narrador no hospício

Uma possibilidade em que não havia pensado e não pensaria se não tentasse pensar como outra pessoa é que, talvez, ela não tenha lido a carta escrita nas páginas do livro.

Se o livro nunca chegou a suas mãos?

Se ela sequer soube dos sentimentos dele?

Tudo é possível – pensei em escrever “todas as possibilidades possíveis” mas melhor não.

Apesar de esse questionamento ter força e apelo como princípio de algo metalinguístico, não seria fácil encaixar numa narrativa ortodoxa… tergiversação demasiada, acho. Tudo que poderia ser interessante fica chato, antimidas, eu mesmo critiquei o excesso de reflexão numa narrativa, a falta de desenvolvimento numa situação em que o pensamento torna-se protagonista ou mais protagonista do que o protagonista.

Ele poderia ser o narrador e, se fosse essa minha opção, teria que concebê-lo como narrador não-confiável e só nisso já acrescentaria uma camada significativa na narrativa pretendida.

Talvez pudesse determinar o espaço ocupado pelo “herói” como um manicômio, um hospício, e ele ocuparia boa parte do tempo tentando lembrar como foi parar ali. A própria carta me inspira a pensar nesta direção. O “herói” tem uma autoimagem deformada pois escreve que sonhou com uma versão melhorada de si mesmo, “nos eixos”.

Daí essa noção: narrador no hospício.

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risco(s)

Faz uns anos (talvez só um par ou um par de três ou ainda mais) que comprei um livro do P4u1 4u$73r, aquisição típica, já que é um dos contemporâneos que acerta mais do que erra em escolhas e temas que casam com meu gosto, e, por tratar-se de livro usado, corri o risco de receber mais do que aquilo pelo que paguei.

Convém esclarecer: em meu primeiro ano de faculdade assisti a uma aula magna de jornalismo (apesar de não ser esse meu curso), instado pela professora de Análise do Discurso, em que o Marcos Faerman discorreu sobre diversos assuntos, inclusive sobre a importância da leitura, as idiossincrasias de comprar livros usados que vinham, inevitável, com marcadores de páginas esdrúxulos (fatia de salame, pente de bolso e assim por diante), a importância e influência de sua amizade com Geraldo Galvão Ferraz (que lhe apresentou, entre outras coisas, a prosa lovecraftiana) e mais uma ou duas ou Pi curiosidades.

O livro, então, é um daqueles personalizados, não por ter vindo com uma fatia de embutido ou um acessório de estética marcando suas páginas, mas por ter o que me pareceram riscos a princípio e que, depois, percebi, trata-se do começo de uma carta esboçado em páginas que seriam aleatórias se não fossem inícios de capítulos que, por isso, oferecem mais espaços nos quais escrever. Ele riscou, melhor, escreveu com caneta vermelha. Na minha imaginação trata-se de um “ele” separado de sua “ela” por condições além de seu controle.

Sempre que tento começar a leitura do livro me pego distraído, assombrado por algo que só existe em duas páginas e adquire mais importância do que qualquer ficção presente nas outras tantas escritas pelo tal autor.

É quase engraçado que os temas do dito escritor envolvam tanta metalinguagem. É signo da inteligência do homem que usou seu livro como papel de carta ter escolhido justo um livro deste sujeito pra servir a seu propósito.

O que enfia uma faca entre minhas costelas e a torce, devagar, na tentativa de atingir qualquer órgão vital que eu porventura tenha, é que a ”ela” d”ele” tenha se livrado do livro.

narrador 02

o atentado apanha o narrador desprevenido. apesar de todo tipo de loucura onírica que já lhe ocorrera durante os muitos R.E.M.s de sua vida pregressa, participar em primeira mão de uma armadilha para atrair vilões interessados no fim de seu protagonista (ou seria “de seus protagonistas”?) é mais que surpreendente para ele.

reutilizar a matéria de sonhos na urdidura de novas narrativas é habitual mas encontrar um sonho que seja evolução lógica de outro anterior é novidade.

o falso barman revelou-se ao(s) seu(s) objetivo(s) em algum momento perdido para a pretensão literária do Narrador, indicando a ele(s) que, em caso de necessitarem de ajuda especializada em vigilância-segurança-demolição, não se fizesse(m) de rogado(s) e o contatasse(m). Foi o o que seu(s) protagonista(s) fez (ou fizeram?) pois a agência que enviou o ex-barman não era a única interessada em suas atividades sombrias. o Narrador se aborrece com o fato de sentir-se incapaz de definir o número de protagonistas (no sonho tudo parece sempre tão perfeito mas na hora de transpor a barreira que o encadeamento verbal representa a característica mutável que a paisagem in/subconsciente se perde e solidifica em apenas um punhado de interpretações possíveis).

