Arquivo do mês: abril 2010

Nihil

A revista Nihil é resultado da 2ª Oficina de Quadrinhos de Araguari / MG, que foi ministrada entre os meses de maio e dezembro de 2009 pelos quadrinhistas Beto Martins e Rosemário Souza (co-editor junto com Matheus Moura da CdiR), com incentivo da Fundação Araguarina de Educação e Cultura e subvencionada pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura. Foi o sr. Souza quem fez a gentileza de enviar uma cópia do material e fiquei surpreso com os resultados.
 
Eram 30 participantes com idades entre 10 e 20 anos. Pessoal novo, alguns muito novos. Tem todo tipo de história na revista, mas alguns gêneros predominam, principalmente ação e aventura, uma iconografiazinha de terror e as mangazices que se pode esperar da molecadinha mais nova. Só pra deixar claro: isso não é uma crítica. Apesar da pouca idade, eles estão fazendo dentro daquilo que gostam e podem.
 
Algumas histórias valem à pena e não dá pra sentir a diferença entre quadrinhistas iniciantes ou o pessoal veterano das hqbs indies.
 
BARBATANA E BORBOLHA EM: PERDIDOS EM ALTO MAR, de João Roberto, é uma gag visual simples e efetiva que empresta alguns recursos de grandes quadrinhistas que não são grandes desenhistas ou não têm tempo pra desenhar a mesma cena de vários ângulos diferentes. O cenário, no entanto, muda e as ‘expressões faciais’ das personagens também;
 
O PADRINHO, de Bárbara Figueiredo, tem arte mais pormenorizada e usa o recurso da referência visual a seu favor, homenageando o cinema como bônus; 
 
LE CHAT, de Renata Rinaldi, prende a princípio pela ilustração eficiente e depois pelo enigma (mas o que esperar de gatos, certo?);
 
VEZES MENOS MAIS, de Talita, tem mais de uma curiosidade, e, diferente das outras hqs destacadas aqui, todas onepagers, tem duas páginas. A quadrinhista usa vários recursos de metalinguagem num espaço exíguo, dois estilos diferentes de desenho pra diferenciar o mundo ‘real’ do ‘das hqs’ e trata de um tema que interessa o pessoal na faixa etária que, acho, ela está incluída. Com umas páginas a mais a hq deixaria de ser boa e se tornaria excelente.
 
Fica a torcida pra que todos os participantes dêem continuidade ao aprendizado iniciado na oficina e desenvolvam seu talento. Aprendizado não se restringe às disciplinas usadas na confecção de uma hq, mas a tudo que se sabe ou pode-se saber a respeito de todo o resto. Aprendizado não se esgota.
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srm

A verdade, por Frater A.

Nossa Ordem prevê que mintamos deslavadamente, uma de nossas tradições, o único dogma, que precisa ser praticado mesmo quando dizemos a verdade, como é o caso agora.
 
Percebi que precisava postar um pequeno sermão a esse respeito no último sábado, mas a preguiça avassaladora e a síndrome de Bartleby me impediram de fazê-lo. Talvez ainda não esteja fazendo coisa alguma e essas palavras agrupadas aqui de qualquer jeito pouco signifiquem, talvez sejam somente som (se lidas em voz alta, evidentemente) sem qualquer fúria.
 
Mentimos. Tenho quase certeza de que mentimos. Não mentimos tanto assim. Não mentimos de jeito nenhum. Esse tipo de mentira, entende?
 
O objetivo do sacramento da mentira é um e só um: alcançar a santidade. E como isso se dá? Preservando o próximo de uma verdade avassaladora. Ganhando alguma vantagem (um favor sexual, uma promoção, um bombom) usando a mentira como ferramenta.
 
