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a vida é assim…

escrever é algo antinatural, apesar de vários autores postularem que o ser humano tem um “instinto” para aquisição de linguagem. a própria fala só é possível graças a uma combinação dos aparelhos digestivo e respiratório, que, em conjunto, funcionam como nosso aparato vocal, o que já não é lá grande coisa.

passar o sábado tendo essa afirmação confirmada e reconfirmada cento e sessenta vezes não estava nos planos mas a vida é assim. o que, de fato, dá sentido ao presente momento e à tentativa de escrever sobre escrever de modo a, talvez, alcançar algum tipo de esclarecimento a respeito de como se dá o fenômeno e, mais importante ainda, entender por qual motivo se faz esse tipo de coisa.

ouvir pessoas dizendo que precisam estar inspiradas pra escrever é irritante.

por que?

bom, pra começar, porque escrever É um processo artificial, então, postulo, se o indivíduo estiver imbuído, tiver propósito e dominar relativamente bem uma técnica, conseguirá um desempenho razoável mesmo SEM inspiração.

inspiração é um conceito romântico pra caralho, diga-se, que isso fique claro.

na maior parte do tempo roubamos dos outros pensando que estamos sendo originais. o máximo que se pode pretender nesse campo de atuação é contar histórias batidas – ou escrever ensaios sobre escrever – de um viés fracionariamente diverso de qualquer atentado anterior. recombinar noções de outrem, repensar formatos, mas, acima de qualquer coisa, esquecermos da técnica tão duramente dominada e permitir que a história conte a si mesma.

pra isso… cacete, pra isso poder acontecer é impensável fazer o que quer que se queira de um jeito meia-boca. é indispensável estudar, ler, reler, APRENDER com os caras que vieram antes, ter humildade e evitar umidade.

ter humildade não significa bancar o trouxa.

no dicionário do Bierce é dito que humildade é um tipo de paciência necessário a quem quer se vingar (ou coisa de igual valor).

humildade é uma lâmina de dois gumes.

enfim, antes que comece a escrever uma história a respeito dos méritos da humildade, faz-se necessário que eu vá ler um tanto.

 

clint

pós-labor cotidiano, pós-almoço, segunda-feira à tarde e a siesta costumeira me arremessaram ao tipo de sonho que vale à pena lembrar.

infelizmente só sobrou uma imagem: estar dentro da planta esquemática de um dos filmes do Eastwood rodados nos 80.

qual?

no idea.

ao despertar, a revelação assombrosa: babei no travesseiro.

hoje: li as primeiras 40 páginas de A VIDA MODO DE USAR. trabalho arquitetônico-literário de miniaturista, o outro livro de Perec, lido em outra dimensão do espaço-tempo, não lembra em quase nada este aqui.

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Sem ‘tenebroso inverno’, mais pra ‘verão escaldante’, lá vai mais uma tentativa de fazer aquilo em que o animal humano é supostamente único (como se ninguém tivesse ouvido falar dos tratos que abelhas e formigas dão à bola nesse quesito): comunicar.

 

E, pra variar, não tenho a mínima idéia do que.

 

Pra começar, talvez deva dizer que li durante a semana que passou THE ATROCITY ARCHIVES, show de narrativa que quebra barreiras entre vários gêneros…

 

Imagine o seguinte: Bob Howard (hm, alguém consegue fazer a conexão?) trabalha numa divisão secreta do serviço, ããã, secreto inglês, ‘the laundry’. Bob é perito em computação oculta.

 

Alan Turing em seus últimos anos produtivos desenvolveu equações capazes de romper o tecido da realidade e invocar entidades que só podem ser descritas como lovecraftianas… os de muitos ângulos, que estão no fim do set de Mandelbröt.

 

Bob e seus ‘gerentes’ trabalham a fim de prevenir a invasão de nossa bola de lama por essas entidades altamente entrópicas. Claro que a coisa não pára por aí. Os funcionários da lavanderia têm que fazer capacitações o tempo todo, preencher relatórios, enfim, o que qualquer agência de manutenção da lei faz de fato, algo totalmente desglamurizado, o extremo oposto do que Bond, o James, faria.

 

Muito bom. Por mais que o trabalho pareça cool sempre tem um chefe pentelho te cobrando relatórios, freqüência e resultados. Assustador porque mimetiza o que seria o cotidiano de uma repartição pública.

 

De verdade? O animal humano não precisa do auxílio de monstros multiangulados ou entidades entrópicas… ele mesmo já faz o trabalho sujo e se auto-extermina. O exterminador, nesse caso, é também a praga.

troço

é, foi isso que escrevi. um troço cheio de ressentimento com o mundo e a vida e tudo mais. como um romântico. mas o lance de tentar fugir da realidade, da ‘vida real’ começou bem antes deles, n’est ce pas? com o primeiro sujeito que inventou o primeiro mito pra explicar algo que não entendia ou não aceitava como realidade.
 
‘a vida não devia ser assim!’ ele deve ter dito, brandindo a pedra que matou seu irmão, ou tentando regurgitar o fruto envenenado que a mulher lhe deu. tá vendo? as mulheres são diferentes. elas aceitam as coisas como são. ‘bom, isso aqui vai me tornar mais sábia? o que são uns anos a mais de vida sem sabedoria?’ e deu uma dentada gulosa, o suco escorrendo por seu queixo perfeito, recém-fabricado.
 
a oferenda recusada é uma justificativa. a serpente tentadora outra.
 
a vida fede. a gente joga perfume com explicaçõezinhas fáceis e tal. a gente se põe no topo da cadeia alimentar que nós mesmos bolamos. ah, sim, temos ‘inteligência’, somos ‘conscientes’ e aonde chegamos com todas essas vantagens? o que deveria ser uma ferramenta evolutiva tornou-se prisão.
 
e tentamos escapar dela.
 
‘eu sou um ex-escritor em recuperação. não escrevo ficção há seis meses.’ e se sente melhor.
 
quem escreve ou lê ficção quer escapar da vida, da realidade. mas não há escapatória. não exercemos controle. o controle ou a obsessão pelo controle é decorrente de trauma na fase anal. freud disse, não eu. confie em freud. venere freud. colecionar é outro jeito de exercer controle. bom, não, obrigado. você entende? tem a ver com reter. em casos extremos ganha o nome de disposofobia.
 
não importa se a ficção é o mito ou a música, a ‘cristalização do tempo’, como queria lévi-strauss, que seja um jogo qualquer, cinema, tevê, religião, enfim…
 
temos medo do mundo que nos cerca.
 
queremos sair.
 
deixar a gaiola.
 
me pergunto o que aconteceria com os ultraromânticos se eles soubessem que a morte já estava se acomodando em seus pulmões, formando lindos tubérculos, enquanto desfiavam louvores em verso à ela. ‘morte como fuga da vida’. claro!
 
as bactérias agradecem. e nós devíamos agradecer a elas. graças a elas somos capazes de digerir o que comemos. as bactérias são a forma mais bem sucedida de vida. elas sabem como as coisas são mesmo sem ‘inteligência’ ou ‘consciência’. na metáfora evolutiva de que mais gosto, tempo é equiparado a espaço e os bilhões de anos da vida na terra equivalem a um quilômetro. a vida humana existe há dois centímetros.
 
somos pequenos desse jeito e ainda assim nos autocoroamos como o ápice da evolução.
 
já as bactérias, que não fazem idéia de sua importância, estão aí praticamente desde que o mundo é mundo. elas não dão a mínima pra porra nenhuma!
 
isso é que é vida!