Arquivo do mês: junho 2014

argumentos

uma das coisas que podem atormentar a consciência de alguém é exigir demais de outrem e pouco de si mesmo. quando se elabora um texto, por exemplo, que funcione como artigo de opinião, fazem-se necessários três movimentos básicos: uma introdução (na qual devem ser apresentados tanto tema quanto posição do enunciador sobre o mesmo); desenvolvimento (no qual devem ser articulados argumentos e exemplos, positivos e negativos, que sustentem e comprovem a posição adotada pelo enunciador no momento anterior) e conclusão (na qual, óbvio, o enunciador retoma a posição apresentada em primeiro lugar e, através de uma rápida revisão dos argumentos favoráveis e contrários, comprova-a, de preferência, irrefutavelmente).

não tão difícil, certo?

difícil, dificílimo é encontrar um assunto atraente o bastante com o qual se atracar por alguns parágrafos ou, com sorte, páginas, algo que renda mais do que 1000 palavras e, ao fim e ao cabo, faça sentido para o leitor.

apelar para a 1ª pessoa e tornar o artigo de opinião algo como um mash-up de ensaio e crônica simplesmente não é tão satisfatório quanto outrora. opinião, por mais paradoxal que isso soe, deve ser expressa impessoalmente.

se um texto começasse dizendo “eu li * &%@ d@ 73RRU@3M” já estaria errado de princípio, antes mesmo que qualquer coisa fosse dita sobre a história. o ideal seria algo como “ao ler * &%@ d@ 73RRU@3M o leitor médio…” viu só? impessoal, certo?

se chegasse a ponto de falar realmente da história poderia-se dizer que

“a mesma não impressiona muito e a arte é apenas funcional. tal desinteresse pode ser atribuído à idade avançada e ranzinzice decorrente dela ou ao fato de estar sendo um pouco mais exigente com o material consumido.”

“é compreensível que alguém pense numa semelhança com um desenhista genérico de grande editora norte-americana mas a arte é mais parecida mesmo com a de um outro artista, tantinho mais indie mas igualmente genérico como o 1º,  por causa do uso que faz das cores (algo mais para elétrico, azuis e amarelos). o sr. ******* não foge do uso da hachura, mas até aí, tudo bem. a história é outra fantasia de poder, só que, dessa vez, o protagonista tem sua sanidade posta em questão não por si mesmo, mas por todo o resto do elenco (menos a adorável @@@@@ – provável que baseada em alguma garota conhecida do desenhista). aliás, eis outro aspecto perturbador da história: o fato do sujeito só se relacionar, basicamente, com pessoas que conhece desde criança.”

enfim, uma argumentação módica sem qualquer comprometimento e, ao reler a bendita coisa, tampouco conclusão.

ensaio deve ser algo parecido com isso aí em cima, exceto que a similaridade seria maior com uma colcha de retalhos do que com um texto propriamente dito.

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