O mais importante, no entanto, é que a mentira mantenha quem a ouve ou lê entretido por tempo suficiente enquanto a verdade se desenrola em seu organismo, em seu meio, na sociedade.

prd

tempo perdido.

a sensação é essa. dedicar tempo e intelecto a uma atividade tão aprisionante quanto o entretenimento, à discussão do entretenimento e sua dissecação.

coisas em que pensei esta semana com a ajuda de estranhos (sim, mais estranhos que moi) e desconhecidos: a linguagem, essa ferramenta ‘evolutiva’ valorizada por tantas pessoas pode, também, ser usada como grilhão.

quantas vezes penso milhares de vezes antes de dizer ou escrever algo a alguém, presa do temor de parecer politicamente incorreto?

pra ser sincero, poucas.

mas as pessoas se ofendem de qualquer jeito, mesmo que nada seja dito, porque o silêncio pode ser tremendamente ofensivo, dependendo do tamanho do ego do outro (não que eu seja desprovido de um desses).

de vez em quando fica difícil calar a voz que faz a narrativa em off do que é minha vida. calar minha própria voz. entrar no fluxo da consciência coletiva, ficar em minha baia, encarando qualquer tela que seja, evitando os outros.

rslç

hoje o último vestígio duma vida passada sofreu seu colapso derradeiro. a cadeira comprada com a 1ª sra. Moraes. mais de uma década. resistiu ao meu peso crescente e decrescente, a verões e invernos e verões e verões… caralho, pobre cadeira. sua morte será lamentada por todos nós.

me fez lembrar dum troço meio zen que Bill Murray (uma das melhores coisas em Zombieland) diz num Jamursch que vi aos pedaços pra seu suposto filho.

algo como ‘o passado é passado, o futuro ainda não chegou… resta viver no presente’.

remoer o passado e esperar pelo futuro são mesmo duas atividades improdutivas.

vou tentar viver pela primeira vez no presente.

O’Neil – that’s the Question – 5º round

A DC deu a THE QUESTION seu próprio título em 1987, que foi escrito por Dennis O’Neil e desenhado por Denys Cowan. A série foi publicada por trinta e seis edições, duas anuais, e cinco especiais trimestrais. Em THE QUESTION # 1, o personagem-título do gibi, Vic Sage, era um combatente do crime mascarado com base em Hub City, que entrou em conflito com Lady Shiva. Após derrotá-lo, Shiva entregou-o aos capangas contratados pelo vilão, e ele foi deixado à beira da morte depois de ser brutalmente espancado, levar um tiro na cabeça com um revólver de chumbinho e ser jogado no rio para se afogar.
Foi resgatado por Shiva que enviou-o a Richard Dragon (cujo título fora cancelado) para que o treinasse. A teimosia de Sage tornava-o quase impossível de treinar para a maioria das pessoas. No entanto, quando conheceu Dragon encontrou-se relutante em desafiar seu novo sensei, porque este apareceu-lhe numa cadeira de rodas. Richard ensinou ao Question tanto as artes marciais quanto a filosofia oriental, obrigando-o a questionar sua visão de mundo e deixar de lado muito de sua ira. Destaque-se a citação vaga ao sonho da borboleta de Zhuangzi. Mais tarde, Richard iria começar referindo-se ao seu aluno como “Butterfly” por causa disto. Richard disse que Shiva tinha poupado Sage porque viu nele uma paixão para o combate em si, enquanto Richard, por outro lado, pensava que a paixão de Sage era a curiosidade. Não obstante, Richard percebeu que para Sage ter um despertar espiritual ele teria que primeiro deixar de lado o comportamento auto-destrutivo que Hub City despertava em si. Assim, Richard mandou Sage de volta para casa. Quando saiu, Sage encontrou Shiva novamente e os dois brigaram brevemente. Ela explicou que esta luta foi para ela testar sua própria percepção. Shiva pensou que tinha visto uma paixão de “guerreiro” nele, mas que lhe faltavam habilidades e sentiu que tinha provado estar correta, já que Vic a enfrentou uma segunda vez, sabendo que ela o tinha destruído no primeiro combate. Shiva concluiu que ela estava certa sobre ele e Richard errado, mas Sage propôs que talvez ele estivesse curioso sobre o que aconteceria se lutassem novamente, o que provaria que Richard estava certo. Sage adotou a identidade do Question mais uma vez, inutilmente tentando salvar sua cidade.

