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tatuagem

numa das últimas ocasiões em que a Confraria dos Míopes se reuniu – algum momento de outubro, se não me engano, percepção cronológica fodida como sempre – discutíamos um dos talentos de Frater Frey, que foi iniciado há mais de um ano nos mistérios da tatuagem e agora nos brinda volta e meia com mais demonstrações de sua capacidade em um canvas diferenciado, a carne humana… tá bom, a pele.

enfim, Frater R. já tinha tomado a sua, como ele chama?, “coquinha” e andava pela metade da primeira (e única) cerveja quando decidiu satisfazer sua curiosidade: de onde Frey tirava os desenhos? eram dele mesmo?

eis aí todo gatilho necessário pra tecer uma narrativa absurdista ou dadaísta. interferi, pois penso ser este meu papel como grão-nada da Confraria dos Míopes, e disse que “Não, é claro que não! Frater Frey é o Marcel Duchamp do mundo da tatuagem! ele só tatua imagens encontradas nas ruas, jogadas fora, os tais objets trouvés! dia desses vai tatuar um bidê no meu ombro caídaço! daí, quando ele encontra uma imagem que quer gravar em carne – perdão – pele humana, seleciona o candidato mais apropriado, ou quem quer que esteja à mão e não frequente a ala dos queimados, e passa a fazer seu trabalho. suas peças de arte são disputadas à tapa por colecionadores da Yakuza!”

depois de rir sozinho de minha piada sem graça, pensei que talvez valesse à pena transformá-la numa gag de 5 painéis. depois pensei melhor.

e continuo pensando.

think punk

uma semana sem exercícios foi suficiente pra estancar o fluxo de opióides endógenos – endorfina, serotonina and the like – e me deixar insatisfeito o bastante pra voltar a bater nas teclas em busca de coerência e auto-expressão.

devido a uma série de limitações de caráter genético, nunca consegui pensar bem o bastante sem o auxílio da tecnologia verbal e só alcanço a expressão ótima por escrito. ainda assim ser mal compreendido em tempos de reflexão escassa e trabalho-trabalho-trabalho é mais que lugar comum. vou te poupar do superlativo porque ficaria muito ‘josé-dias’ além de a palavra ser semelhante a ‘comunismo’. e não queremos mal-entendido algum, certo?

antes um momento de background pra que fique claro de onde vem tudo isso: na segunda metade dos 80, quando conheci Frater R., este estava muito interessado no movimento punk o que , por extensão, também me interessou. apesar do atraso de pouco mais de uma década, o punk ainda tinha bastantes atrativos pra manés como eu, ávidos por fazer algo parecido com arte, mas seriamente doutrinados pelo status quo pra pensar que, sendo oriundos da classe trabalhadora, essa era uma ambição que não nos cabia.

o ‘do it yourself’ do punk me fez ver que as coisas não eram tão quadradinhas e havia espaço de manobra pra, pelo menos, fazer uma tentativazinha. tempo, espaço e outras palavras que dêem ideia de grandiosidade mostraram que o ‘do it yourself’ inicial, com os recursos esparsos de que dispunha então, podia passar por vários upgrades antes de ser dado a público. este aqui foi um dos primeiros, mais de 10 anos depois das tentativas iniciais.

à vaca fria: a carência de opióides e a preguiça generalizada me fizeram voltar a pensar. e pensar sempre traz algum tipo de resultado.

outra coisa geralmente ignorada nessas horas de processo criativo ou quando se menciona criatividade é a importância da memória. importa não só ter ideias, mas também lembrar de informações apreendidas ou história vivida.

então cá estava, inerte e insatisfeito como é preciso, necessitando findar o processo metabólico da escrevinhação compulsiva, quando percebi que, afinal, tinha chegado no ponto de maturação necessária pra por uma história no papel.

os cliques finalmente clicaram e assim por diante.

só isso não é suficiente, claro, então comecei a pensar num modo de dar a história supra ao mundo e acho que cheguei mais ou menos ao que será necessário fazer pra escoar essa produção específica.

agora é só esperar pra ver se o material vai emergir como espero que aconteça. em algum ponto do ano que vem, quando o mundo estiver acabando pela primeira vez nesta década.

confraria dos míopes

depois de passar um ano adormecido sob R’Lyeh, Frater R ressurgiu mais magro e desbocado que nunca. estávamos desacostumados de sua presença perturbadora e dos relatos de sua participação contínua em olímpiadas onanistas (ok, conheço o velho testamento bem o bastante pra saber que Onan não se masturbava mas praticava coito interrompido… só licença poética pra manter a voz do personagem) neste e em outros continentes.

ademais, foi-nos revelado que:

– em agosto passado o supra quebrou três costelas treinando Muay-Thay;

– está estudando inglês (embora fosse mais condizente estudar tailandês);

– escreve semanalmente no UOL;

– está trabalhando para uma universidade de outro planeta (pitada de sal – mais pra ‘outro estado’);

– ainda fica bêbado virando só uma longneck.

o culto transcorreu sem qualquer interrupção, exceto pelas inconveniências clássicas de Frater R que, aparentemente, não podia deixar de comentar quão pouco saudável as avaliações emitidas por Frater Frey et moi même sobre as muitas transeuntes apetecíveis que nos brindaram com pele à mostra (bronzeada, rosada, negra), pernas torneadas, decotes generosos, olhares de esguelha a fim de conferir quem as conferia… tudo resolvido com um pronto e bem dado sopapo verbal.