Arquivo do mês: julho 2010

crítica

“A perfeita sinceridade não oferece qualquer garantia.”

Chuang Tzu

difícil passar um dia sem encontrar o refrão da vez dos textos críticos. os críticos, coitados, praticamente se desculpam se não gostam de um produto cultural qualquer, mesmo quando sua opinião é mais que justificada, ou, outra modalidade/tarefa autoimposta, dedicam-se a produção de textos didáticos que explicam ao leitor incauto o que é crítica. levemente desesperador.

será conseqüência do esvaziamento epistemológico, da falta de noção (que porra?) do que está fazendo (critico os elementos constituintes do produto, o resultado, a execução?)… diabo, será que é culpa de Heisenberg?

li XAMPU – LOVELY LOSERS, do Rogério Cruz, e viajei no tempo. as curtas giram em torno de um agrupamento de personagens que se encontra, cruza, entrecruza num espaço geográfico e temporal específico, que fazem parte de uma cena musical e seus agregados.

a arte do cara, de longe, é a melhor coisa do álbum. aliás, é a melhor coisa que vi dele até agora e olha que o sujeito tem uma produção quase industrial perto da maioria dos desenhadores tupiniquins. mesmo seu trampo pras editoras gringas fica no chinelo.

as mulheres desenhadas por ele são bra-si-lei-ras. que raro, véio! tudo é muito bem feito. todos os personagens são bem construídos, característicos. cê não confunde ninguém com ninguém. cenários fodaços, diagramação idem.

o texto é bacana, realista e condizente com o jeito paulista de falar, mas tem umas coisas que não deviam mais passar numa revisão. eu olhei o serviço do álbum e tá lá que tinha revisor e o cara comeu bola.

aliás, comeu bola de novo, porque o mesmo sujeito traduz coisas pra mesma editora e noutro dia me vi trincando os dentes com um erro primário, de gênero, numa expressão pra lá de corriqueira, que não devia ter passado.

enfim.

o gibi é bom, independente dessa ressalva. vai lá e prestigia.

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tech

há muitos e muitos anos, num país distante, havia um gibi mezzo indie & mezzo pirata sendo publicado. o material pirata era europeu, o que já fazia diferença.

no meio daquilo tudo saíram as primeiras hqs do Quebra-Queixo, personagem de Marcelo Campos que, por nenhum motivo específico (hm, talvez o desenho do cara), me fissurou.

e, como acontece sazonalmente, tomado pela nostalgia e pela memória afetiva, comprei o albinho TECHNORAMA #3.

e li.

e tive uma epifania.

do punhado de hqs publicadas na edição, todas creditadas como histórias do criador do personagem só que desenvolvidas por roteiristas e desenhistas diversos, as de que gostei (e isso é assim, mesmo, pessoal… outros leitores podem gostar de um set totalmente diferente de histórias) tinham o envolvimento de Artur Fujita em uma capacidade ou outra.

já conhecia o trabalho de Fujita como colorista em OUTLAW, em que colaborou com Sam Hart (gente fina) e Tony Lee, mas não tinha visto desenhos ou texto do cara.

e gostei do que vi.

o lance das hqs é que dá pra se curtir melhor se você perceber que o engodo, o artifício, a ficção, não foi pensado com preguiça.

claro que os envolvidos tiveram trabalho desenvolvendo o material e, como disse antes, deve ter coisa ali pra todo gosto, mas se o leitor é alguém que em algum ponto tomou conhecimento do funcionamento de uma hq, fica mais difícil agradar.

profetas vendo cascavéis em dobro

quando terminei de assistir a UN PROPHETE, entrei num estado de graça. talvez não devesse ser assim, talvez eu não devesse gozar com um filme sobre o sistema prisional francês e a corrupção que, parece, é uma constante não só em países de 3º mundo. o filme é muito bom, muito bem feito, tem um elenco ótimo, o ator que interpreta o protagonista é um verdadeiro achado, jovem e talentoso, e ver um personagem ser tão bem desenvolvido crescer, deixar a ignorância e passar a, com todos os riscos que isso acarreta, controlar seu destino é uma experiência e tanto.

sem muita energia pra trabalhar na prosa curta nova, VENDO EM DOBRO, mas ainda animado com a ideia. claro que todo o conceito continua bem indefinido e tou sem noção de até onde a narrativa vai levar. deve depender muito de eu conseguir ou não alcançar o grau certo de exaltação pra atingir o objetivo, o que pretendo… aliás, neste estágio, não dá pra sequer imaginar ‘o objetivo, o que pretendo’… o resultado geralmente não tem a ver com o que se planeja com tanta antecedência. reli o que escrevi até agora e, como não senti vontade de arrancar os olhos, ou tou cansado demais pra avaliar a coisa objetivamente ou o material não tá me escandalizando de tão ruim.

li CASCAVÉIS, primeiro conto de SE VOCÊ GOSTOU DA ESCOLA, VAI ADORAR TRABALHAR, livro novo de Irvine Welsh. esse escocês consegue ser engraçado pra caralho contando histórias que vão da desgraça mais comum à comédia de erros mais aberrante. recomendável.

devagar, a velocidade

hm.

há uns quinze dias comecei a trabalhar numa idéia (vaga, imprecisa demais)… dizer que é uma ‘idéia’ talvez seja até exagero. pode ser mais preciso descrever o lance como uma técnica narrativa que, até há pouco, não tinha qualquer finalidade.

felizmente não fui vitimado por mim mesmo e minha misantropia galopante, o que, trocando em miúdos, significa que tenho duas pessoas (as duas últimas que resistem ao terror – recíproco – de conviver comigo – e eu com el(as)es – por uma hora semanal) com quem troco idéias ou, mais simples ainda, de quem monopolizo os ouvidos até que levantem, saiam andando e me mandem me foder (nunca tentei, mas deve ser difícil, dificílimo).

infelizmente essas pessoas tão queridas – tá, puta mentira deslavada – não estavam disponíveis quando precisei delas e, só agora, no meio do caos que o trabalho burocrático bimestral traz a minha simulação (patética) de vida, descobri (mais ou menos) a história que pretendo narrar.

e não vai ser das bonitas. que fazer, certo?