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sem perdão

as desculpas continuam as mesmas (muito catching-up… caralho, como consegui deixar tanta coisa por ler num só ano?), mas os meus cabelos (arrumei a máquina, lubrifiquei, tosei até o couro cabeludo ficar exposto e passei a navalha)… de volta a feiúra familiar, não mais peluda.

vi ‘the social network’ por causa do roteiro do Sorkin e da direção do Fincher. o elenco segura. o texto que o Eisenberg diz nos minutos iniciais me fez lembrar de ‘relíquia macabra’ (the maltese falcon) com Bogart e grande elenco. os caras falavam como metralhadoras, motormouths, e não me surpreendeu ver nos créditos um ‘diretor de diálogos’.

que coisa mais impossível.

terminei de ler A PASSAGEM e fiquei curioso pra saber o que rola no resto da trilogia, mas não é o tipo de curiosidade que vai se sustentar indefinidamente.

li INVISÍVEL, do Paul Auster, entre sábado e ontem. terceiro livro do sujeito de que gosto sem ressalvas. os outros dois: TRILOGIA DE NOVA IORQUE e LEVIATÃ. encontráveis em sebos all over the country.

que mais? acho que vou ler o 2º vol. do SCOTT PILGRIM mañana. dei tanta risada lendo o primeiro que quis guardar um pouco este antes de me esbaldar.

boa noite e boa sorte.

NoiteLuz

Esquisito.

 

Andando a esmo pelo Gonzaga sem muito mais a fazer que entrar em livrarias e procurar o que ler, meu cenário de todo fds, recorrência bio-geográfica… praia dum lado, comércio do outro.

 

Entro na loja. No meio dela, em seu coração, tem um balcãozinho dedicado aos gibis. Sim. Claro que são gibis com preço de livraria, não aqueles que eu comprava antes, em outro ponto da linha da vida, nas bancas geridas por velhinhos turrões.

 

Às vezes os gibis têm pretensões de ser mais que uma narrativa visual, daí as pessoas  mudam seus nomes. Chamam de ‘arte seqüencial’. Não vou dar uma de hipócrita. Também faço isso. Mas no fundo sou o mesmo moleque de sempre que gosta de gibis.

 

Neste dia algo inexplicável aconteceu: um gibi que eu queria muito ler tinha chegado. Inexplicável porque, apesar de ser uma loja em que entro sabendo que o dono está preocupado em ‘servir bem para servir sempre’, não é o tipo de lugar em que se encontra material pelo qual se anseia. Eu comprei o bichinho, tão parecido com um de meus livros em prosa queridos e fui com ele pra casa, e o deixei entre os seus.

 

Ficou lá, parado, sem reclamar, até hoje.

 

A graça de NOITELUZ, de Marcelo D’Salete, não está na prosa afiada ou na arte expressiva. Seus personagens são calados, até taciturnos, e só eles falam, não há narrador onisciente. A arte é eficaz, conta a história mostrando-a sem pressa. Há cortes temporais e os elementos fundem-se aí. Deixa de ser só desenho+palavra, vira narrativa. D’Salete usa um recurso kielowskyano como frame device, uma moldura na qual as vinhetas individuais dos personagens se encaixam. Dá pra lê-las como narrativas autocontidas ou como crônica do bar, cenário, entorno no qual as coisas acontecem, as vidas convergem.

 

Não tem pretensão, esse gibi quietinho… é humano, só isso. O que me agradou mais foi a presença de um herói, calado e taciturno como seus colegas de cena, herói inesperado e nem por isso menos herói. Ele não salva a todos, claro, pois é um herói humano, nem protagoniza as histórias em que participa, às vezes quase como se fosse parte do cenário. É um herói invisível, um herói do universo de antimatéria, que tememos tocar e ignoramos ‘pro nosso próprio bem’.

 

Como nos faroestes de Leone ou nas tramas detetivescas de Hammet, sequer tem nome. Diferente destes, não faz ‘justiça com as próprias mãos’, sequer mata uma mosca. Só interfere… como uma divindade benévola em que ninguém crê, que ninguém vê.

 

Ou quer ver.