Exercícios fenomenológicos:

             

Camiño di Rato # 3
por José Renato Salatiel 

Três novos números de publicações independentes trazem algumas histórias dignas de registro pela (aparente) simplicidade, eficiência técnica e linguagem autoral.

É justo começar pela Caminho di Rato # 3, uma vez que resenhamos o número anterior.  Os editores continuam acertando a mão em reunir trabalhos de novatos e veteranos. O resultado é um produto com diversidade que, aos poucos, confere identidade à revista.

“Shii”, de Julio Shimamoto e Matheus Moura tem um efeito interessante produzido pela combinação do uso de onomatopéias, sombras e enquadramento. A história é sobre um desconhecido que desafia o mestre numa aula de esgrima. No caso desta HQ, o mestre é Shimamoto.

O equilíbrio na parceria garante o ritmo de “O Dia de Pedir Demissão”. A arte caricatural de Bira Dantas se harmoniza de modo despudorado com a história debochada (e crítica) de Gonçalo Júnior sobre as mazelas do funcionalismo público.

Do caubói raivoso encarando o leitor na primeira cena até sua redução a quase um traço, na cena final, “Porrada!”, de Alberto Pessoa, pode ser mais do que aquilo que mostra. A história brinca com o reducionismo do gênero western à violência. Na arte gráfica, o autor opera o mesmo processo atomístico para construir a narrativa. Remete, assim, a artistas de vanguarda do começo do século 20, como Picasso e Gauguin, que colapsaram o código pictográfico reduzindo a pintura a seus elementos básicos (cores e formas) ou à visão de povos não-europeus.

Superfícies

Garagem Hermética #5 é outro trabalho profissional do selo Quarto Mundo. Entre as HQs dessa edição, um trabalho que promete pela criatividade é o de Edu Mendes, autor de “Robô Poeta”. Com plena consciência da linguagem, ele transforma as primeiras páginas da história do robô poeta em engrenagens que guiam a leitura. A última página vira uma noticia de jornal. A conferir futuros trabalhos.

         

Por fim, Quadrinhópole #8 apresenta um nível mais homogêneo nos autores que colaboram com a edição, com histórias sobre realidades possíveis (“Bifurcador de Realidades”), confusão de perspectivas (“Miniaturização”) e a dicotomia entre razão e sentimento (“Humana Perfeita” e “Oxitocinax”).

O ponto alto, contudo, é “Paradoxo Temporal”, de Leonardo Mello (roteiro) e Antonio Eder (arte). Os autores dividem a revista ao meio e a trama se desenvolve em duas partes quase iguais, com pequenas mudanças de pontos de vistas, para traduzir o paradoxo temporal de Einstein. Simples... mas só nas aparências.

Café no trânsito

           

Ontem, por circunstâncias que ultrapassam qualquer explicação, quase não fui ao dropmail (crédito pro cel, crédito pro coletivo, ração), mas, inexplicavelmente – também – mudei de idéia e terminei passando lá e, oh, devotos de Baphomet!, minha cópia do # mais recente de Café Espacial já tinha chegado. Assim como Frater Frey… aliás, foi por causa dele que resolvi passar no dropmail, e, claro, Frater Frey é inexplicável.
 
Frater R. sentava-se garboso e sorridente à mesa celebratória, ostentando sua túnica negra, imaginando que como esta semana celebraríamos Baphomet, alguém lhe daria o beijo da vergonha e acenderia seu kundalini (!). Pra nossa felicidade nunca fomos adeptos desse tipo de ocultismo, o que frustrou Frater R. sobremaneira.
 
Fiz circular pela mesa a Café. Frater Frey vocalizou o pensamento geral, falando do cuidado gráfico cada vez mais acurado e elogiando a mudança de papel (não tínhamos certeza, mas nos pareceu reciclado). Depois das beberagens e dos xingamentos regulamentares à mesa, nos separamos de boa vontade. Frater R. ainda insistia em seus avanços ambíguos, mas um gancho nos rins e um uppercut no queixo ajudaram-no a readquirir um mínimo de autocontrole.
 
