Arquivo do mês: maio 2010

pescando gente

“PESCANDO GENTE”

txt: A.Moraes / Arte: Leonardo Frey

Painel 1;

Anoitecer. Temos duas cabeças em primeiro plano e, entre elas, vemos um barco pequeno movendo-se num rio iluminado pela lua, impulsionado pelo remo  do velho pescador. Os personagens que observam são dois adolescentes, Davi e Cristiano, esquerda e direita. Caracterize como quiser, ok? Oscar, o velho no barco, está muito longe pruma descrição se fazer necessária.

CRISTIANO: Nossa! Quem é esse cara?

DAVI: É o seu Oscar, Cristiano!

CRISTIANO: Mas há um minuto ele não tava ali!

DAVI: Não esquenta com isso, não, meu.

Painel 2;

Agora afasta um pouco de modo a mostrar os garotos até a cintura. Seu Oscar continua em segundo plano, remando com tranqüilidade.

DAVI: Seu Oscar é do bem. Se tô aqui hoje é por causa dele.

CRISTIANO: Mesmo, Davi?

DAVI: Só.

Painel 3;

Davi, com uns 5 anos, nadando no mesmo rio dos 2 painéis anteriores. Mostre de perto: compacto, firme, vigoroso e radiante com sua habilidade de nadador.

RECORDATÓRIO: “Eu era bem pequeno na época, mas lembro melhor disso do que do café da manhã.

RECORDATÓRIO: “O dia era quente e a água tava fresca. Perfeito prum filho de pescador.

Painel 4;

Em primeiro plano vemos, por cima dos ombros de seu Oscar, ainda no barco, o menino nadando perto do redemoinho do rio. Cê não mostrou o velho antes porque o painel era um close de Davi, certo?

RECORDATÓRIO: “Tava tão contente que nem vi que nadei pra parte perigosa do rio. Nem os adultos vão lá.

RECORDATÓRIO: “A corrente me pegou e…

Painel 5;

Mostramos seu Oscar de perto, o corpo inclinado pra frente na posição de mergulho, sem camisa, peito e braços musculosos, vestindo calças brancas, cabeça com cabelos curtíssimos e brancos contrastando com a pele escura, tostada pelo sol.

RECORDATÓRIO: “… ele não pensou duas vezes.

Painel 6;

Seu Oscar segurando Davi pelos cabelos e nadando de volta pro barco, pra longe do redemoinho.

RECORDATÓRIO: “O velho parecia um deus na água, como se ela não oferecesse resistência a ele.

Painel 7;

Ele ajuda o menino a subir no barco, empurrando-o pro alto e continuando dentro d’água.

RECORDATÓRIO: “Era forte e vigoroso como ninguém. E ainda hoje não tem pescador melhor que ele na vila.”

Painel 8;

Volta pros dois adolescentes se encarando e conversando na beira do rio.O barco e o velho já não aparecem em segundo plano, só o luar batendo na água.

CRISTIANO: Peraí! Que conversa é essa de era? O velho tá  bem…

DAVI: Tava. Já foi de novo. Ele deve ter gostado de você.

Painel 9;

Agora voltamos e damos seqüência ao painel 7: de dentro d’água, vemos o menino Davi curvado sobre a borda do barco, olhando em nossa direção, enquanto afundamos lentamente, nosso pdv é o de Oscar.

DAVI: Seu Oscar nunca saiu da água.

 DAVI: Em noite de lua mata saudade da vila e deixa as pessoas de quem gosta vê-lo.

 FIM.

Anúncios

Pound for thought

o poeta Ezra Pound – que entendia muito mais de literatura do que eu – propõe uma classificação elementar dos produtores desse tipo de textos, quer dizer, literários, e penso com meus botões (imaginários, óbvio, uma vez que digito isto do conforto de minha escrivaninha e nem está tão frio assim) que o mesmo poderia ser feito com roteiristas/cartunistas (os caras que escrevem e desenham suas histórias)… aliás, acho que Douglas Wolk já fez coisa parecida no capítulo inicial de READING COMICS.
 
à vaca fria:
 
1. Inventores: homens que descobriram um novo processo ou cuja obra nos dá o primeiro exemplo conhecido de um processo;
 
2. Mestres: homens que combinaram um certo número de tais processos e que os usaram tão bem ou melhor que os inventores;
 
3. Diluidores: homens que vieram depois das duas primeiras espécies de escritor e não foram capazes de realizar tão bem o trabalho;
 
4. Bons escritores sem qualidades salientes: homens que tiveram a sorte de nascer numa época em que a literatura de seu país está em boa ordem ou em que algum ramo particular da ordem de escrever é ‘saudável’. Por exemplo, homens que escreveram sonetos no tempo de Dante, homens que escreveram poemas curtos no tempo de Shakespeare ou algumas décadas a seguir, ou que escreveram romances e contos na França, depois que Flaubert lhes mostrou como fazê-lo;
 
5. Beletristas: Homens que realmente não inventaram nada, mas se especializaram em uma parte particular da arte de escrever, e que não podem ser considerados ‘grandes homens’ ou autores que tentaram dar uma representação completa da vida ou da sua época;
 
6. Lançadores de modas.
 
penso que todo tipo de classificação, que toda estampagem de rótulo é arbitrária de uma forma ou outra, mas tou tentando sistematizar a idéia de como julgar o trabalho de um roteirista de quadrinhos. 
 
o que é um bom roteirista de quadrinhos?
 
