Arquivo do mês: dezembro 2010

alto

espero que este seja o último do ano, não tem razão pra ser diferente, então vou continuar relacionando coisas que vi, gostei e acho que funcionariam se alguém tivesse disposição de implementá-las.

outubro passado estive numa dessas feiras de quadrinhos de um jeito quase acidental e comprei os 3 #s finais de BRADO RETUMBANTE. não li imediatamente, só há duas ou três semanas, porque tava esperando receber os dois #s iniciais.

o pessoal que organizou a publicação trabalhou mais ou menos nos moldes que sugeri anteriormente só que dentro do gênero super-heróis e com resultados irregulares principalmente no quesito arte.

pois bem. uma antologia com histórias fechadas de personagens recorrentes.

não precisaria sequer ser toda de um só gênero.

a A3, por exemplo, cuja proposta é ser de aventura e ficção mas também inclui fantasia (certo, seria mais fácil dizer que todo o resto são subgêneros de fantasia escapista, mas fazer o quê?), é um passo na direção certa mas erra em não apresentar as tramas recorrentes como episódios fechados e sim como ‘capítulos’ (as aspas são pra ressaltar que, exceto por KAVAN, do E.C. Nickel, e O.R.L.A., do Matheus Moura e equipe de desenhistas as hqs maiores não parecem ter sido elaboradas em capítulos) em continuidade. o que reforça a ideia de que muito do que aparece nos dois #s iniciais é material de gaveta.

lendo o que Denny O’Neil escreve sobre como escrever hqs comerciais não deu pra evitar fixar na memória o motivo da utilização original da splash-page. muitos gibis da ‘era de prata’ (e além) eram antologias. ok, tudo bem, não necessariamente ‘antologias’, mas tinham lá uma hq back-up pra totalizar o número de páginas necessário. as splashes surgiram justamente pra determinar quando acabava a hq de um personagem e começava a de outro.

certo, uma splash numa antologia nacional é demais, mesmo fazendo uso dela como marcação em benefício do leitor. dá pra usar as semi-splashes, então, ou splash-panel, como Carl Barks fazia nas suas histórias dos patos.

e ele não foi o único.

lendo a coleção de BLAZING COMBAT que a Fantagraphics pôs nas livrarias, vi que Archie Goodwin usava a técnica. claro que as histórias são de guerra, mas são histórias fechadas, sem personagens recorrentes e trazendo guerras de vários períodos da história americana.

não deve ser tão difícil.

última: A Continuidade do Fogo começou a ser serializada no Labirinto.

personalidade dissociativa

tava assistindo a uma das muitas sitcoms que assombram cabos e satélites mundo afora. essa é bacana, tem situações e personagens interessantes, um elenco competente, texto esperto.

no episódio que vi, o casal gay do programa corre com a filha adotiva pro pediatra por conta de uma pancada leve na cabeça. o bebê é de origem asiática, estrangeiro mesmo, como um dos filhos da Angelina. a pediatra que os atende tem traços asiáticos evidentes e o casal diz a ela que está criando a criança de modo a que ela tenha noção de suas origens culturais, da tradição de seu povo.

em determinado momento eles fazem à pediatra uma daquelas perguntas típicas de sitcom com relação à tradição do povo, a que a médica responde ‘não sei, eu sou de Denver’.

de repente lembrei duma experiência similar, só que ligada aos quadrinhos.

conversava por email com um(a) editor(a) de gibi independente que tinha publicado recentemente uma hq escrita por mim. como sabia pelo sobrenome que a pessoa era nipobrasileira e estava envolvida com mangás, falei de minha vontade de escrever uma história com mechas (aqueles robôs gigantes que me acostumei a ver em trocentos seriados live action, em mangás e animês), até mandei um plot (piedosamente desaparecido do meu hd).

o(a) editor(a) teve reação similar a da pediatra.

foi gozado.

até hoje tento entender o lance todo.

ele(a) é brasileiro(a). somos bombardeados com a importância da tradição e cultura pros nipodescendentes todos os anos, em vários mcms. a pessoa em questão mexia profissionalmente com mangás. mesmo assim minha oferta de fazer uma hq usando elementos desse gênero o(a) ofendeu. sua resposta foi algo na linha ‘você acha que por ser nipodescendente uma história assim me interessaria?’

sei lá. pareceu grossura desnecessária na época. na verdade, ainda parece. talvez seja um problema de identidade cultural. ou múltipla personalidade ou personalidade cultural dissociativa. não dá pra ter certeza.

a sitcom é MODERN FAMILY. tem o Al Bundy no elenco, então, por quê não?

aproveitando que o sr. Johnston fez o favor de ressuscitar essa matéria. claro que é ultrajante. se não fosse eu não gostaria, certo?

