Arquivo do mês: fevereiro 2011

verde

ontem, excepcionalmente, estive com Frater Frey (R. continua desaparecido desde a última excursão a R’L’yeh) trocando ideias do modo mais discreto possível, celebrando com beberagens exóticas, comungando com o tabaco sagrado…

foi em meio a toda essa informação sensorial que Frey perguntou se eu já tinha visto GREEN HORNET, ao que respondi, sem muito alarde, que não, não tinha. Frey disse que as pessoas que conhece que assistiram desceram a lenha e respondi que, por ser um filme de Michel Gondry, convinha dar o benefício da dúvida. porque Gondry é um autor. claro que quem via a série televisiva com Bruce Lee ou leu os quadrinhos recentes (penso particularmente na versão do Besouro de Matt Wagner) tinha um tipo de expectativa e, como já disse numa das entradas anteriores, as pessoas não apreciam ter suas expectativas frustradas, preferem as zonas de conforto a que se habituaram.

pude assiti-lo hoje e constatei não se tratar de um filme de super-heróis, pelo menos não como se convencionou pensar em filmes do gênero. é um filme sobre meninos, mas Gondry não se furta de mostrar como meninos podem ser estragados e mimados, como viver esse tipo de fantasia parece insanidade… alguns dos personagens com maior bom-senso no filme (bandidos, acredite se quiser) questionam, mais de uma vez, justamente a sanidade dos heróis (e, mais tarde, do ‘vilão’).

o resultado é engraçado como se poderia esperar de um roteiro de Seth Rogen… engraçado pela quantidade de momentos em que ri de si mesmo (informação: a palavra ‘ridículo’, pra você aí, de cenho franzido, é o que faz rir por tentar alcançar um objetivo – a seriedade, por exemplo – e chegar em outro) e por mostrar que fantasiar-se de seja lá o quê não torna alguém menos patético, bobo, inepto.

é uma leitura de super-heróis mais parecida com KICK ASS do que com BATMAN.

e tá valendo. o ‘verde’ do título pode ser entendido como ‘imaturo’. neat!

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pesquisa

por que pesquisar pra escrever hq?

não sei quanto aos outros, só dá pra falar por mim e, pra ser sincero, às vezes o figmento de personalidade (ou imaginação – em momento algum acredite que só palavras traduzem uma pessoa) que domina a keyboard não é dos mais confiáveis.

então, pitada de sal.

cada vez que me proponho escrever o que quer que seja é necessário que haja algum tipo de aprendizado pois não me considero bom a ponto de acreditar que o que sei é suficiente. além disso, a outra questão que me persegue é a da participação do leitor na criação da história.

talvez por isso haja tanto apego a determinados gêneros (como os supas, o terror e a fc, só pra citar os mais ‘pop’ – a essa altura, penso que essa seja uma puta falácia, mas fazer o quê? quadrinhos pop de verdade atualmente são uma mistura de gêneros que, em geral, é filtrada por uma sensibilidade pós-moderna… sucesso só em caso de acertar o zeitgeist na cabeça, o que equivale a acertar a sena acumulada): o conforto que certos paradigmas repetidos ad nauseam representam pro leitor de sempre.

mudar o hábito de leitura adquirido numa vida toda é dar soco em ponta de faca. os cortes podem valer à pena, porém não há cristo capaz de controlar o gosto alheio, logo resta tentar dosar diversos elementos de modo a, pelo menos, produzir algo que ressoe em mais alguém.

daí a pesquisa.

informação só pode ser considerada informação se a pessoa que a recebe não a conhecia. a alternativa à novidade como atrativo é refletir a respeito de tudo que já foi dito e mostrado utilizando a linguagem de sua preferência e tentar encontrar um viés inédito.

não há muito tempo André Diniz, por exemplo, procurou transformar a ditadura militar no Brésil em pano de fundo pra hqs aventurescas. se deu certo? a posteridade dirá (dirá? que merda. preciso parar de parecer pretensioso).

no momento só pesquisar já proporciona algum prazer.

duvido de minha capacidade de encontrar qualquer informação que valha à pena ser divulgada ou de mostrar algo conhecido de uma perspectiva inédita… mas acho que vou tentar escrever uma hq ao menos divertida.

ainda

comecei a pesquisar um pouquinho pra tentar voltar a escrever uma hq sobre tema específico. diferente de só escrever sobre o que me interessa, algo que tenho feito nos últimos anos. e viva a diferença.

