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link-se!

UPDATED: pra consertar o link quebrado do What Not (obrigado, sr. O) e acrescentar Toth Fans (tanto no blogroll quanto nesta entrada)

rápido, rápido, rápido.

acréscimos feitos ao blogroll que considero interessantes, interessantíssimos:

Barron Storey, mestre de, entre outros, Dave McKean, que vem mantendo um diário ilustrado online no endereço acima;

What not, blog de um coletivo de desenhistas que trabalha pro mercado americano de quadrinhos e propõe, semana sim outra também, temas pra que todos criem ilus de babar (Dave Johnson, Sean Phillips, Duncan Fegredo, Phil Bond, Jock, Cameron Stewart, Francesco Francavilla entre outros);

Cover Hi-Lo, a crítica semanal de Dave Johnson, um dos profissionais mais rematados do ramo, às capas dos gibis que funcionam ou não, comentando desde design, cores e quejandos;

Toth Fans, a melhor e mais completa base de dados, arte e notas de Nosso Senhor Alex, colecionada e digitalizada por caras que são direta ou indiretamente responsáveis por dois dos livros mais bonitos de quadrinhos do ano passado.

quem acompanha a transmissão ordinária diária que faço no twitter já viu esse povo citado. quem só vem aqui (sim, VOCÊ!) e prefere, compreensivelmente, descobrir meu gosto (nem um pouco) peculiar por arte em doses digest, pronto, seus problemas acabaram.

eeeee por enquanto é só p-pessoal.

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aventura

enquanto espero que meu corpo alquebrado se recupere o bastante pra mais uma ida à rua com todas as implicações que disso derivam, resolvi escrever uma baboseira qualquer aqui à guisa de entrada-do-dia.

escrever a história que estou escrevendo no momento tem seus percalços.

por exemplo: ao começar a 3ª seção da dita cuja, sem ter a menor ideia de como os outros envolvidos no projeto reagiram às duas primeiras, percebi que gosto demais das personagens que constituem o núcleo familiar de um dos protagonistas, pois elas falaram em 2 páginas mais do que todos os personagens e o narrador em 14 páginas.

a atitude correta, quando alguém se vê entusiasmado assim, é tomar um banho frio e esquecer. os diálogos de que gostei tanto vão precisar ser limados impiedosamente porque estou escrevendo para uma linguagem que privilegia a imagem em detrimento da palavra.

claro que isso não significa que o texto deve ser descuidado. ao contrário: as limitações vão obrigar-me a tentar transmitir o mesmo espírito aos/dos personagens com muito menos palavras.

é quase como atender às restrições autoimpostas pelos experimentalistas do Oulipo.

sem, é claro, ter a pretensão de me comparar a eles.

ideal x real

Em 2007, depois de uma febre cerebral que fritou boa parte de meus neurônios e fodeu com as poucas sinapses funcionais que ainda tinha, escrevi um texto com ajuda e insights de Jean Okada que tentava divisar qual seria o ‘formato’ (ou idioma) por natureza das hqbs.

Concluímos, e isso devido em grande parte às sacadas do sr. Okada, que a história curta seria o ideal. O assunto não ficou jogado às traças, pelo menos não na minha cabeça, mas toneladas de caraminholas e uma ou outra tentativa frustrada de fazer decolar um projeto cada vez mais sintético de quadrinhos (iniciado com histórias fechadas com número de páginas reduzidíssimo que tornaram-se tiras com tema recorrente e personagens que se revezavam ou só faziam uma aparição) me desviaram de avançar um pouco mais na direção do que seria o mais adequado em termos de publicação.

A história curta, claro. Não que a história de como cheguei a essa conclusão seja curta, mas a conclusão é, justamente, a história curta. Dada a imprevisibilidade de aceitação das publicações tupiniquins, da volatibilidade do público leitor e de trocentas outras variáveis, produzir hqs fechadas e com poucas páginas seria o melhor.