Lunar

demorei um ano ou mais desde a aparição deste filme, mas ontem consegui assistir LUNAR, filme de Duncan Jones (também conhecido como o filho de David Bowie), estrelado por Sam Rockwell, um daqueles muitos atores ainda subestimados pela indústria mas talentosíssimo.

foda falar da história sem encher o texto de spoillers.

Sam Bell (Rockwell) é um mineiro que trabalha na Lua extraindo de suas rochas, seu solo, o elemento hélio-3 (que me fez lembrar do gelo-9, do Vonnegut) que surgiu como solução para o problema de energia por ser uma fonte limpa, não poluente. Há duas semanas do término de seu contrato, o isolamento vivido por Bell, não só por estar num ambiente hostil à vida mas também por ter perdido a comunicação ao vivo com a Terra, sua mulher e seus empregadores, parece estar lhe causando alucinações. É assistido por GERTY, robô com a voz de Kevin Spacey, que toca quase toda a operação, exceto pelo serviço humano, cuida do bem estar de Sam.

e este é um ponto crucial da história. a programação de GERTY é cuidar de Bell. sem isso, o filme não se desenvolveria como se desenvolve. quem imagina o robô como um daqueles humanóides e clichês popularizados pelo cinemão, séries de tevê e japoneses, se engana.

ele tem design mais utilitário, como o de um robô de linha de montagem, um daqueles braços, uma cpu, um sintetizador de voz. também não é uma inteligência artificial, pelo menos não como fomos acostumados a ver em fc. é uma máquina autoconsciente. parece ter um número limitado de respostas mas há circunstâncias em que os significados delas variam e têm-se a esperança de que ele seja, afinal, inteligente. talvez não seja inteligente, mas o cuidado com Sam demonstra ao menos que é bondoso.

o status quo estabelecido, a lógica interna da narrativa é abalada quando Bell sofre um acidente em decorrência das alucinações. as revelações se sucedem rapidamente, Rockwell segura muito bem o filme como praticamente o único ser humano na tela e a resolução dos enigmas aparentes se dá sem abusar da paciência do espectador… o filme tem a duração necessária, não enche linguiça.

dreamlog_siesta_15/12

a ex, a única, faz uma daquelas visitas oníricas inesperadas.

continua sexy, sexy, sexy.

chanel preto, pele clara, carne firme, compacta, contida em tailleur e saia de secretária competente. vê-la é ereção na certa.

conversamos. afundo no mundo de possibilidades. ela flerta, faz hora.

descubro da pior forma possível que ela espera o atual. apresenta o cara. algo errado com a mão direita do sujeito, que pende morta, desarticulada e frouxa de seu braço.

ela me diz que ele leu meu trabalho, que gosta do que escrevo, mas o fulano não confirma, pelo contrário, nega, sai andando e nos deixa sozinhos.

ela joga charme.

sei que vai pedir algo.

afinal, admite, nomei-a o favor da vez e eu a acompanho meio contrariado. ela escafede-se dentro da construção e, enquanto a espero, o prédio começa a desabar.

o andar em que estou desaparece sob meus pés (vou acordar?). fico pendurado precariamente só por dois dedos.

ela ressurge.

maior.

me engolfa.

fico seguro em seus braços.

me beija.

só então acordo.

prosa e a coisa mais parecida com poesia…

…que consigo por no papel.

é isso o que tenho feito nas últimas semanas e espero ter forças pra terminar pelo menos uma delas antes do fim do ano. quem sabe até sobra energia pra começar a serializá-la, como já ameacei, no Labirinto?

é uma história curta (pero no mucho) que tá com cerca de 3000 palavras no momento e, bem possível, vai ganhar um outro tanto antes que eu consiga terminar. personagens que já apareceram antes voltam, como é de costume, e um ponto que funcionou como subplot num conto anterior ganha destaque nesta aqui.

