Arquivo do mês: abril 2009

dogma

Eduardo Nasi escreve sobre quadrinhos como ninguém. entre outras coisas já vi seu nome citado na intro da edição nacional de CULTURA DA CONVERGÊNCIA. é um dos poucos críticos cuja opinião é confiável, ou seja, trata-se de alguém que SABE do que fala, que não é amigo do resenhado (embora possa ser), e alicerça muito bem o que diz com argumentos do MUNDO REAL (embora eu não tenha certeza do que seja isso nowadays). o DOGMA abaixo foi roubado do blog do Carlos Ferreira. read on:

1) A pluralidade é fundamental. Tendo isso em mente, todo o participante do Dogma deve ler mensalmente quadrinhos de cinco nacionalidades diferentes e de cinco gêneros diferentes. A regra apenas não se aplica a quem ler menos de cinco edições por mês. Nesse caso, ainda assim, não se pode repetir nem nacionalidades nem gêneros.

2) É proibida a leitura de quadrinhos em que personagens ranjam os dentes para expressar raiva ou furor, simplesmente porque essa não é uma reação humana. Humanos gritam, choram, fazem beiço e demonstram emoções.

Quem range dente sofre de bruxismo, e somente personagens com bruxismo declarado poderão ranger sua arcada dentária. Este item, que pode soar ingênuo e despropositado, não deve ser menosprezado, pois resolve aproximadamente 78% dos problemas do mercado de HQs.

3) Como os quadrinhos foram dominados por homens ao longo de sua história, a misoginia não poderia ser vetada de forma alguma. Mas deve-se rejeitar HQs misóginas toscas, de autores que claramente passam a impressão de nunca terem passado a noite com uma mulher de verdade na vida. Em caso de dúvida, o quadrinhista Robert Crumb pode ser considerado um cânone para a avaliação do que é boa misoginia.

4) O uso de saco plástico para proteger os quadrinhos não é aceitável. Bons quadrinhos precisam de oxigênio. Por consequência, veta-se o uso de pinças, luvas ou de qualquer outro tipo de frescura para armazená-los e manuseá-los.

5) O apego ao mundo material, na forma do colecionismo obcecado, tem causado grande mal aos quadrinhos e precisa ser desestimulado. Bons quadrinhos devem circular. Empreste-os ou, preferencialmente, doe-os para que outros possam lê-los.

6) A expressão “É cofre” para designar compra obrigatória de uma HQ está abolida. A aquisição de quadrinhos não pode ser vista como um comportamento ansioso ou desesperado, nem mesmo como um investimento. Além do mais, a ideia de “cofre” implicita a restrição à circulação dos quadrinhos, contrariando o item 5.

7) A publicação de quadrinhos na internet é profundamente incentivada pelo Dogma, desde que as obras sigam o que está estabelecido nele.

8) O Dogma nada tem a dizer a respeito da moralidade envolvida na prática de pirataria digital, que vai da consciência e da postura de cada leitor, bem como da decisão particular de obediência ou não das leis.

Contudo, o Dogma acredita que os autores e editores dos bons quadrinhos devem ser sempre recompensados pelo seu trabalho. Os participantes do Dogma devem ser informados que essa recompensa costuma ser um incentivo para que o trabalho tenha continuidade.

9) As tiras diárias publicadas na imprensa são consideradas um veículo poderoso de catequização do público não especializado. Portanto, todo participante do Dogma é estimulado a entrar em contato com jornais e revistas a que tem acesso para pleitear melhorias na seção de tiras das publicações. Na oportunidade, pode-se solicitar também uma cobertura melhor e mais crítica do setor de quadrinhos.

10) Cada participante do Dogma deverá repassar o texto para outros três leitores de quadrinhos.

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ruído

Sem funcionar direito há onze anos. Ações e funções automáticas do metabolismo comprometidas. Uma novidade a cada despertar. Surpresas nem sempre são coisas boas. Sistema nervoso se desligando. Sensação de ausência, melhor, de presença anestesiada em toda parte. Estar e não-estar simultaneamente. Nada parecido com qualquer relato de experiência extracorpórea. Mais como se as informações fossem transmitidas de uma longa distância e não necessariamente por olfato, tato, paladar, visão e audição… uma desconexão entre ‘corpo’ e ‘mente’. A idéia de ser-estar não parece aplicável no momento.

Toda informação é ruído.

Voltando pro qlipoth.

links!

artigo do man at the crossroads sobre autores britânicos importantes… é o Gravett, então o lance tá bem escrito, porra, não discute;

site do Brendan… se precisar dizer mais alguma coisa cê é a pessoa errada… clica lá e pronto.

pra não dizerem que tou eurocêntrico demais, um americano… dos poucos artistas completos e de alto nível naquela terra. e eu nem sabia que o sr. Chadwick tinha blog. só ‘o dilema da humanidade’ mesmo pra me fazer procurar… tem uma anedota fabulosa dum encontro de Russ Manning e Alex Toth; é só ler mais pra baixo.

tranco

Exercícios, trancos e barrancos.

Só assim mantenho a prática. Pra mim páginas manuscritas sempre tiveram apelo sensorial. Letra bacana, linhas, blocos de texto. Qualidade vem em segundo lugar, um bônus.

1º Roeg a gente nunca esquece. Bad timing tem Theresa Russel deliciosa e cheia de ânsia por sua sexualidade livre, (porra!) do Garfunkel de psicólogo e Harvey Keitel mais novo e menos mau, um detetive austríaco improvável.