é o cara que escreve histórias pro meu gosto particular? é o sujeito cuja perícia ao executar um trabalho de escrita não deixa a desejar? é o cara que sempre sabe o momento de soltar aquele oneliner que vai fazer toda a diferença? é o narrador contumaz, embora sua técnica seja pífia, seu conhecimento da linguagem não passe do básico? é quem usa mais splash-pages? hm? 

saco

dentre as coisas que me enchem o saco e que termino ventilando com os camaradas (não os comunistas) tá a discussão interminável e improdutiva que pipocou recentemente e, como era de se esperar, não levou a lugar algum.
 
ah é, a discussão girava em torno de ‘por que não temos bons roteiristas de quadrinhos no Brésil?’
 
ridículo e batido, não?
 
mas ainda assim algum paladino ou cavaleiro andante de plantão levanta a lebre de quando em vez só porque, cê sabe, precisa preencher determinado espaço. felizmente em tempos hipermodernos algumas árvores são poupadas e não dão a vida por uma discussão tão vã.
 
respostas possíveis pra pergunta pra lá de elementar desse nosso caro colega datilógrafo:
 
a) não temos bons leitores no Brésil, também – e falo de quantidade e qualidade;
 
b) não há qualquer forma de incentivo à produção de boas hqbs. se o indivíduo não sentir a compulsão pra fazer – desejo, necessidade, vontade – pode ter certeza de que nada será realizado;
 
c) o sr. poderia listar os roteiristas ruins de quadrinhos que temos? porque, meu caro, se não temos bons, temos ao menos médios e ruins e tenho certeza de que o sr. não perde seu precioso tempo lendo hqb pra saber responder.
 
aproveitando, e acho que não fujo muito do tópico, acredito mesmo que temos bons roteiristas e alguns chegam a ser brilhantes. o problema é que só ser bom não é mais o bastante. não quando todo mundo pode escrever e divulgar seus textos gratuitamente, quando todos são escritores, quando tantos egos entram em conflito.
 
e, claro, falando em egos, quando o sujeito tá tão cheio de si, se considera tão genial que acha que não precisa aprender mais coisa alguma. aí fodeu.
 
coisas que não entendo e acho que vou ter dificuldade de entender por um tempo é que tá difícil ver alguém explorar os quadrinhos como linguagem. explorar as possibilidades da linguagem. que boas narrativas podem ser feitas usando-a já ficou claro.
 
mas é só isso?

zen noção/noção zen

lendo a coleção de textos (A via) de Chuang Tzu (com introdução e estudo do monge trapista Thomas Merton), deparei com um trecho particularmente interessante que me fez lembrar de algo que li anteontem num blog.
 
nah, pra falar a verdade, o que li no blog só me fez lembrar de um autoquestionamento antigo, uma dúvida pra qual não encontrei resposta.
 
mas isso ainda passa longe de ser a verdade.
 
(aliás, tenho mais dúvidas – dúvidas sobre dúvidas, metadúvidas – a respeito da existência de qualquer verdade, dados todos os equívocos de percepção já experimentados na minha assim chamada vida)
 
então.
 
a dúvida, diferente daquela mencionada anteriormente, que o texto do velho Chuang me fez lembrar, diz respeito à utilidade do entretenimento ou da arte, essa quimera.
 
em sábados do passado recente enchi meus fraters R. e Frey com a importância crescente que as pessoas – as que podem pagar por isso, claro – dão a seu entretenimento (roubei a pergunta da entrevista que o O’Neil deu ao TCJ nos 70); de como o dito parece estar substituindo as religiões como fuga e da submissão das supra ao que quer que as mantenha trancadas em suas casas, nas respectivas baias, distantes de qualquer experiência de mundo (bom, essa é de Fahrenheit 451, but… whatever).
 
entretenimento é um mecanismo de controle, uma ferramenta de aprendizagem ou o quê?
mais importante: qual a validade desse tipo de questionamento?
 