Trocando idéias com um colega roteirista (que trouxe à baila uma série de outros entraves que impedem a viabilização do plano ‘editor+equipe criativa do começo até o fim’) vi reforçado o conceito de que o tipo de antologia que talvez funcionasse com aquele grupo de indivíduos que se propõe a trabalhar dentro de certa organização e seguindo padrões de qualidade pré-estabelecidos, seria uma de personagens recorrentes.

Histórias de 8 páginas, autocontidas, com personagens que apareceriam na edição subsequente em outra história, também autocontida. Então, uma antologia deste tipo teria, sei lá, 3 séries concomitantes, de personagens recorrentes, totalizando 24 páginas de quadrinhos por edição, ao invés de as equipes criativas investirem seu tempo no desenvolvimento de histórias fechadas de personagens que desapareceriam a seguir, ao fim da narrativa.

O termômetro de popularidade das séries/personagens/equipes criativas seria a web e, claro, as vendas. Nada impediria que os leitores tivessem essas hqs disponíveis online. Até hoje a tese do McCloud de micropagamentos não foi posta à prova, talvez os ases da programação pudessem dar um jeito nisso, se tivessem estímulo pra isso e pudessem ser cooptados como parte da equipe.

Parece que alguma(s) pessoa(s) não sacaram o modelo proposto. Reitero: é de uma editora independente, uma sociedade limitada composta por autores independentes que, sabedores das dificuldades de se produzir uma história em quadrinhos, assumiriam papéis que iriam além daquele já desempenhado. Uma editora indie (cooperativa) que pusesse em prática o modelo de grandes editoras, de ‘linha de montagem’, mesmo.

Evidente que, como dito na entrada anterior, quadrinhistas independentes trabalham com quadrinhos em suas horas vagas, portanto não teríamos os mesmos prazos de uma editora grande. Uma publicação trimestral, quadrimestral ou semestral, que tivesse garantida sua continuidade (quanto menor o tempo entre uma edição e outra, maiores as chances de que a marca e/ou personagens se fixem na memória do leitor) seria uma inovação.

É esse o modelo que os ingleses de que falei na entrada anterior adotaram. Claro que fazer com que pessoas que se enxergam como artistes e profissionais consumados dos quadrinhos (mesmo não tendo publicado coisa alguma com uma editora qualquer) concordem em assumir papéis que julgam de menor importância, como fazer letras, revisão, diagramação etc., mesmo que sejam bons nisso é mais ou menos como convencer o grupo a ter o mesmo sonho ao mesmo tempo. Como naquela hq do Gaiman.

Ainda é um sonho.

São só idéias.

Se alguém decidir usá-las, ótimo. Se alguém quiser fazer diferente, excelente.

mais uma vez

sabe quando as pessoas vivem falando de coisas que teriam feito e que cê sabe de antemão que se trata da mais pura e simples balela, encheção de lingüiça e coisa e tal?

lembro de ter lido numa entrevista com um desses roteiristas britânicos que são praticamente unanimidades (é tu mermo, Neil!) que ele teria redefinido ‘a gramática’ das hqs apra contar as histórias que queria contar.

embora concorde que, sim, ele é um bom escritor que, sim, fez pelo menos duas hqs memoráveis (SIGNAL TO NOISE e MIRACLEMAN: THE GOLDEN AGE – não inteiro, mas os segmentos SPY CITY e NOTES FROM THE UNDERGROUND) tenho que discordar que tenha feito qualquer coisa de diferente com a linguagem dos quadrinhos. na minha concepção, linguagem dos quadrinhos ou arte seqüencial ou como quer que queira chamar, é a sinergia de elementos que vão além da palavra pura ou da ilustração pura com a finalidade de narrar algo visualmente.

linguagem dos quadrinhos inclui tudo, até o que não é visível (o espaço vazio entre painéis) ou audível/legível (o silêncio: repare em como as histórias do Neil são verborrágicas); onomatopéias, ângulos inusitados (veja Paul Pope pra encontrar exemplos disso), a porra toda.

