Arquivo do mês: dezembro 2008

NoiteLuz

Esquisito.

 

Andando a esmo pelo Gonzaga sem muito mais a fazer que entrar em livrarias e procurar o que ler, meu cenário de todo fds, recorrência bio-geográfica… praia dum lado, comércio do outro.

 

Entro na loja. No meio dela, em seu coração, tem um balcãozinho dedicado aos gibis. Sim. Claro que são gibis com preço de livraria, não aqueles que eu comprava antes, em outro ponto da linha da vida, nas bancas geridas por velhinhos turrões.

 

Às vezes os gibis têm pretensões de ser mais que uma narrativa visual, daí as pessoas  mudam seus nomes. Chamam de ‘arte seqüencial’. Não vou dar uma de hipócrita. Também faço isso. Mas no fundo sou o mesmo moleque de sempre que gosta de gibis.

 

Neste dia algo inexplicável aconteceu: um gibi que eu queria muito ler tinha chegado. Inexplicável porque, apesar de ser uma loja em que entro sabendo que o dono está preocupado em ‘servir bem para servir sempre’, não é o tipo de lugar em que se encontra material pelo qual se anseia. Eu comprei o bichinho, tão parecido com um de meus livros em prosa queridos e fui com ele pra casa, e o deixei entre os seus.

 

Ficou lá, parado, sem reclamar, até hoje.

 

A graça de NOITELUZ, de Marcelo D’Salete, não está na prosa afiada ou na arte expressiva. Seus personagens são calados, até taciturnos, e só eles falam, não há narrador onisciente. A arte é eficaz, conta a história mostrando-a sem pressa. Há cortes temporais e os elementos fundem-se aí. Deixa de ser só desenho+palavra, vira narrativa. D’Salete usa um recurso kielowskyano como frame device, uma moldura na qual as vinhetas individuais dos personagens se encaixam. Dá pra lê-las como narrativas autocontidas ou como crônica do bar, cenário, entorno no qual as coisas acontecem, as vidas convergem.

 

Não tem pretensão, esse gibi quietinho… é humano, só isso. O que me agradou mais foi a presença de um herói, calado e taciturno como seus colegas de cena, herói inesperado e nem por isso menos herói. Ele não salva a todos, claro, pois é um herói humano, nem protagoniza as histórias em que participa, às vezes quase como se fosse parte do cenário. É um herói invisível, um herói do universo de antimatéria, que tememos tocar e ignoramos ‘pro nosso próprio bem’.

 

Como nos faroestes de Leone ou nas tramas detetivescas de Hammet, sequer tem nome. Diferente destes, não faz ‘justiça com as próprias mãos’, sequer mata uma mosca. Só interfere… como uma divindade benévola em que ninguém crê, que ninguém vê.

 

Ou quer ver.

my holiday

tipo, se me fosse dada escolha, claro.

pruma definição rápida, veja aqui. em tempo: se alguém precisar me classificar como alguma coisa, vá na veia do discordianismo.

Eris ou Desordem

upei mais uma prosa curta no Labirinto, sr(a)(ta)s. publicado originalmente na MIDRAXE, iniciativa de M.Massula Jr. e desaparecido da rede desde sempre, o conto volta agora com a mesma intenção subversiva original.

tente entender.

Oy!

experimentando as possibilidades novas dessa coisinha.

http://labirinto.blogsome.com finalmente atualizado.

uma hq que li no começo do ano e gostei sendo publicada enquanto jogo conversa fora no http://4mundo.com.

mais dentro em breve, senhores.

bastidores 2

 
isso nos leva de volta à B1, claro, e ao email do meu correspondente eletrônico misterioso.
 
no campo assunto: ajuda roteiro; o remetente: Jaum.
 
mas antes de continuar, convém justificar a última entrada. a idéia geral era mostrar qual o método (ou ausência de método) que costumo utilizar na feitura de ficção visual. o que o Jaum precisava e me propôs era um animal desconhecido.
 
sim, já escrevi dois roteiros a partir de ilustras soltas do Jean pra DESVIO. de outra feita, Antonio Eder pediu que eu escrevesse o texto duma história desenhada pelo Orikassa que, de verdade?, não precisava de texto, dada sua natureza. outra situação desafiadora, mas um pouco diferente, rolou na época em que fui convidado pra escrever pra MANTICORE e o sr. Danton jogou no meu colo a responsa de escrever a hq sobre a ‘lenda urbana’ do bebê diabo. eu estava até a testa de LAS VEGAS NA CABEÇA, único livro do doutor Thompson traduzido até então, mais uma entrevista com o bom velhinho saída das páginas da RAY GUN, fornecida pelo Marcelo Garcia. o resultado só veio à tona este ano, com a publicação de QUADRINHOFILIA, do sr. Aguiar… mas perdi o fio da meada, né-não?
 
