Arquivo do mês: outubro 2010

rêve

confesso: é estranho.

nada que eu possa fazer a respeito, no entanto.

tenho este sonho. chame de delírio, se quiser, pouco importa. o que mais me intriga em relação a essa fantasia particular é que se trata de algo que, com alguma organização e disciplina, poderia ser realizado sem grande dificuldade.

mas

ninguém o faz. sei lá por qual razão. talvez seja falta de know-how. talvez não haja pessoa atenta o bastante pra ver e aprender com os materiais estrangeiros que, mais baratos de licenciar e imprimir, circulam em nosso ‘mercado’ (brrr! arrepios sequenciais com essa palavrinha).

pra mim deixou de ser importante que as hqbs sejam só narrativamente superiores. importante também é que haja valores mais altos de produção, que as benditas histórias sejam, além de boas, belamente apresentadas.

pouco importa, neste preciso momento, se autor A é melhor ou pior que autor B. importa, sim, que haja uma revisão de texto decente, um bom diagramador que não foda com o material ao montar um texto com imagens, que o produto não seja mais uma porra de fanzine feito amadoristicamente.

seria bom, até, se o produto fosse ‘amador’ no sentido original da palavra, feita por quem ama a porra da linguagem ou o suporte em que ela é veiculada.

chega de procurar o Santo Graal de ‘que tipo de hq faria sucesso no Brasil?’

boas histórias sobram. falta quem faça um pacote atraente pro público leitor (cada vez mais exigente e/ou rarefeito) e o entregue regularmente.

sem regularidade de publicação… ah, de que adianta? é só um sonho, um delírio babaca.

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no último episódio…

…vimos nosso herói (!??) enfrentando um cansaço sobrenatural enquanto tentava manter as falanges em movimento sobre a keyboard.

estaria ele sendo vítima de vampiros psíquicos ou do peso da idade?

talvez descubramos um dia, na eventualidade de, também, descobrirmos de que ‘herói’ trata o 1º parágrafo desta entrada.

por outro lado, progresso em leituras paralelas:

-100 páginas de ‘as revelações picantes dos grandes chefes’, o que me deixa na reta final de mais um livro de Irvine Welsh. dá pra sacar pra onde a trama se encaminha (SPOILLER ALERT: eles são irmãos!) lá pra centésima página do livro… claro que Welsh tenta criar uns desvios no percurso pra manter o leitor entretido (entreter ele consegue), mas pra lógica interna deste universo de fantasia (com pacto faustino à la Dorian Grey), parece difícil que a resolução do mistério seja outra;

-outro tanto de páginas a dentro de ‘barba-azul’… não sei como Kurt consegue isso, mas quando dou por mim o livro tá acabando. elogio maior do que este não consigo imaginar: leitura sem esforço, desce redonda… apesar de todas as idas e vindas na cronologia biográfica de Sarkis, de longe meu pintor expressionista abstrato INVENTADO preferido.

estranhezas: li um punhado de gibis da série (cancelada) da Vertigo, THE CRUSADES, entre esta semana e a anterior. apesar de sacar os motivos pelos quais a dita cuja não teve apelo suficiente pra ser poupada, tem muita coisa ali pra se gostar e a arte de Kelley Jones nem é a mais importante. o núcleo grego e o radialista Anton Marx são só dois exemplos.

EM TEMPO: tá no ar o preâmbulo de VINGANÇA COM PALAVRAS, nova prosa iniciada hoje no Labirinto.

ausente

às vezes o trabalho do mundo secular demanda tanto que, quando afinal paro pra brincar com a keyboard por uns minutos, sou pouco mais que uma casca vazia com dedos.

depois da queda deixei de raspar o cabelo. há um par de semanas, de fazer a barba. claro que isso não melhora minha aparência. tampouco piora. tenho a mesma sorte dos homens de minha família. hediondez congênita. só fiquei mais peludo. exceto no topo da cabeça, onde os cabelos começaram a escassear.

continuo lendo as aventuras e desventuras de Karabekian, pintor do expressionismo abstrato americano inventado por Vonnegut e contemporâneo de Pollock e Rothko.

muita coisa com que me identificar. a narrativa apática, indiferente, de sua juventude. a decepção generalizada capaz de contundir (sim, não ‘confundir’) o leitor menos atento, a sátira swiftiana, o rancor subreptício, o desprezo pela ignorância (e, por favor, quem não sabe o que significa esta palavra, favor consultar um dicionário, já que hoje em dia a tendência é atribuir-lhe um novo significado).

tudo isso.

o problema, como sempre, sou eu, não os outros. os outros vivem suas vidas e pouco se importam como afetam os vizinhos. ou SE afetam.

importar-se, acho, é um erro recorrente… ou tema recorrente nessa narrativa sem coerência que chamo de vida.

Ohtake

sendo este um blog de nerd feito sob medida para nerds a possibilidade de haver confusão entre o nome Ohtake (como em Tomie ou Ruy, por exemplo) com o bem mais pop ‘otaku’ não me escapou.