‘a coisa mais parecida com poesia’, por outro lado, já tem uma estrutura toda resolvida. criamos um frame device que nos manteve interessados até o momento, que deve funcionar como um sanduíche, e tamos mexendo no recheio antes de começar o trabalho pesado.

depois de BORBOLETA esta é a história com menos palavras que já escrevi. o show vai ser todo do desenhista. basicamente.

tamos chamando esta de LSD. é um apelido carinhoso, mas tem a ver com o título e, por quê não?, com a própria trama.

mais adiante, nova entrada no dreamlog. as coisas ficaram agitadas durante a siesta.

catching up

depois do Auster, calhou de ler no Estadão uma matéria sobre Reinaldo Moraes (sem parentesco), autor de PORNOPOPÉIA, e descobrir, entre risos mal-contidos e gargalhadas ostensivas, que o sujeito não só é fã de Charles Bukowski como foi tradutor de MULHERES, 3º romance do Velho Safado.

esse livro esteve aqui numa das pilhas por alguns anos, encontrei no sebo do Brizola quase em outra encarnação e guardei pra ler porque, de resto, era o único livro do Hank que faltava ser consumido por mim.

então, depois do Auster e do artigo, catei minha cópia com a capa meio detonada e as folhas amareladas e a tradução do Reinaldo e li. lembrei do que gostava no trabalho do cara. o jeito desapaixonado com que narra as aventuras esdrúxulas em que se mete.

clareza, concisão. Henry Chinaski, o alter-ego de Bukowski, é tão desapaixonado que parece um sociopata. apesar disso, tem um momento em que ele cede e mostra que, afinal, não é tão desumano.

como precisava ler alguma outra coisa pra limpar o palato depois desse mergulho, catei a biografia do Hank, do Howard Sounes e terminei de ler hoje pela manhã.

muitos paralelos entre a informação que Sounes coligiu e cinco (dos seis) romances autobiográficos que Bukowski escreveu. o homem, no entanto, era diferente da persona Chinaski. patético, bêbado e demasiado humano. levou uma vida de merda. teve uma família imediata de merda a qual conseguiu sobreviver.

no dia seguinte aquele em que resolvi ler MULHERES, descobri um livro de contos do sujeito na coleção LPM Pocket que ainda não tinha lido.

hoje, depois de debastar a biografia do Velho Safado, catei o pocket de INDIGNATION, de Philip Roth e não acreditei muito na blurb da capa: “Mesmerizing… Philip Roth’s intrepid novel of self-revelation demands to be read in one sitting. It’s that good. It’s that audacious. It’s that compelling.” (Seattle Times). sabe o que mais? não se deve mesmo por muita fé nesse tipo de hype.

esse livrinho é uma exceção. não consegui ler tudo numa sentada mas o bicho é viciante, não dá vontade de largar. se tivesse mais tempo livre e não precisasse de umas horinhas fundamentais de sono já teria terminado. 165 pages on num livro de 233 diz que gosto do material.

é diferente do Roth inicial de COMPLEXO DE PORTNOY embora o narrador pudesse ser contemporâneo do deste. é mais maduro.

a luta pra eliminar as pilhas de livros continua.

energia

ontem entre 22 e 23 horas a quadra, a rua, talvez o bairro ficou (aram?) sem luz.

usei o isqueiro pra encontrar uma vela. acendi.

a hora que se passou foi interessante. fazia muito calor. uma das noites mais abafadas em muito tempo e, exceto por um banho de água fria, nenhuma chance de refresco.

enquanto esperava e suava, observei que a escuridão não era tão densa fora do apartamento. olhei pela janela, primeiro pra rua, onde carros passavam iluminando o asfalto, depois pro céu.

o céu tava claro. tão claro quanto nas madrugadas rotineiras em que me dirijo ao ponto pra pegar o coletivo.

me perguntei por quê, afinal, a gente insiste em lançar tanta luz em tudo? por quê decidimos que a luz é melhor que a escuridão?

por ser cômodo e fácil, o conceito de que a escuridão representa o mal vem sendo passado de geração em geração, como um meme que se perpetua sem razão aparente.

a escuridão natural não é tão escura.

a escuridão da noite permite discernir com maior clareza do que a escuridão inerente ao ser humano, a escuridão interna que esconde as motivações, os interesses e os atos sombrios de que somos capazes.

nos escondemos de nós mesmos sob a luz artificial que criamos e de que sentimos falta quando se vai, mesmo que só por uma hora.