voltando ao Jaum e ao desafio que representou sua mensagem: ele pedia ajuda pra contar uma história.
 
diferente do sr. Orikassa, Jaum não tinha suas páginas finalizadas; e no caso do sr. Okada, as ilustrações funcionavam como ponto de partida pra construção de uma gag visual ou narrativa mínima (ou o que quer que fosse DESVIO) de minha (in)competência.
 
o que eu vislumbrei diante da proposição de Jaum, como dito, era inédito: ele tinha idéias precisas de como queria contar a história visualmente e me forneceu um roteiro base com o que seria mostrado ao leitor mais thumbnails, estudos de páginas e suas composições.
 
além disso, não menos importante, disse o que pretendia com a história.
 
o gênero: FC; o tema: tentador.
 
antes de ter tempo de procrastinar a resposta, de inventar uma justificativa pra declinar do convite, já digitava um email entusiasmado. FC cara? um desenhista que admiro, me procura e oferece uma oportunidade dessas? de jeito nenhum ia deixar passar.
 
e a graça da colaboração esteve presente desde o começo, na troca de emails e sugestões, na leitura dos meus livrinhos de consulta (obrigado, sr. Sadoul, sr. Wilson) e, ao fim, na elaboração de um texto que complementasse a hq sem soterrar a arte. bônus: criar uma sociedade futurista com base no que era o ocultismo pop no período elizabetano. quer dizer, não é steampunk, é FC mesmo, só que com raízes fincadas na moyen âge, way back when…
 
o desafio foi encontrar o tom certo, as vozes dos personagens sem entrar numa viagem digressiva sem fim e meio que fazer engenharia reversa no que já estava construído pra chegar a um termo satisfatório.
 
o Jaum disse logo de saída que nada era definitivo e como a hq só estava no estágio dos thumbs eu podia dar sugestões, idéias visuais; o que fiz, claro, mas não a ponto de interferir na concepção que ele tinha imaginado.
 
isso.
 
foi um lance livre de estresse, bacana e, dando tudo certo, em breve você vai poder acompanhar o outro lado da moeda, o visual, no blog do Jaum.
 
que mais posso dizer? de longe, a hq mais fácil de escrever até agora. pude me concentrar na qualidade do texto (não significa que vai estar bom, claro) e, mais importante, aprendi um bocado com o processo todo.
 
fim da transmissão.

bastidores 1

foi tipo assim…
 
eu estava sentado na cadeira de rodinhas diante do monitor e chequei como sempre meu email. tinha um de um cara que eu imaginei saber quem era mas com quem não tinha tido contato.
 
mas tou antecipando e muito o que quero contar.
 
pois bem.
 
normalmente, quando acho que tenho uma idéia que valha à pena ser contada visualmente, fico maturando a danada na cachola quase indefinidamente. NAP, por exemplo, surgiu de uma conversa que tive com minha mulher. você sabe, discutíamos o nonsense da vida em sociedade e as conseqüências disso e ela me contou dessa notícia que viu na tevê ou leu no jornal, não lembro bem e, pro fim que tenho em mente, não importa. de qualquer jeito, toda a ação da história já estava presente nessa narrativa crua.
 
um dos livros que caíram em minhas mãos neste período foi ACELERADO, de James Gleick, que fala de como percebemos a passagem do tempo, nossa obsessão com instrumentos de medida desta mesma passagem etc. eu queria incluir algumas idéias dali em alguma história, mas não sabia qual. as três primeiras páginas de NAP são fortemente influenciadas por conceitos roubados de Gleick.
 
além disso, desenvolvi o hábito pouco saudável de ler materiais sobre neurologia e psicologia.
 
minha fixação com metalinguagem precisava ser incluída de algum jeito. e foi, nos cortes, num recordatório na segunda página etc.
 
