Arquivo do mês: dezembro 2014

Ensaio

o que chamou minha atenção para Eleanor Catton foi sua presença na FLIP, a divulgação do lançamento do tijolaço OS LUMINARES, um par de entrevistas breves em segmentos especializados do telejornalismo e uma semelhança tênue com outra mulher de sua faixa etária por quem me apaixonei, desapaixonei, apaixonei, desapaixonei… bom, é complicado.

na Bienal do Livro deste ano peguei uma cópia do supra e descobri, pro meu espanto, que havia outro dela já editado nestas plagas.

terminei de ler O ENSAIO há uma semana e saí da experiência sabendo que o livro dialoga com vários interesses pessoais meus além de alguns aspectos de experiência profissional.

o paralelo mais óbvio em que consigo pensar se dá com o filme A FLOR DA PELE, em que as personagens atribuem-se papéis e os interpretam,  contando com a dúvida do espectador (eles estão interpretando? desde quando? ou estão sendo eles mesmos? quando pararam de interpretar?) pra tornar a narrativa mais interessante.

mesma coisa com o bendito livrinho.

quem acompanha minha desculpa de blog sabe como ganho a vida (aaargh!) e também porque o tema, a origem da narrativa bifurcada me interessa: professor de música tem caso com aluna do ensino médio e toda confusão que daí deriva.

o tratamento dado por Eleanor não é o mais fácil nem o mais óbvio. as personagens questionam as relações de poder em funcionamento entre homem mais velho, mulher mais jovem e fazem perguntas interessantes: quem se perde, afinal? a menina ou o homem? quem sacrifica mais pra estar com o outro, quem corre mais riscos, quem aposta mais alto?

o escândalo sexual, apesar de ser o eixo sobre o qual as duas linhas narrativas se movem, não é o mais importante. o texto está carregado de questionamentos profundos a respeito da natureza e finalidade das artes (dramaturgia e música) e dos limites do real e do ficcional.

narrador no hospício

Uma possibilidade em que não havia pensado e não pensaria se não tentasse pensar como outra pessoa é que, talvez, ela não tenha lido a carta escrita nas páginas do livro.

Se o livro nunca chegou a suas mãos?

Se ela sequer soube dos sentimentos dele?

Tudo é possível – pensei em escrever “todas as possibilidades possíveis” mas melhor não.

Apesar de esse questionamento ter força e apelo como princípio de algo metalinguístico, não seria fácil encaixar numa narrativa ortodoxa… tergiversação demasiada, acho. Tudo que poderia ser interessante fica chato, antimidas, eu mesmo critiquei o excesso de reflexão numa narrativa, a falta de desenvolvimento numa situação em que o pensamento torna-se protagonista ou mais protagonista do que o protagonista.

Ele poderia ser o narrador e, se fosse essa minha opção, teria que concebê-lo como narrador não-confiável e só nisso já acrescentaria uma camada significativa na narrativa pretendida.

Talvez pudesse determinar o espaço ocupado pelo “herói” como um manicômio, um hospício, e ele ocuparia boa parte do tempo tentando lembrar como foi parar ali. A própria carta me inspira a pensar nesta direção. O “herói” tem uma autoimagem deformada pois escreve que sonhou com uma versão melhorada de si mesmo, “nos eixos”.

Daí essa noção: narrador no hospício.