acho que não faço um roteiro desse tipo desde que escrevi GENEALOGIA DO MAL (que, aliás, usa o tema supra como pano de fundo – escrever esse ‘aliás’ aí, de certa forma, é quase como fazer pastiche do estilo de texto que um camarada desenhista costumava usar em emails).

daí que busquei o óbvio (Zuenir, Élio) e coincidiu de estar lendo MISTER X, do Straub, e achar o texto familiar mas diferente de outros do escritor. fui ver quem traduziu e, surpresa-surpresa, Fausto Wolff, um dos meus escritores brasileiros preferidos (de vez em quando, em momentos que meu mood bate com a ausência de esperança e violência intrínseca da prosa do velho e falecido Lobo).

não falei disso, mas uma das minhas resoluções de ano novo (é, ridículo, tou sabendo) é retomar a leitura de todo e qualquer livro iniciado e abandonado sem razão aparente (que não fosse por o livro ser uma merda intragável, que fosse puro preciosismo de minha parte)…

a partir dessa resolução já terminei FANTASMAS DO SÉC. XX, OBRIGADO POR FUMAR, UBIK (pouca paciência pra ler no original… comprei esse pocket há mais de 5 anos durante a febre K. Dickiana por R$1. agora tem uma edição nacional que, só por ser nacional, tem um preço proibitivo. por que brasileiro não lê, mesmo?) e um punhado de outros que devo ter esquecido (lendo muita coisa em outros suportes, também).

Wolff e Straub nessa pilha de começados e largados.

como Straub me fez lembrar do Wolff, o próximo é O LOBO ATRÁS DO ESPELHO. que, se lembro corretamente, tem a ver com o assunto tratado por seu Zuenir e seu Élio em seus trampos mais conhecidos e, claro, com o da hq que supostamente escreverei nos próximos meses.

porque só tendo escrito pra ter certeza.

Z.N.S. – Pág. 01

de ontem pra hoje recebi as duas últimas páginas da hq de COUTO que Wendell Cavalcanti desenhou e Leonardo Santana editou. pra comemorar, vai aí a 1ª página da versão final do roteiro, depois de muitas revisões, choro e ranger de dentes. escrevi esta história pra ser veiculada numa edição posterior do e-comic PERSONA NON GRATA. originalmente a dita cuja tinha 10 páginas. agora são só 8.

tó:

COUTO EM ZUMBIS NERDS SUBTERRÂNEOS!

A.Moraes.

Página 1;

Painel 1;
Mostramos o chão dum corredor escuro nem muito largo nem muito estreito do PDV duma pessoa que corre através dele, olhando para baixo. Linhas de movimento indicando velocidade viriam a calhar.

TEXTO (SEM BOX): N.A.D.A., Divisão de P&D, laboratório central, subsolo 13.

RECORDATÓRIO: TODO INÍCIO É INOCENTE.

Painel 2;
Mostramos, neste, as paredes do corredor – que continua escuro – afunilando-se, mas agora podemos ver seu fim. Ele desemboca numa sala iluminada, daí que teremos um retângulo branco e vertical em seu final.

RECORDATÓRIO: QUERÍAMOS DESENVOLVER A CURA PRA UMA DOENÇA QUE SÓ EXISTIA EM OBRAS DE FICÇÃO.

Painel 3;
Ao nos aproximarmos do fim do corredor, podemos ver membros humanos (sem pintos, só braços, pernas, cabeças etc) mordidos e espalhados pelo chão, assim como grandes poças de um líquido escuro (sangue? pschiii!) que também mancha as paredes.

RECORDATÓRIO: POR ISSO A TORNAMOS REAL.

RECORDATÓRIO: INOCULAMOS COBAIAS COM O VÍRUS, UMA DELAS FUGIU E INICIOU O CONTÁGIO.

Painel 4;
Mostramos, afinal, quem corria há pouco: um sujeito barrigudo, com óculos de lentes grossas, um uniforme parecido com o usado pelos personagens de STAR TREK, linha do cabelo bastante recuada, enfim, o estereótipo do nerd. Agora, o PDV é de quem está dentro daquela “sala iluminada” e nosso nerd – vamos chamá-lo de Sid – está parado no batente da porta, boca aberta, arfando, litros de suor vazando por todo seu corpo.

