Arquivo do mês: outubro 2008

co/opera

Elaborei um texto gigante com o objetivo de esclarecer como cheguei a última história em quadrinhos que está sendo dada ao público no momento no site do Daniel. Era um texto convoluto e cheio de detalhes. Tinha até uma ou outra piada. Um dia digito.

 

A verdadeira gênese de NADA A PERDER, no entanto, já foi tratada aqui há, sei lá, cinco meses? Na época eu estava escrevendo o roteiro concomitantemente às tiras DESVIO.

 

O que aprendi nesse projeto com o sr. Okada influenciou de forma direta no resultado de NAP. Síntese. Cortes. Montagem.

 

Acho que ainda não mencionei isso, mas sempre aprendo mais com os desenhistas que com roteiristas ou outros escritores. Um tema que eu abordaria em DESVIO se tivesse tido a oportunidade e que completaria a idéia de evolução que, acho, permeava toda a série.

 

Os darwinistas devotos da máxima da ‘sobrevivência do mais apto’ que me perdoem, mas evolução só é possível com cooperação. Méritos individuais nem sempre são o bastante. Se fossem, seríamos todos unicelulares, né não?

 

A lição de hoje é a seguinte: por mais perfeito que seja um roteiro de histórias em quadrinhos ele não vai deixar de ser um amontoado de palavras sem que um desenhista se disponha a desenhá-lo. Ponto.

 

Uma hq escrita por uma pessoa e desenhada por outra é contada por ambas. A mesma história se origina duas vezes em duas pessoas diferentes especializadas em linguagens diversas. Cada um a conta uma vez. Quem escreve, ao desenhista e este, ao leitor.

 

Você vê? O leitor não está fora da equação, ele também coopera. Se não tiver o repertório certo, a história pode não fazer sentido pra ele.

re:encontro

estou tentando ser criativo e, ao mesmo tempo, reavaliando o que tinha como minhas ‘certezas’ (não eram muitas, mas eram minhas) ao dar esse nome à entrada de hoje.

não foi epifania. nenhuma revelação. só o nonsense duro da realidade que avivou mais meus sentidos que qualquer tambor japonês.

o carro, desarticulado no ar, salvo de maiores danos pela mochila em minhas costas. dor como lembrete da vida, da biologia, da brevidade.

‘é assim que se morre?’ pensei antes de bater no chão.

banal demais.

tão banal que pode redundar em literatura.

desisto das fugas.

chega de cabecear a realidade.

MUERTOS

Sábado e seus rituais. O endereço de correspondência ainda é o mesmo.

Lá estavam as duas cópias de MUERTOS, hq de Daniel Pereira dos Santos baseada num conto de Zanthos Aybrom (que nome cabuloso! Queria ter inventado um assim pra mim!).

Eu já tinha lido boa parte de MUERTOS online, no site do Daniel, que tem ainda mais meia dúzia de boas histórias, um documento de sua evolução como artista de hqs. A tal diligência no trabalho de que falei noutro dia.

Quando soube que ele faria uma edição impressa, deixei de acompanhar o material na rede e esperei pelo lançamento. Sim, a hq é boa desse jeito. Tá, eu sei que o conteúdo não muda, mas a leitura de uma hq analógica traz uma experiência tátil que a digital ainda não permite (quem sabe um dia). Cheirar o papel, tatear etc., etc…

MUERTOS é anticonvencional. Não é à toa que a trama se desenrola na fronteira. Alguém até pode lembrar do filme de Beto Brant (MATADORES), mas a história é muito mais que isso. Pra começar, pense no que é uma fronteira.

É um limite geográfico, a linha que separa o conhecido do desconhecido? Ou não? A fronteira é a narrativa de um conto em prosa transformado em hq? É uma fronteira de linguagens? É, como sugerido na primeira pergunta da série, a fronteira atravessada pelo neófito em sua jornada iniciática? Ou a fronteira do espaço-tempo, da memória, da ficção e da autobiografia?

Você tem um narrador em primeira pessoa, mas não é uma história policial, não é uma trama detetivesca e, apesar da camada ‘hardboilled’, das armas, palavrões, loiras (não fatais) e outras convenções do gênero, trata mesmo é da humanidade, das falhas, dos sonhos, do apego aos pequenos momentos e às pequenas coisas que assimilamos, deixamos relegadas à memória, à qual recorremos nas horas difíceis.

A arte é um capítulo à parte, claro.

Desenhos e storytelling servem perfeitamente à narrativa, chiaroscuro da melhor qualidade, climão perfeito. O conto é de Aybrom, mas roteiro e desenho são de Daniel. É trabalho de equipe, é trabalho de um homem só? Mais uma fronteira, n’est ce pas?

Em MUERTOS a ilusão de tempo cronológico se esgarça e rasga, revelando o agora, a única coisa que existe, o ‘momento’ do zen.

travaille

Diligência no trabalho. No final, os resultados que se obtém giram em torno disso.

Você quer ter seus esforços como contador de histórias reconhecido, inclusive financeiramente, mas não tem o que mostrar pra provar sua capacidade. Coisas da vida. A pergunta é: sua motivação é combustível suficiente pra sacrificar tempo, material, labor só pelos elogios eventuais que irá receber? Porque é assim que as coisas são. Quer dizer, se você tiver sorte e cair no gosto de algum nicho de ‘consumidores’. Elogios podem ser sua única paga.

Mas espere!

Será que é isso mesmo?

Não!

Agora você tem algo a mostrar, algo que pode ser posto sob os olhos de um editor, uma prova de que você tem mesmo talento! Porque, acredite, se não houver investimento de sua parte, disposição pra suar a camisa e demonstrar capacidade de trabalho, ninguém, digo, NINGUÉM vai se interessar por seu cérebro imenso ou agilidade manual. Ninguém vai investir em você por causa de sua retórica cativante, sua propaganda vazia.

Editores são, em essência, homens de negócios e vêem as histórias geradas em qualquer meio como PRODUTO de comercialização.

Você quer ser um contador de histórias, ter reconhecimento financeiro e popular… bom, comece por contar histórias, PORRA! Conte histórias até sangrar! Até sentir-se dolorido e achar que vai morrer! Até que não haja mais sentido em contar histórias! Que elas se tornem o VAZIO absoluto e você não acredite mais na validade delas, em sua importância pessoal e assim por diante… se você continuar sentindo necessidade de contá-las mesmo que ninguém se interesse pelo que tem a dizer, TALVEZ você seja um contador de histórias afinal.

E talvez tenha se tornado bom o BASTANTE e tenha um corpo de TRABALHO pra mostrar a que veio.

Retórica? Propaganda?

Bah!