Mais interessante que o conteúdo, até mesmo que ver a Theresa circulando pelada com direito a full-frontal, é a fragmentação da narrativa. Sim, existe uma narrativa e alguns de seus elementos são servidos frios ao espectador, desconectados.

A montagem é como aquela memória traumática desenterrada graças à magia da anamnese. O começo é o fim e mesmo depois deste último ainda há o que contar. Magnifique! Cut-up technique dans Le cinema!

Rotina gozada em outro agora.

Ver a Rô, pegar pacotes (El corazón coroñado; The human dillema; Y vol. IX; Edge of the orison), ver os caras.

Daí que a comunicação falhou.

Ligações não feitas ou não atendidas. Que seja.

Terminei o percurso costumeiro e me enfiei na livraria. Zé R. tava lá. Ok, café e papo garantidos, fomos. Acabando de ajeitar cadeiras, mal tínhamos pedido e Léo A. pipoca. Perfeito.

Desencontro virando reencontro.

Papo atualizado, livros e gibis trocando de mãos.

Good enough.

?

difícil manter-me entretido.

este findi li um pocket, pulp escrito pelo O’Neil e estrelado por meu personagem preferido dos comics, O Questão, Charles Victor Zsazs ou Vic Sage. me interessa principalmente por tratar-se de um ‘herói’ com muito pouco do estereótipo do herói, ainda mais do herói de quadrinhos.

a versão do Ditko também é legal, os desenhos do cara matavam a pau e a filosofia objetivista de Sage casava com o zeitgeist dos 60. preto & branco. a versão dos dois Dennis (o outro, o desenhista, Cowan) era mais próxima do que se passa por realidade hoje em dia e tinha dúvidas sérias a respeito de tudo, inclusive de sua identidade. preto é branco.

treinado por outro dos meus personagens preferidos dos comics, o misterioso Richard (Dragon, mas seu sobrenome não é citado nem no pocket nem nas hqs), Sage torna-se um artista marcial. o treinamento dele é minha parte preferida da narrativa, tanto no pocket quanto nas hqs.

a questão de Ditko era afirmativa. Vic Sage era o homem que queria a Verdade.

da dupla dos 80 era mesmo interrogativa. havia subjacente a possibilidade de ele abandonar o ‘combate ao crime’ e seguir outro caminho. muito taoísta, algo sugerido por Richard, meio que inspirado por Chuang Tsu. monge e borboleta. morango e penhasco. vida como sonho.

se um dia eu mexer com a idéia do artista marcial é essa linha que gostaria de seguir. se lembrar dela ou ainda me importar.

mus@

verdade seja dita e tal.

de quando em vez variações as mais improváveis se encavalam de tal forma que fica difícil ignorá-las.

por exemplo.

terminei, depois de não sei quantos meses, anos, décadas, de ler LOST GIRLS. comecei quando era serializada na TABOO. li um pouco mais quando a Kitchen Sink publicou dois números. por fim, li os volumes da Devir.

Melinda Gebbie deu saltos de qualidade incríveis em sua arte ainda no primeiro. A narrativa em si me impressionou muito mais quando a li pela primeira vez, ainda na antologia do Bissete.

hora de mudar de musas.

tava sem uma desde o ano passado, quando venceu a validade da última. ela era discreta e retraída, ainda que bonita. atuação satisfatória, não mais que isso.

a nova tem uma cara de quem ainda não acordou direito mas está atenta a tudo. insone. grandes olheiras. nada de ‘boa menina’. sabe argumentar e tem os pés firmes na Terra com a cabeça nos quasares mais distantes.

é de carne e osso, pertence ao mundo sensível, e é impossível idealizá-la quando se está concentrado no seu olhar/boca/expressão sacana(s), na vanguarda generalizada, na pélvis insolente.

processo irreversível contínuo, eterno retorno, penso numa nova ficção.

um escritor escreve sobre um escritor.

como da primeira vez, só que esta é uma primeira vez diferente.

lector

título dum ensaio do Eco, acho, ‘lector in fabula’… era uma brincadeira com o ‘lobo in fabula’… li há um bilhão de anos, claro, então não tenho certeza se foi num dos ‘diários mínimos’ ou se nos ‘seis passeios pelos bosques da ficção’.

quando o ano começou, percebi que tinha voltado a ler ensaios. sem motivo aparente, sem premeditação, sem causa.

‘curiosidade’ pode ser usada como justificativa. ‘interesse’, se preferir.

sim, uma daquelas coisas que só se aprende na prática. depois de dar aulas por mais de quinze anos e de observar a molecada e a mim mesmo (não muito) atentamente, essa é a conclusão a que cheguei… pra aprender o sujeito precisa estar interessado… de outro jeito não rola.

aprendizado, no que tange a língua/linguagem, é impossível sem prática. significando que ler/escrever devem ser consideradas ações complementares, melhor, uma só ação. língua/linguagem devem ser consideradas como ferramentas/utensílios. como todas as outras ferramentas/utensílios ‘criados’ pelo animal humano, servem como extensão de nosotros.

chomsky&pinker acreditam numa ‘gramática interna’, o que quer que isso signifique. no momento acho que língua/linguagem é algo adquirido e a proficiência no uso só se dá com a prática. como outras ferramentas/utensílios.

lendo agora ‘gramáticas da criação’, do george steiner; e ‘cachorros de palha’, do john gray… aconselhável pra quem gosta de sínteses.