assim, o(s) protagonista(s) contat(ou/ram) o barman falsificado e pergunt(ou/aram) se a oferta ainda estava em pé.

como era de se esperar em histórias originadas em sonhos, há um salto que obedece apenas à lógica interna a eles e nada mais. o(s) protagonista(s) – e agora o Narrador tem quase certeza (sendo “quase” a palavra operante da frase) de que se trata somente de um indivíduo – está sendo vigiado de perto no caso de ser verdadeira a ameaça a sua vida.

usa todo tipo de aparato portável que permita ao ex-barman e sua agência acompanhar-lhe os passos e sente-se mais pesado por isso. está bastante visível no ponto de ônibus e assim que entra no coletivo e se acomoda da melhor forma possível em pé no corredor, o ataque é iniciado.

quem quer que ameace sua vida não tem qualquer consideração com as outras presentes no transporte e usa uma metraplhadora de grosso calibre montada na carroceria de uma picape 4×4 para retalhar metal, plástico, carne, sangue, estilhaçar vidro e osso. o protagonista, guiado pelo mais básico instinto de sobrevivência e a voz do ex-barman no comunicador em sua orelha, despenca para o chão arrastando consigo dois outros passageir(o/a)s próxim(o/a)s e gritando para os demais, sob fogo cerrado, que sentados não estão seguros.

(o Narrador pensa em fazer humor num momento assim, como se escrever que se trata de nova técnica para conseguir lugar sentado no coletivo fosse fazer alguém sequer esboçar o mais anêmico sorriso).

o motorista e o motor são atingidos e param de funcionar simultaneamente, a inércia ainda dura vinte metros, o ônibus para numa tangente com a calçada, como se o profissional do volante falhasse sem sua última tentativa de estacionar para o desembarque de passageiros.

o protagonista continua com as mãos cobrindo os ouvidos e grita por ajuda que não vem.

o Narrador, afinal, encontra uma barreira que ainda não pode superar: o despertar. o vazio informacional que se desenha diante de seus olhos tão tristes enquanto os abre e é inundado de estímulos externos.

seus ouvidos estão doloridos por causa do som de tiros.

 

narrador 01

o Narrador acha que recebeu elementos suficientes através de sonhos pra cozinhar uma narrativa.

sem razão aparente, apesar da abstinência e sua ausência completa de ambientes assim há anos, um dos cenários ou o cenário paradigmático que se impôs na narrativa onírica é um bar tal e qual tantos de tantas outras histórias de outrem ou de suas próprias lavra e vivência.

a personagem que mais lhe intriga é o barman, um novato que substitui o original de fábrica enquanto este passa merecidas férias em uma daquelas colônias de concreto armado bancadas pelo estado cujas características mais marcantes são os horários rígidos das refeições, as poucas horas de lazer (exercícios no pátio, curra no chuveiro etc) e a fauna colorida (do mais simpático malandro ao mais selvagem matador e vice-versa).

o novato – e o Narrador pensa que dizer isso é chover no molhado – era alguém plantado no bar especificamente pra avaliar o nível de ameaça representado por um (ou dois) habituès. depois de um par de semanas e no exercício de suas funções de barman e insider, o dito percebe que gosta do(s) sujeito(s) e até o(s) considera amigo(s).

talvez (o Narrador gosta de fazer interferências por vezes inoportunas enquanto a história cresce organicamente – isso mesmo, sozinha) este seja o momento de temperar a trama onírica com algo que se origina da caminhada mais do que banal que empreende na sexta, ao fato de gostar de cães e ter dado atenção a um particularmente solitário em momento de grande necessidade.

estranha e inexplicavelmente, memórias do Narrador com outros canídeos vazam em seu olho mental no momento em que tenta costurar algo que faça algum sentido.

mas agora o Narrador tem sono.

argumentos

uma das coisas que podem atormentar a consciência de alguém é exigir demais de outrem e pouco de si mesmo. quando se elabora um texto, por exemplo, que funcione como artigo de opinião, fazem-se necessários três movimentos básicos: uma introdução (na qual devem ser apresentados tanto tema quanto posição do enunciador sobre o mesmo); desenvolvimento (no qual devem ser articulados argumentos e exemplos, positivos e negativos, que sustentem e comprovem a posição adotada pelo enunciador no momento anterior) e conclusão (na qual, óbvio, o enunciador retoma a posição apresentada em primeiro lugar e, através de uma rápida revisão dos argumentos favoráveis e contrários, comprova-a, de preferência, irrefutavelmente).

