Arquivo do mês: agosto 2009

79/97

Zé Carlos, colega de classe na 2ª série do primário em 79, foi o primeiro outro nerd com quem conversei. Isolado pelos outros meninos não por causa de sua esquisitice evangélica, mas por ser um dos poucos negros da escolagozado. 79 é o ano da campanha pela Anistia dos brasileiros presos ou exilados por sua oposição  política à ditadura e ainda assim o preconceito ficou na memória… ou talvez eu a esteja enfeitando e o preconceito não fosse racial, mas social. Os únicos negros públicos eram Pelé e um ou outro ator ou atriz de televisão (escravos ou lowlifes ou bandidos, na ‘telinha’) e um ou outro cantor(a).

Como eu, Zé Carlos desenhava. Gostava de HQs de super-heróis. Colaboramos na ‘narrativa gráfica’ mais antiga que ajudei a bolar. Envolvia um alienígena alado caindo na terra e não muito mais que isso. Uma origem.

O sonho: estava em algum lugar, qualquer lugar, lugar algum, paisagem onírica construída com elementos colhidos e amontoados aleatoriamente pela necessidade do psicodramaum balcão de bar familiar, chão de terra batida (um terreiro?), pessoas bebendo, rostos imprecisos, sem contornos. A chegada de Zé no local, o tom de voz peculiar, baixo e reverberante, foi o índice de reconhecimento e o que me levou a perguntar-lhe, por não ter dúvida do que fazia, onde ele cantava.

No mundo real, reencontrei Zé em 97 e falamos de nossas vidas, the story so far. Era um cara forte e pragmático, muito mais que eu. Comentei minha separação recente e o trabalho como professor. Ele era estivador e suas relação com as mulheres era de caráter profissional. Mesmo. Nas circunstâncias achei sua postura mais engraçada que triste. Sofria então de um caso moderado de misoginia, contraído por uma psique imunológica danificada e enfraquecida.

O sonho: sua resposta, provável, foi puxada dessa última conversa. Cantava em ambientes reservados e pra poucas pessoas.

Não sei quanto tempo passou devido à arbitrariedade da cronologia onírica, mas reencontrei-o no coletivo, ou uma personagem análoga, e ele, diferente do encontro anterior em que estava bem vestido e limpo, apesar de levemente bêbado, agora parecia decadente e preparava uma seringa pra injetar-se ali mesmo, no ônibus em movimento, o carro pra lugar algum… pedi que o motorista abrisse a porta e ele perguntou-me se o cara estava me incomodando e ainda, sem esperar resposta, comentou que se tratava de um chato. Lá estava eu tropeçando exausto pela rua, quase certo de que não conseguiria dar mais um passo madrugada adentro, quando um braço desabou sobre meu ombro e a mão ligada a ele tamborilou ao lado do meu pescoço. Sabia que era o Zé e a sensação tátil foi tão forte que acordei assustado.

Tentei ler e conciliar o sono, mas só depois de fazer as anotações em que me baseei pra escrever isto aqui, assistir à programação pseudo-erótica e assustadora da madrugada, beber 600ml d’água e fumar um par de caretas, consegui.

Me pergunto qual acontecimento do dia elencou o Zé pressa história e porque estes elementos específicos foram escolhidos na composição do roteiro. Os cenários eram bons, assim como o som… nos sonhos minha audição é perfeita… o susto antes dos créditos finais fechou a narrativa de um jeito inesperado. Pelo começo parecia ser só mais um daqueles sonhos em que encontramos pessoas que não vemos há tempos. A virada abrupta na trama incomodou, mas os cortes ágeis compensaram.

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chaykin

em ‘maps & legends’ Chabon escreveu um ensaio bacana sobre o homme.

nas duas últimas semanas foi a vez de tio Steve: aqui e aqui. no primeiro link um pouco da pré-história do quadrinista (inclusive tratando da adaptação de ‘stars my destination’); no segundo, Grant avalia a contribuição de Howie ao mainstream e fala, com tanta profundidade quanto possível num artigo deste tamanho, de ‘american flagg!’ e sua produção posterior.

Chaykin é um daqueles heróis não cantados do meio. outros artigos sobre seu trampo seriam mais que bem-vindos.

clint

pós-labor cotidiano, pós-almoço, segunda-feira à tarde e a siesta costumeira me arremessaram ao tipo de sonho que vale à pena lembrar.

infelizmente só sobrou uma imagem: estar dentro da planta esquemática de um dos filmes do Eastwood rodados nos 80.

qual?

no idea.

ao despertar, a revelação assombrosa: babei no travesseiro.

hoje: li as primeiras 40 páginas de A VIDA MODO DE USAR. trabalho arquitetônico-literário de miniaturista, o outro livro de Perec, lido em outra dimensão do espaço-tempo, não lembra em quase nada este aqui.

exercício sobre o vácuo

Na adolescência minhas opções de entretenimento eram limitadas. Podia ler, assistir a tevê, ouvir rádio ou perambular pelo bairro. Como todo garoto frustrado e batido, fantasias de vingança vinham bem a calhar e a tevê começava a veicular os primeiros animes que complementavam as poucas HQs de super-heróis da época. Materiais como ‘Savamu, o demolidor’ ou ‘O judoca’ eram favoritos e ganharam lugar na memória afetiva, assim como o super-herói sobrenatural ‘Fantomas’.

