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Ensaio

o que chamou minha atenção para Eleanor Catton foi sua presença na FLIP, a divulgação do lançamento do tijolaço OS LUMINARES, um par de entrevistas breves em segmentos especializados do telejornalismo e uma semelhança tênue com outra mulher de sua faixa etária por quem me apaixonei, desapaixonei, apaixonei, desapaixonei… bom, é complicado.

na Bienal do Livro deste ano peguei uma cópia do supra e descobri, pro meu espanto, que havia outro dela já editado nestas plagas.

terminei de ler O ENSAIO há uma semana e saí da experiência sabendo que o livro dialoga com vários interesses pessoais meus além de alguns aspectos de experiência profissional.

o paralelo mais óbvio em que consigo pensar se dá com o filme A FLOR DA PELE, em que as personagens atribuem-se papéis e os interpretam,  contando com a dúvida do espectador (eles estão interpretando? desde quando? ou estão sendo eles mesmos? quando pararam de interpretar?) pra tornar a narrativa mais interessante.

mesma coisa com o bendito livrinho.

quem acompanha minha desculpa de blog sabe como ganho a vida (aaargh!) e também porque o tema, a origem da narrativa bifurcada me interessa: professor de música tem caso com aluna do ensino médio e toda confusão que daí deriva.

o tratamento dado por Eleanor não é o mais fácil nem o mais óbvio. as personagens questionam as relações de poder em funcionamento entre homem mais velho, mulher mais jovem e fazem perguntas interessantes: quem se perde, afinal? a menina ou o homem? quem sacrifica mais pra estar com o outro, quem corre mais riscos, quem aposta mais alto?

o escândalo sexual, apesar de ser o eixo sobre o qual as duas linhas narrativas se movem, não é o mais importante. o texto está carregado de questionamentos profundos a respeito da natureza e finalidade das artes (dramaturgia e música) e dos limites do real e do ficcional.

argumentos

uma das coisas que podem atormentar a consciência de alguém é exigir demais de outrem e pouco de si mesmo. quando se elabora um texto, por exemplo, que funcione como artigo de opinião, fazem-se necessários três movimentos básicos: uma introdução (na qual devem ser apresentados tanto tema quanto posição do enunciador sobre o mesmo); desenvolvimento (no qual devem ser articulados argumentos e exemplos, positivos e negativos, que sustentem e comprovem a posição adotada pelo enunciador no momento anterior) e conclusão (na qual, óbvio, o enunciador retoma a posição apresentada em primeiro lugar e, através de uma rápida revisão dos argumentos favoráveis e contrários, comprova-a, de preferência, irrefutavelmente).

não tão difícil, certo?

difícil, dificílimo é encontrar um assunto atraente o bastante com o qual se atracar por alguns parágrafos ou, com sorte, páginas, algo que renda mais do que 1000 palavras e, ao fim e ao cabo, faça sentido para o leitor.

apelar para a 1ª pessoa e tornar o artigo de opinião algo como um mash-up de ensaio e crônica simplesmente não é tão satisfatório quanto outrora. opinião, por mais paradoxal que isso soe, deve ser expressa impessoalmente.

se um texto começasse dizendo “eu li * &%@ d@ 73RRU@3M” já estaria errado de princípio, antes mesmo que qualquer coisa fosse dita sobre a história. o ideal seria algo como “ao ler * &%@ d@ 73RRU@3M o leitor médio…” viu só? impessoal, certo?

se chegasse a ponto de falar realmente da história poderia-se dizer que

“a mesma não impressiona muito e a arte é apenas funcional. tal desinteresse pode ser atribuído à idade avançada e ranzinzice decorrente dela ou ao fato de estar sendo um pouco mais exigente com o material consumido.”

“é compreensível que alguém pense numa semelhança com um desenhista genérico de grande editora norte-americana mas a arte é mais parecida mesmo com a de um outro artista, tantinho mais indie mas igualmente genérico como o 1º,  por causa do uso que faz das cores (algo mais para elétrico, azuis e amarelos). o sr. ******* não foge do uso da hachura, mas até aí, tudo bem. a história é outra fantasia de poder, só que, dessa vez, o protagonista tem sua sanidade posta em questão não por si mesmo, mas por todo o resto do elenco (menos a adorável @@@@@ – provável que baseada em alguma garota conhecida do desenhista). aliás, eis outro aspecto perturbador da história: o fato do sujeito só se relacionar, basicamente, com pessoas que conhece desde criança.”

enfim, uma argumentação módica sem qualquer comprometimento e, ao reler a bendita coisa, tampouco conclusão.

ensaio deve ser algo parecido com isso aí em cima, exceto que a similaridade seria maior com uma colcha de retalhos do que com um texto propriamente dito.