Roberto Bolaño, todo mundo sabe, é um dos meus narradores preferidos no momento. a polifonia, as várias vozes de personagens que você encontra em NAP, foram uma tentativa de emulá-lo (particularmente em DETETIVES SELVAGENS). mea culpa. claro que se você for atento o bastante descobre aí também uma influência de quadrinhos, dessa vez, de quadrinhos de super-heróis, mais especificamente ainda, da ARMA X,  de Windsor-Smith. mas não procure mutantes ou neguinho fantasiado em NAP. é a polifonia, a porra da polifonia…
 
na hora de contar a história de verdade, quis incluir na hq outros meios visuais que não fossem similares em nada ao recurso mais que batido de ter parte da exposição feita por um âncora qualquer de televisão. a DC publicou DK em, sei lá, 84? e desde então, desde então…
 
mais um ou dois truques narrativos adquiridos com tempo e ‘experiência’ (ATMAVICTU e POÇO, ambas desenhadas pelo Marcos Roberto foram meio que laboratório pro que tentei em NAP).
 
e PRESTO!, NADA A PERDER surgiu pro mundo, carecendo tão somente de um desenhista, no caso o sr. Daniel Pereira dos Santos,  que transformasse a mixórdia do roteiro em algo que as pessoas se importassem em ler.
 
(no próximo episódio de ‘bastidores’ a origem secreta do começo desta entrada.)

Camiño

dá uma nova dimensão à expressão lowlife, né-não? sim, formas de vida ‘inferiores’ (leia-se: dotadas de um tipo diferente de ‘consciência-inteligência’ que nosotros, humanos, arrã, tenemos) são as mais bem-sucedidas nesta bola de lama porque andam por aqui literalmente há eras.
 
e eu estava pensando em adotar uma nova filosofia condizente com minha condição de roteirista-fake e e(x)scr(e)itor: o tao da bactéria! não o ‘tal’ pronome demonstrativo, sabe? o fritzjof popularizou com o seu, ‘da física’. simples-né?
 
mas como sempre acontece com as idéias razoáveis, alguém chegou antes de mim… a de que quem faz ficção e, mais especificamente ainda, quadrinhos, é uma forma de vida inferior (espero que ninguém se ofenda… é só ler no contexto que tudo fica bem), apesar de não ser obrigatoriamente bem sucedida. e fizeram uma revista.
 
Matheus Moura (nome aliterado, jornalista, treina aiki-do… será a identidade secreta de um supa tupiniquim?) e Rosemário são os responsáveis pela empreitada impressa CAMIÑO DI RATO que é uma revista de VERDADE. sério, até no formato.
 
e logo de cara juntaram sujeitos como Danton & Eder, Greco, Franco, Andraus, Bentes, Martins, Freiberger, Marçal, Ivo, Eremita e, claro, eles mesmos. MM ainda assina duas peças jornalísticas sobre hqb e vegetarianismo(no contexto faz todo sentido!). o problema de falar de qualquer revista que traga material tão diversificado é não dar a impressão de que os caras simplesmente pegaram o que estava à mão e imprimiram, que a antologia não passa de um ‘saco de gatos’, só pra manter a metáfora do ‘mundo animal’ com que comecei.
 
tem gente que vai pegar, ler, e não sacar que a proposta é justamente essa: diversidade.
 
os veteranos Franco e Andraus, por exemplo, entram com hqs lírico-filosóficas, não exatamente o que o leitor de supas espera, ou o leitor de histórias com ‘enredo’ espera. Beto Martins faz uma digressão bacana com AS BOAS INTENÇÕES, que me parece ser a cereja no bolo da revista. estas entram naquela categoria mais subjetiva, como convém à crônica e à poesia.
 
Danton & Eder enveredam por outro camiño, a biografia, denúncia ou nenhuma das anteriores com COMO SER ENGANADO POR UM PSICOPATA. o Antonio continua sendo um dos desenhistas mais versáteis com quem trabalhei (ponha juntos aí o sr. Aguiar e meu camarada Daniel, além, é claro, do meu parceiro no crime, Jean Okada).
 
mesmo deixando a desejar no quesito enredo, ENDOPARASITAS chama atenção pro potencial artístico de Greco, mas não se trata de arte de revistinhas de homens-bombom. é mais aquela coisa punk, de garagem, suja… um trampo que me faz lembrar do Mutarelli dos anos 90.
 
Rosemário e MM vão com sêlo de recomendação desta bactéria-escriba que vos fala. até um painel solto do primeiro já vale o preço de admissão. nem vou falar da capa que o cara fez, seria covardia. e os textos do Matheus, cara… mesmo sendo onívoro, pensei seriamente nas conseqüências do consumo de carne. o texto sobre hqb só não ficou melhor por conta de uma revisão menos acurada. mas não se pode ter tudo logo de cara, na 1ª edição, n’est ce pas?
 
será que eles aceitam contribuições de microorganismos?
 
não custa tentar.