Claro que aos 12 ou 13 ninguém se liga em como algumas constantes independem de cultura ou etnia e que, ainda assim, pouco ou quase nada pode ser chamado de original.

Há uns anos li ‘Planetary’ pela primeira vez e me surpreendi não só com o desbunde técnico como também com a riqueza de referências. Hoje em dia quase ninguém faz mistério de suas referências, mas houve época em que era novidade ver escritores revelando suas fontes. Como o consumo de ficção mainstream era, então, a carne e o sangue de meu entretenimento, ler as introduções que Stephen King escrevia pra seus livros me dava mais opções de leitura, assim como as que acompanhavam a abertura de histórias de Alan Moore, Grant Morrison e assim por diante.

A chamada ‘alta cultura’ não chegou a mim através dos canais usuais, de uma biblioteca ampla e variada nas dependências da casa (por mais livros que a Bíblia tenha, ainda não é uma biblioteca). Foi contrabandeada, isso sim,  escondida nos gibis que adorava. ‘Skreemer’ me falou de James Joyce, ‘V’ de Pynchon e Orwell, ‘Doom Patrol de Hofstadter, dadaísmo e tantas outras peculiaridades culturais… voltando a ‘Planetary’, bem mais recente, mais ou menos dez anos desde o princípio de sua produção, fui absorvido pela cultura pulp e de fc ‘heróica’ dos anos 50 e 60.

Descobri Robert Sheckley (junto com Silverberg, Ellison, K. Dick e o insuperável Alfred Bester) mais ou menos enquanto lia as primeiras edições desse gibi de ‘arqueologia cultural’. Sheckley destaca-se mais mesmo por conta da ressonância encontrada num dos contos de ‘Inalterado por mãos humanas’ com a idéia usada por Ellis, na série, de uma tripulação de super-humanos que era, também, o engenho que fazia voar uma nave interdimensional.

Hoje terminei de ler THE STATUS CIVILIZATION e descobri de onde os escritores dos trocentos spin-offs do evento em quadrinhos do ano, ‘Crise final’ (todo mundo espera que seja), canibalizaram suas idéias.

Omega, o planeta aonde são enviados todos os tipos criminosos da Terra, inclusive pessoas consideradas perigosas por suas idéias ou não-conformismo, obedece  a mesma premissa de ‘o planeta dos condenados’, por exemplo. É nessa cultura (literalmente) marginal que surge a religião do crime, ou culto do mal, ou como queira chamar, que deve ter servido, também, como fonte para ‘a bíblia do crime’.

Não estou dizendo que é errado emprestar ou até roubar, idéias, conceitos e personagens, a fim de produzir ficção.

O que me incomoda é o desrespeito de, a partir do que foi surrupiado, não despender qualquer esforço com o propósito de alcançar resultados acima da média. Essas histórias particulares já foram contadas eficazmente pelo menos uma vez, . Se é pra contá-las de novo que se introduzam elementos que as deixem respirar. Ah, , então as histórias originais não tinham super-heróis? E desde quando super-heróis são novidade? 37, 39 do século passado?

Não consigo mais me importar com hqs que telegrafam seus finais desde a capa. Também não se pode esperar muito em termos de qualidade técnica, salvo raras exceções.

O que estou tentando demonstrar?

Lembrei do manisfesto antropofágico e seus itens de ‘absorver influências e preservar as bases da cultura nacional’.  Dá pra entender do que são feitas essas ‘bases’? O clima, a alimentação, a paisagem… toda ‘cultura nacional’ (e estou consciente de como isso soa em tempos de globalização) deriva disso, inclusive o hábito de comer carne humana (que, apesar da mistificação perpetrada por alguns antropólogos – adquirir conhecimento, força e coragem do falecido – tinha mais a ver com a disponibilidade de proteína e se compensava ou não despender energia pra obtê-la). Lembrei também de todo mundo que cisma de ainda fazer hqs de super-heróis por aqui quando é cada vez mais evidente que heróis são ultrapassados, fora de moda e não cabem na cultura ou moral da época, além de serem difíceis de aclimatar em terra brasilis.

De verdade pra que insistir quando fantasias de fuga e vingança são mais populares em outras formas de entretenimento tão mais interativas e, por isso mesmo, eficazes?

mister butterfly

borboletaestudo3

Mais um estudo de personagem do Edu pra nossa hq futura.

miss butterfly

borboletaestudo1

borboletaestudo2

estudos de Edu Mendes pra BORBOLETA, hq em que estamos colaborando.

mesa de estagiária

então, curto e grosso, tá no ar o primeiro segmento da seqüela p-p-prometida de CIDADE. vamos dar uma olhada no velho Lucas Profit por outros olhos.

no Labirinto 2.0, onde mais?