Arquivo do mês: novembro 2014

risco(s)

Faz uns anos (talvez só um par ou um par de três ou ainda mais) que comprei um livro do P4u1 4u$73r, aquisição típica, já que é um dos contemporâneos que acerta mais do que erra em escolhas e temas que casam com meu gosto, e, por tratar-se de livro usado, corri o risco de receber mais do que aquilo pelo que paguei.

Convém esclarecer: em meu primeiro ano de faculdade assisti a uma aula magna de jornalismo (apesar de não ser esse meu curso), instado pela professora de Análise do Discurso, em que o Marcos Faerman discorreu sobre diversos assuntos, inclusive sobre a importância da leitura, as idiossincrasias de comprar livros usados que vinham, inevitável, com marcadores de páginas esdrúxulos (fatia de salame, pente de bolso e assim por diante), a importância e influência de sua amizade com Geraldo Galvão Ferraz (que lhe apresentou, entre outras coisas, a prosa lovecraftiana) e mais uma ou duas ou Pi curiosidades.

O livro, então, é um daqueles personalizados, não por ter vindo com uma fatia de embutido ou um acessório de estética marcando suas páginas, mas por ter o que me pareceram riscos a princípio e que, depois, percebi, trata-se do começo de uma carta esboçado em páginas que seriam aleatórias se não fossem inícios de capítulos que, por isso, oferecem mais espaços nos quais escrever. Ele riscou, melhor, escreveu com caneta vermelha. Na minha imaginação trata-se de um “ele” separado de sua “ela” por condições além de seu controle.

Sempre que tento começar a leitura do livro me pego distraído, assombrado por algo que só existe em duas páginas e adquire mais importância do que qualquer ficção presente nas outras tantas escritas pelo tal autor.

É quase engraçado que os temas do dito escritor envolvam tanta metalinguagem. É signo da inteligência do homem que usou seu livro como papel de carta ter escolhido justo um livro deste sujeito pra servir a seu propósito.

O que enfia uma faca entre minhas costelas e a torce, devagar, na tentativa de atingir qualquer órgão vital que eu porventura tenha, é que a ”ela” d”ele” tenha se livrado do livro.

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