breve lista

oiaoiaoia…

pensei que tinha alguma coisa a dizer mas, como sempre acontece nesses momentos de semiepifania, a voz da razão me dá um chute nas bolas e me faz regressar a assim chamada realidade – or else.

ler ‘tiro no coração’ de mikal gilmore tem sido desafiante nas novas circunstâncias de trabalho em que preciso fingir que o exerço com um pouco mais de dedicação, então, são umas poucas páginas por semana quando tenho sorte, mesma fórmula aplicada a ‘o culto do amador’, com resultados similares. ‘o culto…’ é um livro que se lê em velocidade maior por causa do assunto e por se tratar de um ensaio muito objetivo e pouco literário. já ‘no coração’ é uma viagem autobiográfica com várias camadas significativas, bastante bonito e comovente. e, falando em viagem, convém lembrar que na pilha dos que vão e voltam, se revezam dia a dia, entra também ‘doença como metáfora’, de susan sontag, que me fez relembrar uma das muitas histórias planejadas e abandonadas já há um tempo.

basicamente?

lista de leitura.

e nem falei que já quase cheguei a um terço de ‘the anatomy of melancholy’. preciso começar a pensar no que vou ler quando tiver terminado este em 2016.

a vida é assim…

escrever é algo antinatural, apesar de vários autores postularem que o ser humano tem um “instinto” para aquisição de linguagem. a própria fala só é possível graças a uma combinação dos aparelhos digestivo e respiratório, que, em conjunto, funcionam como nosso aparato vocal, o que já não é lá grande coisa.

passar o sábado tendo essa afirmação confirmada e reconfirmada cento e sessenta vezes não estava nos planos mas a vida é assim. o que, de fato, dá sentido ao presente momento e à tentativa de escrever sobre escrever de modo a, talvez, alcançar algum tipo de esclarecimento a respeito de como se dá o fenômeno e, mais importante ainda, entender por qual motivo se faz esse tipo de coisa.

ouvir pessoas dizendo que precisam estar inspiradas pra escrever é irritante.

por que?

bom, pra começar, porque escrever É um processo artificial, então, postulo, se o indivíduo estiver imbuído, tiver propósito e dominar relativamente bem uma técnica, conseguirá um desempenho razoável mesmo SEM inspiração.

inspiração é um conceito romântico pra caralho, diga-se, que isso fique claro.

na maior parte do tempo roubamos dos outros pensando que estamos sendo originais. o máximo que se pode pretender nesse campo de atuação é contar histórias batidas – ou escrever ensaios sobre escrever – de um viés fracionariamente diverso de qualquer atentado anterior. recombinar noções de outrem, repensar formatos, mas, acima de qualquer coisa, esquecermos da técnica tão duramente dominada e permitir que a história conte a si mesma.

pra isso… cacete, pra isso poder acontecer é impensável fazer o que quer que se queira de um jeito meia-boca. é indispensável estudar, ler, reler, APRENDER com os caras que vieram antes, ter humildade e evitar umidade.

ter humildade não significa bancar o trouxa.

no dicionário do Bierce é dito que humildade é um tipo de paciência necessário a quem quer se vingar (ou coisa de igual valor).

humildade é uma lâmina de dois gumes.

enfim, antes que comece a escrever uma história a respeito dos méritos da humildade, faz-se necessário que eu vá ler um tanto.

 

sim-outro-também

tava pensando em como os palavrões podem ser divertidos e o quanto tenho rido do texto cada vez mais esdrúxulo dito pelos elencos de trocentas séries da hbo e/ou outros canais.

minha preferida, que mais dá flashback das pornochanchadas  dos 70 exibidas pela tevê aberta dos 80, é true blood.

rárárá

vai falar de trash talk sem mencionar os doidos que escrevem esses diálogos cheios de porra, merda, caralho, filho-da-puta, puta-que-o-pariu e mais outro tanto de incorreção política, blasfêmias,  e ofensas gratuitas, e digo que isso nem chega perto das doideiras que li antes (nem vou mencionar o Bom Marquês, Knut Hansum, Henry Miller e o Chuck) nas boas e velhas histórias em quadrinhos.

com mais efeito, pois havia um contexto, e, melhor, havia uma trama que pedia esse tipo de coisa.

uma das hqs mais lembradas dos 90, PREACHER, tinha tanto palavrão que o Morrison, na época do lançamento de INVISIBLES, tirava o sarro dizendo que o sucesso do gibi era proporcional ao número de vezes que a palavra “fuck!” era usada por edição e, seguindo essa lógica comercial peculiar, mais engraçado ainda, que ele planejava adotá-la como palavra fetiche pra um dos protagonistas da sua própria série, Jack Frost.

como disse antes, rárárá, os 90 forram mais engraçados do que os 80.