antes de morrer pro mundo das hqs eu tinha o prazer de conversar por horas com um camarada desenhista que as pensava de modo muito parecido e chegamos a usar o termo ‘caligráfico’ pra descrever o estilo de alguns de nossos desenhistas-fetiche.

porque, e esse é o ponto em que queria chegar desde sempre, contar uma história visualmente utilizando a linguagem dos quadrinhos implica, e essa é só minha opinião, escrever usando esses elementos constituintes básicos como se fossem uma coisa só.

daí, talvez, eu pensar que os melhores narradores nesse meio, que usam essa linguagem, são os artistas completos, os que escrevem e desenham suas próprias histórias.

os autores.

evidente que algumas equipes alcançam resultados pra lá de satisfatórios (veja a entrada anterior pra ter um exemplo), mas pouca gente consegue chegar no nível de, sei lá, Alex Toth ou Hugo Pratt, Flávio Colin ou André Kitagawa.

e o nível foi elevado novamente por David Mazzucchelli e seu ASTERIOS POLYP.

terminei de ler o material hoje, ainda não digeri, mas é uma das hqs mais entusiasmantes no uso que faz da linguagem que já vi.

parafraseando as cinesséries e gibis ruins da gringa:

to be continued…

tentativa

Tnttv

Estranho olhar pras palavras desse jeito.

Hoje gastei umas horas do dia fazendo o tipo de exercício que pode significar tudo ou nada. Um ato poético, algo voltado à criação, ou pura futilidade, perda de tempo. O que foi de verdade? Ainda por decidir.

Mudo de idéia com muita facilidade.

O exercício consistia em ajustar um timer pra tocar num intervalo de tantos minutos e, num caderno (optei por fazer isso analogicamente), anotar, sob três colunas diferentes, ‘o que estava fazendo’, ‘o que estava pensando’, ‘o que queria fazer’ a cada vez que o alarme soasse.

Atenção ou espreita, depende do autor que você lê. É esse o exercício.

Apesar de perceber que nunca estava fazendo algo em que estava pensando ou que gostaria de estar fazendo, a atividade teve um efeito relaxante. Foi quase como meditar. Aquele lance de prestar atenção em si mesmo que normalmente não fazemos.

Neurofeedback xamânico.

Tivemos um almoço português uma vez na faculdade, num fim de semana, só as pessoas de nossa turma. Na época eu devorava os livros de Castañeda e, enquanto comia bacalhau, alinhei ‘fazer’, ‘pensar’ e ‘querer’ na mastigação, saboreando o alimento, tão concentrado naquilo que os colegas me pediam pra passar o vinho e eu não ouvia (em 95, pré-perda de audição). Gozado como tinha esquecido disso.

Comer pensando em comer e querendo comer.

Essa é uma das coisas que mais me estressam, a atenção esparramada em diversas preocupações e tarefas a realizar enquanto só sou capaz de umas poucas e, quase sempre, nunca de uma vez só. Ao menos se quiser fazer bem feito.

A atenção do indivíduo que produz qualquer tipo de material, seja arte ou entretenimento, tende a ser desfocada num modo multitarefeiro que não deve ser saudável, salvo àquelas raras exceções superdotadas.

Comecei a escrever isto aqui sem um foco, talvez com a intenção de dar continuidade aos pensamentos pouco pensados da última entrada ou só contar a experiência, sei lá, e terminei encontrando um fiozinho que une as duas coisas.

O artista ou escritor que se dedica a fazer ficção, autobiografia, prosa pura, HQs, poesia, ensaio, pintura etc., precisa ter uma profissão, um emprego ou trabalhar como freelancer pra sustentar a atividade de que gosta de verdade.

E a dita cuja, geralmente, é rotulada como hobby… outro fator de estresse, outra bifurcação de atenção… talvez a pessoa não se dedique tanto a alcançar um resultado superior porque, porra, é só um hobby.