Hoje, parcialmente recuperado dos traumas infligidos durante o culto por nosso irmão invertido, pude refestelar-me no conteúdo da Café.
 
O serviço:
 
Capa de Guilherme Caldas (Candyland), com # de ISSN, sem a descrição do conteúdo (alguém me ouviu?) e com a pergunta ‘açúcar ou adoçante?’;
 
Frontispício com foto de Laura Gattaz;
 
‘Com ácido de bateria nos dentes’, de DW. Ok, sou suspeito, já que sempre elogio o trampo desse cara. Mas é boa a historinha. O que me incomodou foi a verbosidade, principalmente nas págs. 8 (um painel com um balão dentro, praticamente) e 9. A moral? O que vai, volta; o que sobe, desce;
 
Na seção ‘literando’, Lídia Basoli resenha ‘Sinuca embaixo d’água’ de Carol Bensimon e ‘Os espiões’, de L. F. Veríssimo;
 
A hq ‘Abrecartas’, de Sofía Berge e Berliac é um dos pontos mais altos da C.E. até agora. Recursos mais simples e eficazes podem ser usados pra criar uma elipse na narrativa visual e, ao invés de dizer ou mostrar tudo ao leitor, sugerir. Sugerir é sempre melhor, dá algo pro sujeito fazer. E Theda Bara, porra! Quem não quer uma hq com a Theda Bara num painel?
 
‘Cafeína pura’ tem entrevista com a banda VitrolaVil, que desisti de ler porque a ilu usada na diagramação tava comendo palavras. Um dos pontos negativos da edição;
 
‘A última noite de um violinista’ de Eder S.(aragiotto?) Rodrigues e Allan Ledo (meu herói!). Romantismo romântico de 1ª, mantendo, claro, aquele tom enigmático que caracteriza a parceria dos caras;
 
‘Arte revelada: partes de um todo’, por Laura Gattaz. Essa é, fácil-fácil, uma das minhas seções preferidas da Café. Exceto pelos gatos (é tão difícil fotografá-los e tem uma foto ótima na 1ª página do ensaio), o material me fez voltar a Valêncio Xavier e suas narrativas visuais, principalmente uma ou outra de detalhes, uma parede, uma escadaria, uma folha morta (esse cenário é Vera Cruz?); 
 
‘Candyland – estabilidade’, de Olavo Rocha e Caldas (o da capa, lembra?) é outro acerto. Mantendo as características do webcomic (humor negroooooo – é politicamente incorreto? – , crítica social e simplicidade);
 
Aqui. ‘No coração do cinema, a sala de projeção’ é o melhor texto de Lídia Basoli de não-ficção que li até agora.  A temática é a mesma, o cinema, mas dessa vez ela vai numa curiosidade que mais leitores têm, entrevista projecionistas da velha guarda, traça um paralelo com ‘Cinema Paradiso’ (inevitável) e, apesar de ser um texto que deixa claro o afeto da autora tanto a mídia quanto a sua cidade, não ficou forçado;
 
‘Cosmogonia’, de Cadu Simões e Jozz, brinca com a metalinguagem de modo eficaz e, porque não, engraçado;
 
A featurette da ‘Nanquim descartável’ (agora é uma seção fixa?) é gozada e bem executada. Tem só uma falha, e isso é pentelhação minha: além do nome das personagens aparecerem no título, nenhuma delas os diz enquanto conversam. Apesar de ter lido 2 #s da revista, não consegui lembrar quem é Ju e quem é Sandra. Aliás, a loira uma hora dessas não vai cair na real e perceber que não é de abusos que amizades são feitas? Até quando o ego enorme dela vai impedi-la de ver que nada é garantido? Pelo premiado Daniel Esteves com arte de Wanderson de Souza e Mário Cau;
 
‘Mais uma dose’ com texto crítico de Talita Prado sobre a programação televisiva.
 
Outra coisa chata são errinhos de ortografia  e um homônimo homófono que um revisor pegaria passando batidos.
 
A melhor edição até agora, mas ainda tem por onde melhorar.