toda e qualquer ideia ultrajante – que hoje em dia seria  considerada tão somente ofensiva – era levada às últimas consequências resultando em histórias divertidas mas as pessoas de então eram menos temerosas a respeito de quem seria ofendido por isso e aquilo e aquilo outro, esse monte enorme de estrume que escrevi… não dá pra deixar de rir do elenco de true blood desfiando todos aqueles impropérios sem qualquer convicção porque, episódio-sim-outro-também, a única intenção parece ser chocar e, depois de uma exposição prolongada a uma população cuja principal característica etária é usar o palavrão como A forma de comunicação ideal que assustaria os adultos etc, bom, resumindo, não funciona nem um pouco.

claro que ainda vale à pena dar uma olhada de quando em vez pra espiar as ruivas e brunnetes que dão as caras (mas não só isso) em episódio-sim-outro-também e, óbvio, pelo fator nostalgia que a versão dublada causa, “caralho”, apesar de eu estar “cagando e andando” pra essa “porra”, “filho-da-puta”.

os entre aspas fizeram parte de uma ou duas frases do diálogo inicial dum episódio que vi hoje.

como não…

digamos que você é um comerciante, o que significa ser proprietário de um estabelecimento que pode ou não florescer dependendo de sua capacidade de cativar um público e, muito básico, não o atrapalhar quando este estiver disposto a adquirir algum produto de sua seleção porque, claro, seu sustento depende de sua habilidade de mover unidades.

digamos, só pra formar uma imagem mental melhor – e porque, a propósito de nada, é ao que corresponde a realidade –  que seu estabelecimento comercial é uma grande banca de jornais que, entre outras coisas, é a única na região que traz hqs antes mais facilmente encontradas em outra lojas que minguaram até desaparecer ou, mais simples, decidiram que quadrinhos dão mais prejuízo do que lucro, o que seja, o que torna seu comércio praticamente um monopólio, exceto, também óbvio, pelo peso esmagador que o comércio eletrônico adquiriu recentemente.

um dos seus fregueses de mais longa data mas não tão mais frequente entra em sua banca, descobre um produto que quer em suas prateleiras, vai ao caixa pra pagar e sair o mais depressa possível de perto de você porque, verdade seja dita, já prefere fazer suas compras online ou em livrarias justamente pra evitar o aborrecimento de ouvir sua conversa fiada.

por você ser quem é, falha imediatamente ao tentar impedir o impulso de tentar o diálogo, dessa forma, ao perceber que seu freguês está lhe entregando o produto de sua prateleira junto com uma nota de R$50, engrena a primeira da série:

-Você gosta mesmo de quadrinhos, né?

o freguês, temendo a chuva de merda que certamente virá, opta pela saída lacônica:

-É.

você, agora que começou, não consegue mais se conter:

-Você não consegue viver sem isso…

e o coitado:

-Consigo, sim. É só um gibi.

nessa hora talvez fosse melhor recuar e repensar sua abordagem do cliente e da conversa mas, porra, por que não ir até o amargo fim e alienar esse filho-da-puta do cliente de vez pra que o cara não queira mais sequer passar pela calçada em que sua banca fica e dispara:

-O vício em quadrinhos é pior do que cigarro, né?

e o cara:

-Não, nada a ver.

e você:

-Cigarro é pior, então?

e ele:

-É.

e você:

-Mas é difícil largar o cigarro, não?

e ele:

-É.

e você:

-Cê continua fumando?

ele:

-Não.

você:

-Conseguiu parar, é? Reparei que não comprou mais cigarro comigo…

finalmente entregando o troco pro indivíduo que, aliviado, desembesta pra longe de sua banca curado do hábito de ler quadrinhos comprados lá.

 

submusings

enquanto lia um par de páginas de ANATOMY OF MELANCHOLY cruzei com o gerúndio “musing” e percebi que, faz tempo, não escrevo sobre a submusa – não que você, leitor do blog e observador das entradas esparsas que surgem na calada da noite de vez em nunca, saiba do que tou falando, uma vez que essa personagem particular só tem aparecido nos meus cadernos de nota analógicos, aqueles em que continuo escrevendo diariamente, religiosamente e mais um ou dois advérbios de modo que quiser acrescentar a seu gosto.

nunca cheguei a definir direito quais os poderes e funções da submusa, então, tomando como ponto de partida o verbo supra e não o substantivo, espera-se que o autor, quem quer que seja, envolvido pelo abraço da musa, sinta-se inspirado e mergulhe em reflexão (to muse, certo?) que levará a alguma forma de produção/expressão cultural (óbvio que isso depende do tipo de musa com quem o indivíduo em questão negociar).

por outro lado, o autor que esbarra com a submusa no coletivo tem, no máximo, um punhado de segundos para olhá-la e esquece em seguida de sua pele pálida, cabelos cacheados escuros e visual grunge genérico porque, por tratar-se da submusa, ela mais distrai que inspira.