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mais uma vez

sabe quando as pessoas vivem falando de coisas que teriam feito e que cê sabe de antemão que se trata da mais pura e simples balela, encheção de lingüiça e coisa e tal?

lembro de ter lido numa entrevista com um desses roteiristas britânicos que são praticamente unanimidades (é tu mermo, Neil!) que ele teria redefinido ‘a gramática’ das hqs apra contar as histórias que queria contar.

embora concorde que, sim, ele é um bom escritor que, sim, fez pelo menos duas hqs memoráveis (SIGNAL TO NOISE e MIRACLEMAN: THE GOLDEN AGE – não inteiro, mas os segmentos SPY CITY e NOTES FROM THE UNDERGROUND) tenho que discordar que tenha feito qualquer coisa de diferente com a linguagem dos quadrinhos. na minha concepção, linguagem dos quadrinhos ou arte seqüencial ou como quer que queira chamar, é a sinergia de elementos que vão além da palavra pura ou da ilustração pura com a finalidade de narrar algo visualmente.

linguagem dos quadrinhos inclui tudo, até o que não é visível (o espaço vazio entre painéis) ou audível/legível (o silêncio: repare em como as histórias do Neil são verborrágicas); onomatopéias, ângulos inusitados (veja Paul Pope pra encontrar exemplos disso), a porra toda.

antes de morrer pro mundo das hqs eu tinha o prazer de conversar por horas com um camarada desenhista que as pensava de modo muito parecido e chegamos a usar o termo ‘caligráfico’ pra descrever o estilo de alguns de nossos desenhistas-fetiche.

porque, e esse é o ponto em que queria chegar desde sempre, contar uma história visualmente utilizando a linguagem dos quadrinhos implica, e essa é só minha opinião, escrever usando esses elementos constituintes básicos como se fossem uma coisa só.

daí, talvez, eu pensar que os melhores narradores nesse meio, que usam essa linguagem, são os artistas completos, os que escrevem e desenham suas próprias histórias.

os autores.

evidente que algumas equipes alcançam resultados pra lá de satisfatórios (veja a entrada anterior pra ter um exemplo), mas pouca gente consegue chegar no nível de, sei lá, Alex Toth ou Hugo Pratt, Flávio Colin ou André Kitagawa.

e o nível foi elevado novamente por David Mazzucchelli e seu ASTERIOS POLYP.

terminei de ler o material hoje, ainda não digeri, mas é uma das hqs mais entusiasmantes no uso que faz da linguagem que já vi.

parafraseando as cinesséries e gibis ruins da gringa:

to be continued…

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Douglas Wolk, autor do livro READING COMICS, escreveu isto aqui sobre o gibi novo do Mazzuchelli.

deu no New York Times, baby.

Asterios

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tava falando c’uma ex noutro dia. redundamos na memória. pra minha tristeza lembro de acontecimentos e pessoas em excesso.

nada bom. esse é o downside.

aquele lance de ‘copo meio cheio’ e tal…?

pra compensar tem memórias positivas. a primeira vez que prestei atenção no Mazzuchelli, por exemplo, foi num gibi do DD… a arte era diferente do ‘padrão Marvel’ então vigente mas ainda não tinha alcançado maturidade. a trama, se não me engano do Dennis O’Neil, um dos roteiristas mainstream que já ousavam (outro era Archie Goodwin), ocorria em dois tempos narrativos diferentes: no velho oeste e nowadays.

não muito depois disso Miller voltou ao título e Dave continuou na arte, uma das melhores hqs com supas até hoje. o cara evoluía a olhos nus edição após edição. daí, Batman Ano Um e outro salto de qualidade.

Dave sumiu do mainstream.

descobri via Garcia que ele fazia agora uma revista (maior que uma mag) indie chamada RUBBER BLANKET. mais progresso na arte.

então a adaptação com o Karasik de CITY OF GLASS, do Auster. a história em si já era perfeita em prosa e pensei que seria impossível adaptá-la, dada a ênfase no verbal (muito, muito importante pro ‘desenrolar dos acontecimentos’, se é que algo ‘acontece’ mesmo em ficção, inda mais na metaficção do Auster). os caras, como se dizia na minha época, ‘tiraram de letra’.

não lembro de ver mais nenhuma peça do Dave desde LITTLE LIT.

até agora.