Mas entretenimento ou arte é (são) campo(s) de atuação supersaturado(s)… porque, cacete, todo mundo escreve ou todo mundo se acha talentoso pra uma ou outra coisa, seja jogar futebol ou cantar.

O chato e frustrante é que ainda não temos, como num dos futuros próximos do Gibson, subculturas suficientes pra toda essa produção ser mais diversificada. Sim, temos nichos de consumo pra produtos diferentes, mais caros, com melhor acabamento, ou mais baratos, que seja, mas isso é o bastante pra absorver tantos super-heróis?

Qual a cara da HQB? A pergunta pode até não parecer válida, temos autores em vários gêneros e subgêneros diferentes, mas o grosso continua insistindo em escrever supas, desenhar supas, ou fazer histórias de aventura com personagens recorrentes obedecendo basicamente aos mesmos estereótipos dos supas. supas disfarçados de qualquer outra coisa.

vidas – página 01

VIDAS

A.Moraes & Leonardo Frey

Página 1;

Painel 1;

VIDA 1: Meco, nosso protagonista, com esta antologia numa das mãos, aberta na primeira página, ganha um beijo da namorada, Thaís, na bochecha.

THAÍS: Smack! Que cê vai querer comer, amor?

MECO: Hm… essa é difícil. Que tal você, tesãozinho?

Painel 2;

VIDA 2: Melado, um dos caras na roda por onde Marcos, nosso protagonista, passa,  posiciona o pé de modo que ele tropece. O lance talvez fique bacana em dois tempos, com o detalhe do pé no caminho num insert logo no começo do painel e a cena com a queda e os manés tirando sarro ocupando o resto.

MELADO: Olha por onde anda, Garoto Virtual!

MARCOS: Que mér—

Painel 3;

VIDA 3: num apartamento como outro qualquer, Canhoto, nosso protagonista, olha pro maço de cartas (correspondência, dig?) aberto como um leque (ou baralho) em suas mãos (podemos mostrar isso do pdv de quem olha por sobre o ombro dele, que cê acha?). Um insert pro close de um dos envelopes em que se vê, abaixo do logo (um conjunto vazio de matemática), a sigla N.A.D.A. – SETOR DE RECRUTAMENTO.

REC.: Meu desejo mais profundo? Fazer parte da solução, sim senhor.

Painel 4;

VIDA 4: nas ruas de uma metrópole caótica, distópica, nosso protagonista, Couto (grande, forte, cabeça raspada) elimina uma horda de monstros (vampiros, zumbis, lobisomens, alienígenas, trolls… o diabo a quatro) usando somente um par de automáticas.RECORDATÓRIO: O apelo disso aqui pra mim? Vou ser direto: me ajuda a esquecer dos problemas de verdade.

taí, molecada, meninas (hipotéticas… quantas visitam blogs que falam de quadrinhos?), a primeira página finalizada.

horizontes

nenhum ineditismo no horizonte.
 
hqs condenadas a repetir o paradigma da cultura pop estabelecido há 70 e poucos anos pela indústria de entretenimento estadunidense: super-heróis. divindades que caminham entre os homens.
 
no mundo real criaturas assim seriam odiadas por sua perfeição.
 
sua segurança não estaria ameaçada só pelos insanos ou, tremo ao digitar esta palavra, vilões, mas pelo cidadão comum, o sujeito da urbanidade, trabalhador que, com dificuldade crescente, ganha a vida de modo honesto.
 
a mesma hostilidade que é dirigida a figuras públicas, quer sejam políticos ou celebridades (quer mereçam ou não tal celebração), seria dedicada a essas personagens impossíveis.
 
isso sim seria um acréscimo à mitologia dos super-heróis. ainda não seria totalmente inédito, mas um pouco de ar fresco seria soprado nas estruturas narrativas pra lá de batidas que repetimos ad nauseam.