não tão difícil, certo?

difícil, dificílimo é encontrar um assunto atraente o bastante com o qual se atracar por alguns parágrafos ou, com sorte, páginas, algo que renda mais do que 1000 palavras e, ao fim e ao cabo, faça sentido para o leitor.

apelar para a 1ª pessoa e tornar o artigo de opinião algo como um mash-up de ensaio e crônica simplesmente não é tão satisfatório quanto outrora. opinião, por mais paradoxal que isso soe, deve ser expressa impessoalmente.

se um texto começasse dizendo “eu li * &%@ d@ 73RRU@3M” já estaria errado de princípio, antes mesmo que qualquer coisa fosse dita sobre a história. o ideal seria algo como “ao ler * &%@ d@ 73RRU@3M o leitor médio…” viu só? impessoal, certo?

se chegasse a ponto de falar realmente da história poderia-se dizer que

“a mesma não impressiona muito e a arte é apenas funcional. tal desinteresse pode ser atribuído à idade avançada e ranzinzice decorrente dela ou ao fato de estar sendo um pouco mais exigente com o material consumido.”

“é compreensível que alguém pense numa semelhança com um desenhista genérico de grande editora norte-americana mas a arte é mais parecida mesmo com a de um outro artista, tantinho mais indie mas igualmente genérico como o 1º,  por causa do uso que faz das cores (algo mais para elétrico, azuis e amarelos). o sr. ******* não foge do uso da hachura, mas até aí, tudo bem. a história é outra fantasia de poder, só que, dessa vez, o protagonista tem sua sanidade posta em questão não por si mesmo, mas por todo o resto do elenco (menos a adorável @@@@@ – provável que baseada em alguma garota conhecida do desenhista). aliás, eis outro aspecto perturbador da história: o fato do sujeito só se relacionar, basicamente, com pessoas que conhece desde criança.”

enfim, uma argumentação módica sem qualquer comprometimento e, ao reler a bendita coisa, tampouco conclusão.

ensaio deve ser algo parecido com isso aí em cima, exceto que a similaridade seria maior com uma colcha de retalhos do que com um texto propriamente dito.

escrever

bom. decidi ventilar um pouco, quem sabe, racionalizar um problema que aparenta ser sem solução.

tento resistir mas não consigo deixar de escrever por muito tempo. a ausência dessa ação específica me faz fisicamente mal. tudo bem. o problema, de verdade, não é deixar de escrever, mas deixar de escrever na linguagem que mais aprecio ou, talvez, na que me sinto mais confortável. roteiros de histórias em quadrinhos sempre foram o formato almejado desde que me sonhei escritor.

problema de escrever roteiros de histórias em quadrinhos, no meu caso, é que não desenho e, por não desenhar, sempre vou ter só parte do produto que pretendi confeccionar, uma combinação ou contração de elementos icônicos e verbais.

talvez eu tenha deixado de lado toda minha pretensão de escrever “colunas”, imitando um ou outro fulano que ganha a vida com isso, porque não penso ter qualquer coisa a dizer que valha à pena ser dita.

mesmo.

água

típico isso me acontecer num feriado.

desde os primeiros minutos do dia a coriza atacou de tal maneira que mal conseguia desempenhar as rotinas mais banais e, por que não dizer?, rotineiras do dia sem borrifar tudo com saliva e muco.

não muito romântico, tampouco algo esteticamente apreciável, mas melhor do que falar da “outra coisa”.

apesar de as temperaturas (porque num dia nunca temos só uma estação, né mesmo?) estarem tantinho mais amenas, a secura do ar hoje tava matadora.

nem vou entrar no mérito da questão da estiagem mas aquilo que chamamos de “humanidade” precisa de uma mudança de paradigma urgentemente. apesar de toda propaganda alertando sobre os abusos do consumo de água, não passo um dia sem ver algum filho da puta lavando uma merda qualquer com um daqueles Waps malditos.

a tecnologia nos impede de usar os músculos que acionavam a vassoura acompanhada por um balde dágua e sabão, detergente ou o produto de limpeza de sua escolha mas, mais importante, o músculo que nos deu a opção de escolha. que permitiu que tivéssemos todas essas ferramentas de conforto dos dias modernos, a tal “ferramenta evolutiva” sem a qual não seríamos considerados “racionais” (aspas porque… precisa explicar?).

quanta merda!