Arquivo do mês: setembro 2014

narrador 02

o atentado apanha o narrador desprevenido. apesar de todo tipo de loucura onírica que já lhe ocorrera durante os muitos R.E.M.s de sua vida pregressa, participar em primeira mão de uma armadilha para atrair vilões interessados no fim de seu protagonista (ou seria “de seus protagonistas”?) é mais que surpreendente para ele.

reutilizar a matéria de sonhos na urdidura de novas narrativas é habitual mas encontrar um sonho que seja evolução lógica de outro anterior é novidade.

o falso barman revelou-se ao(s) seu(s) objetivo(s) em algum momento perdido para a pretensão literária do Narrador, indicando a ele(s) que, em caso de necessitarem de ajuda especializada em vigilância-segurança-demolição, não se fizesse(m) de rogado(s) e o contatasse(m). Foi o o que seu(s) protagonista(s) fez (ou fizeram?) pois a agência que enviou o ex-barman não era a única interessada em suas atividades sombrias. o Narrador se aborrece com o fato de sentir-se incapaz de definir o número de protagonistas (no sonho tudo parece sempre tão perfeito mas na hora de transpor a barreira que o encadeamento verbal representa a característica mutável que a paisagem in/subconsciente se perde e solidifica em apenas um punhado de interpretações possíveis).

assim, o(s) protagonista(s) contat(ou/ram) o barman falsificado e pergunt(ou/aram) se a oferta ainda estava em pé.

como era de se esperar em histórias originadas em sonhos, há um salto que obedece apenas à lógica interna a eles e nada mais. o(s) protagonista(s) – e agora o Narrador tem quase certeza (sendo “quase” a palavra operante da frase) de que se trata somente de um indivíduo – está sendo vigiado de perto no caso de ser verdadeira a ameaça a sua vida.

usa todo tipo de aparato portável que permita ao ex-barman e sua agência acompanhar-lhe os passos e sente-se mais pesado por isso. está bastante visível no ponto de ônibus e assim que entra no coletivo e se acomoda da melhor forma possível em pé no corredor, o ataque é iniciado.

quem quer que ameace sua vida não tem qualquer consideração com as outras presentes no transporte e usa uma metraplhadora de grosso calibre montada na carroceria de uma picape 4×4 para retalhar metal, plástico, carne, sangue, estilhaçar vidro e osso. o protagonista, guiado pelo mais básico instinto de sobrevivência e a voz do ex-barman no comunicador em sua orelha, despenca para o chão arrastando consigo dois outros passageir(o/a)s próxim(o/a)s e gritando para os demais, sob fogo cerrado, que sentados não estão seguros.

(o Narrador pensa em fazer humor num momento assim, como se escrever que se trata de nova técnica para conseguir lugar sentado no coletivo fosse fazer alguém sequer esboçar o mais anêmico sorriso).

o motorista e o motor são atingidos e param de funcionar simultaneamente, a inércia ainda dura vinte metros, o ônibus para numa tangente com a calçada, como se o profissional do volante falhasse sem sua última tentativa de estacionar para o desembarque de passageiros.

o protagonista continua com as mãos cobrindo os ouvidos e grita por ajuda que não vem.

o Narrador, afinal, encontra uma barreira que ainda não pode superar: o despertar. o vazio informacional que se desenha diante de seus olhos tão tristes enquanto os abre e é inundado de estímulos externos.

seus ouvidos estão doloridos por causa do som de tiros.

 

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