óbvio que me falta qualquer pista pra chegar a uma resposta.
 
o blog em questão, aquele de que Chuang me fez lembrar, sugeria idéias (em que poucos investem) aos desafortunados que decidem produzir hqs no Brésil e teimam em fazê-las, invariavelmente, segundo o autor da entrada, de super-heróis.
 
apesar de ter minhas reservas com esse subgênero da fantasia, já ficou mais que provado que boas histórias independem disso e se tornam possíveis graças à dedicação, talento e persistência de quem quer que se dedique a produzi-las.
ah, claro, ia esquecendo de falar da sorte, da confluência de fatores, do contexto sócio-econômico-histórico, melhor, do zeitgeist e toda essa merda. taí, tá lembrado.
 
o sucesso comercial dessas histórias, no entanto, permanece no reino misterioso das incógnitas (leia ‘o andar do bêbado’ pra alguns depoimentos sobre o sucesso – inesperado, boa parte do tempo – de produções hollywoodianas – que independe do talento envolvido ou do investimento feito).
 
a pessoa pode produzir algo que pensa que vai agradar a massa seguindo a fórmula da semana e dar com os burros n’água; pode criar algo que realmente interessa a si mesma e dar com os burros n’água; pode especular a respeito do que deve fazer a seguir – visando, evidentemente, o tal sucesso comercial – mesmo deixando inconclusas tantas outras empreitadas – sem concluir qualquer coisa – e assim por diante.
 
sei lá se tou apto a dizer o que os outros devem ou não fazer pra aumentar suas chances de produzir essa besta mítica do sucesso, mas imagino que terminar o que a gente se propõe a fazer seja índice de alguém realmente preocupado com a mídia dos quadrinhos. mesmo que, no final, falte o sucesso, o indivíduo ao menos terá o que mostrar, terá realizado quelque chose.
 
eu leria uma hq de super-heróis sem o menor problema desde que fosse o que seu(s) autor(es) queria fazer. ou de qualquer outro gênero.
 
Chuang Tzu meio que respondeu meu autoquestionamento, só pra encerrar o assunto, no final de sua parábola. 
 
às vezes ser inútil é útil. 

acontece

sempre acontece, às vezes com menos, outras com mais força, a ‘crise anual’ – nem tanto, pode ser semestral, mensal, semanal ou diária dependendo de, sei lá, a lua estar cheia, nova ou minguante – de produção.
 
claro que nada se perde.
 
meu macunaímismo inato, minha bartlebymania crônica atacam de modo simultâneo ou revezando-se e fico assim, congelado.
 
evidente que pouco ajuda na hora de escrever estar sentindo essa dor fodida no ombro esquerdo. sem dor já é um saco, estimulado assim a vontade é de sequer erguer os dedos sobre a keyboard.
 
a luta pra deter o fluxo de pensamentos, no entanto, é inglória – como se houvesse glória em lutar pra deter quelque chose – mas os analgésicos me entorpecem o bastante pros pensamentos ficarem pelo menos mais engraçados do que o normal.
 
pena que não dá pra acompanhar essa luta de fora, com uma latinha de cerveja na mão… ia precisar de psicotrópicos além dos analgésicos.

boceta de Pandora

a febre noir atingiu seu pico em 97. vítima ou algoz de muitos romances de Elmore Leonard, Dash Hammett, Ray Chandler, Zé Rubem e o piradíssimo James Ellroy, que me fatiavam, mexiam com os instintos mais básicos e que, em troca, eu destroçava durante a leitura. tava chafurdando no vício, uma obsessão-compulsão insaciável…
então essa foto caiu em minhas mãos, quer dizer, isso que penso ser uma foto mas pode muito bem ser um frame de um filme esquecido qualquer, dá igual. enquadradas, além de asfalto no background, a partir da cintura de uma mulher vestindo minissaia, mãos que seguram uma automática niquelada e coxas deliciosas e ensanguentadas. algo assim:
não deixam de ser deliciosas e, claro, o sangue deve ser cênico, não passa dum xarope com cor e textura certas pra alcançar o efeito desejado.
então escrevi a 1ª versão deste txt em 3ª pessoa, no pretérito, seguindo a tradição narrativa de um punhado desses caras e meio que inspirado por um ensaio de Borges que dizia que, se se quer aprender a escrever ficção, deve-se estudar os romances policiais.
com o tempo e um insight vindo duma amiga (na verdade tá mais pra saque de idéias), semana passada reescrevi o material, tentando forjar, porque não faço a mínima de como é, uma voz feminina narrando esse tipo de coisa. no processo percebi que as femmes fatales (?) ficcionais são vítimas de uma incompreensão tipicamente masculina ou da pura e simples misoginia.
Juana, nossa narradora, é mais parecida com a sra. Louvadeus, que arranca a cabeça do macho durante o sexo, ou a fêmea de uma espécie de aranha cujo macho quebra seu órgão reprodutor (e morre em conseqüência disso) durante o ato, do que com uma mulher real.