RECORDATÓRIO: COMO EVITAR QUE A DOENÇA SAÍSSE DO LABORATÓRIO?

Painel 5;
Certo… Invertemos o PDV pro de Sid de novo. Ele vê:
Couto (vestindo camiseta clara lisa, jeans escuros com botas de couro, cabeça totalmente raspada e os indefectíveis óculos escuros de armação redonda) segurando um zumbi adolescente (caracterize à vontade, só não esqueça que ele deve estar num estado avançado de decomposição) pelo pescoço, erguendo-o do chão com uma das mãos enquanto, com a outra, encosta sua 9mm sob o queixo do “podre menino morto”. Tudo isto num plano de conjunto.

RECORDATÓRIO: QUE UNS POUCOS SOBREVIVENTES FOSSEM CONDENADOS A ENFRENTAR UM CENÁRIO PÓS-APOCALÍPTICO?

Painel 6;
Inverte de novo. Plano americano mostra Sid, o nerd, aproximando-se de Couto e do zumbi-boy.

RECORDATÓRIO: CHAMAMOS COUTO! EXTERMINADOR PROFISSIONAL, OBSERVADOR DE U.F.O.S. AMADOR!

SIDNEY: Ajudar! Preciso…

existência

quem quer que esteja no controle do clima parece ter se apiedado deste mortal desde a última entrada desconjuntada há, sei lá, uma semana.

4ª, por exemplo, quase cheguei a sentir frio voltando pra casa por volta das 20h00 depois da caminhada na praia. não chegou a chover a cântaros mas foi o bastante pra ficar encharcado e, com uma ajudinha do vento, ter a sensação térmica de um dia de temperatura moderada.

5ª, pós-orto, voltei pra casa por mar, não de barco, a pé e com água até a canela. dia quase fresco.

o resto da semana não foi digno de nota.

milhões de coisinhas burocráticas sendo encaminhadas de modo a permitir que outras, bem mais divertidas, aconteçam.

hoje recebi a sétima página de COUTO: ZUMBIS NERDS SUBTERRÂNEOS. imprimi a versão mais recente e enxuta do roteiro junto com todas as páginas de arte do Wendell e devo trabalhar na versão final nos próximos dias, se nada inesperado acontecer.

minha cota de eventos inesperados tá alta neste começo de ano. se pelo menos tivesse alguns positivos talvez me sentisse menos mal.

comecei a sentir abstinência.

do lance de escrever, cê sabe.

hqs, quer dizer. outras coisas escrevo sem muita dor.

ver páginas desenhadas aparecendo ainda tem esse efeito.

tem a angústia existencial que pega porque deixo de ventilar uma série de preocupações e valores quando suspendo a produção mas não tem muito que se possa fazer a esse respeito. as alternativas são: escrever porque quero e posso e me sentir frustrado por não ver a hq desenhada em vida ou não escrever e sentir esse nó permanente na garganta, talvez também resultado de frustração, por deixar desconhecida a resposta pra pergunta ‘será que consigo?’

enfim, só chovendo no molhado, como era de se esperar.

que venha mais chuva.

inferno

sem planos.

o calor absurdo extinguiu qualquer capacidade que eu tivesse de pensamento racional.

a única sobreposição de conceitos de que sou capaz no momento é que sei como uma lagosta cozida no vapor se sente.

sei lá quantos graus os termômetros marcam nas ruas.

importa?

andando na praia, com água até os joelhos às 20h00 de sexta passada e sem sentir sequer uma brisa do mar, percebi que o que vem depois do fim se aproxima a passos largos.

mais cedo, na mesma sexta, dentro do coletivo, tive um aperitivo de como vai ser. transpirando e semimorto, encharcando as roupas, pingando, inconsciente.

ontem na farmácia, a confirmação do óbito. o balconista, claro, tinha que falar do clima infernal e adoçou a conversa dizendo que é fã da previsão do tempo e que vai continuar assim por mais uma semana.

pelo menos uma notícia decente: primeira imagem da DO ALÉM #02, cortesia de Wendell Cavalcanti e proporcionada por Leonardo Santana, santo homem, que tá fazendo o serviço que ninguém se propôs a fazer: sugerindo, direcionando, possibilitando melhorias em histórias que julguei mortas e enterradas.

até que enfim um editor.