar agitado como uma fuinha cocainômana a tomar providências para cima e para baixo a fim de fazer mais uma tentativa desesperada de conseguir recursos que tornem o material publicável (não graças a mim, mas aos desenhistas que, espero, trabalharão remuneradamente nas benditas 72 páginas projetadas) dentro dos prazos estabelecidos etc, etc e etc.

obrigado por sua atenção. sinto não ter frequentado essas paragens tão assiduamente quanto antes e espero não ser abduzido por forças maiores tão cedo a ponto de ausentar-me por outro período longo.

nuvens

meio tarde pra resoluções de ano novo, até porque o apocalipse se aproxima ainda no 1º trimestre, mas decidi não me importar tanto. percebi que o desgaste é demais e as poucas energias que restam neste cadáver ambulante são necessárias para outros feitos.

se a eletroquímica continuar mais ou menos estável e os níveis de estresse sob controle é bem provável que mais material veja a luz do dia do que em anos anteriores. não, não quero ser otimista. melhor deixar que o que quer que ocorra (clique! clique! clique!), ocorra.

um documento de 1980 palavras (e contando) está pronto e nas nuvens, já encaminhado às pessoas que interessam nesse primeiro momento e aguardando retorno. depois deve haver a parte ainda inédita e burocrática, experiência nova mas aguardada.

nesse meio tempo, pesquisando algumas empresas da região, prestadoras de um serviço bastante específico e que tem a ver… tem a ver.

de resto, só continuar enchendo as cadernetas de anotações e transferindo a posteriori para o documento nas nuvens, torcendo pra que tudo se concretize e funcione como esperado.