é um primeiro parágrafo pra lá de justificado, n’est ce pas?

então, hoje, depois de dois anos de privar-me de visitar o Instituto supra, fui ver a exposição dos storyboards de Akira Kurosawa. inspiradora é uma palavra branda, anêmica, sem dentes pra descrever a qualidade não só da arte quanto da reflexão que acompanhava cada peça.

cenas de ‘sonhos’, ‘ran’ e ‘kagemusha’, só pra citar uns poucos, estavam lá, em cores (e isso é importante) vibrantes e designs inteligentíssimos (mais do que qualquer vã filosofia pode supor), pra encher meus olhos e minha imaginação e, talvez, com alguma sorte, aliarem-se a leituras recentes (‘a interpretação’ de Freud e a outa, de Artemidoro, mais um número recente de Mente & Cérebro) e fazerem surgir a mítica ideia pra algo novo, ainda não escrito.

não comentei, mas no último fds, enquanto folheava ‘a arte de ser desagradável’ no depósito de livros de uma amiga, encontrei sem procurar, olhando pra mim, cópias de ‘barba-azul’ e ‘galápagos’, do sempre inspirador Kurt Vonnegut. se você nunca experimentou o prazer da companhia desse senhor, a coleção LPM Pocket tem dois livros essenciais dele: ‘matadouro 5’ e ‘café-da-manhã dos campeões’ a preços pra lá de acessíveis.

de sábado pra hoje, entre trancos e barrancos, li metade de ‘barba-azul’, com um sorriso no rosto por reencontrar a simplicidade complexa do velho Vonnegut e sua observação aguda da ‘natureza humana’ (dois termos que, pra mim, postos juntos, formam um paradoxo hilariante).

target

houve um tempo em que alguns editores iluminados juntaram equipes criativas dignas de nota a fim de recriar/refazer um personagem ou franquia de quadrinhos pros tempos hipermodernos. claro, eram quadrinhos de uma das duas grandes e, também claro, essas casas publicadoras tinham recursos pra fazer melhor do que fazem.

a convergência que gerou a minissérie original THE HUMAN TARGET e depois de uma intervenção trágica da fatalidade a tornou única, reuniu Peter Milligan (de quem talvez os brasileiros lembrem mais por sua mini futurista SKREEMER) e Edvin Biukovic.

Cristopher Chane (or else) atende um cliente nas primeiras páginas da hq

o resultado ainda hoje é impressionante, mesmo depois de onze anos do lançamento. o high concept de HUMAN TARGET, como criado originalmente por Len Wein e Carmine de Infantino, é de que o protagonista das histórias é sempre contratado pra assumir a vida de uma pessoa que está sob ameaça e interpretá-la até que esta seja eliminada.

Cristopher Chance, o alvo humano original, convence sem muito esforço seu assistente, Tom Mcfadden, a assumir sua identidade enquanto recupera-se de um atentado. McFadden, por sua vez, é contratado pelo reverendo Earl James para substituí-lo, pois sua vida está em risco devido a suas seguidas interferências na atividade de traficantes locais em sua comunidade.

bem simples e fácil de entender. o que Milligan fez com este conceito foi mostrar o próximo passo lógico: os efeitos psicológicos que essa atividade teria no alvo humano.

o reverendo Earl James (or else) em uma de suas pregações inspiradas

a arte de Biukovic é um verdadeiro achado. simples, dinâmica e de uma eficiência total pra proposta da hq. a fatalidade a que já me referi é que, pouco depois de completar este trabalho, o desenhista faleceu em decorrência de um tumor cerebral.

read on

um dos materiais que veio parar em minhas mãos mais recentemente e que tenho lido de forma homeopática é o livrinho da coleção 50 PALAVRAS, A HISTÓRIA EM QUADRINHOS, de Didier Quella-Guyot.

apesar de alguns erros de tradução (scénario por ‘cenário’ – um falso cognato evidente se o tradutor tivesse prestado atenção ao contexto – quando seria ‘roteiro’) tem bastantes coisas a serem aprendidas e aproveitadas.

boa parte dos verbetes lidos até agora, por exemplo, são muito informativos da produção das BDs européias (não dava pra esperar menos, já que o autor é francófono). o sistema de estúdios, por exemplo, é (ou era) bastante difundido por lá, o que me impressionou um tanto, já que os autores europeus, apesar de produzirem com frequencia regular, o fazem num volume muito inferior aos japoneses ou americanos.

e falando em europeus, noutro dia chegou minha cópia de LA TOUR, 4º vol. da série CITÉS OBSCURES, de Benoit Peeters e François Schuiten. impressionante o trampo dos caras.

sabático

pelo menos desde janeiro deste ano não tenho mais escrito hqs. aliás, já faz um tempinho que não escrevo qualquer coisa ficcional. ensaiei escrever uma história do Oto que venho cozinhando há um ano mas acho que o nível de exigência com a linguagem e as técnicas que pretendia empregar demandariam mais tempo do que o de que disponho no momento.

então parei.

quer dizer, de escrever. imagino que seja algo temporário, claro, mas o único parceiro com quem ainda colaboro consistentemente anda mais ocupado do que o de costume, então não vejo razão pra escrever mais roteiros pra ficarem encalhados no hd. provável que invista mais em prosa, mesmo, no futuro próximo e tenho lido alguns materiais interessantes que, bem provável, informarão a produção subsequente.

nesse meio tempo tou tentando ajudar as pessoas que fazem com que revistas independentes aconteçam do jeito que posso. fiz revisão de duas revistas inteiras no último mês. a maioria das (duas) pessoas que lê o que posto aqui sabe que na vida real dou aulas de português e literatura, então me parece quase uma extensão do que já faço diariamente, com o plus de que nem preciso pensar pra fazê-lo. o produto final desses editores termina com menos problemas.