Arquivo do mês: novembro 2010

holed up

depois das viagens curtas tava satisfeito em me esconder em casa o máximo possível durante a licença prêmio (eu mereci! mereci!), mas minha amiga (a mesma do italiano) disse que Milo Manara (outro italiano, não o restaurante) vinha a city, o quê, em seu entender, era razão mais que suficiente pra me fazer sair ao ar livre pra me enfurnar num teatro com sei lá quantas pessoas pra ouvir o sujeito falando.

chegou o dia, uma 4ª, e o horário. como a gente não tocou mais no assunto, pensei “Ela, esqueceu, excelente! Mais um dia sem encarar outro ser humano!” e dei com os burros n’água, claro, porque ela não só não esqueceu como veio me buscar.

já no local, eu disse pra ela: “Olha só, devem ter cancelado, não tem ninguém aqui fora lutando pelas entradas francas, vou voltar pra casa, tchau!” e ela respondeu: “A gente tá meia hora atrasado, adivinha por causa de quem?”

fui arrastado até a bilheteria, onde forneceram as tais entradas (imaginei que ia ter que ficar em pé) e nos esgueiramos até as poltronas na platéia que estavam ¾ ocupadas. à distância, reconheci o sr. Manara graças a seus inconfundíveis cabelos brancos cortados em cuia, sentado numa cadeira no palco, acompanhado pelo que imaginei serem outras três pessoas… ou eram filamentos antropomórficos de minha imaginação, nunca dá pra dizer com certeza.

a fêmea, ou o filamento fêmeo, parecia ser a tradutora, apesar de, também, parecer ser a responsável pela adaptação livre do discurso do desenhista. foram limadas de sua versão das falas do cara qualquer menção a Steve McQueen, Alejandro Jodorowsky e Hugo Pratt. aliás, pelo que soube da Rio Comicon, a conversa foi mais ou menos a mesma, quase toda Fellinicêntrica.

slides com cartazes de filmes de Fellini desenhados por Manara, artes (desde os roughs do Fedê até a arte-final e cores do Manara) de “Viagem a Tulum” e anedotas a respeito de Castañeda, telefonemas misteriosos e da confecção da história.

quase tudo idêntico, também, ao que se publicou em vários jornais.

assim que terminou, me preparei pra ser o primeiro a escafeder-me do lugar, mas não fui rápido o bastante e terminei cedendo aos apelos de minha amiga pra ficarmos e pegarmos, pelo menos, um autógrafo do sujeito.

ela devia ter algum guardanapo ou lenço de papel que não tinha usado (ainda).

senti arrepios sequenciais e náuseas insuportáveis. medo e repulsa. tudo que eu não queria era ficar numa fila perto de gente e correr o risco de ver algum fantasma dum natal passado.

mesmo antes de sair do teatro já cruzei com o primeiro que não foi educado o suficiente pra só me ignorar e seguir em frente. não, o cara tinha que me cumprimentar (firme, convicto)… acompanhou a gente até onde a fila mais lenta do universo terminava, lembrou que estava com um livro que emprestei há décadas (nem lembro qual) e, afinal, desapareceu (se ele era um filamento de imaginação, acho que eu não tava tão imaginativo).

aproveitei a penumbra do corredor em que a fila permaneceu por doze horas pra disfarçar minha presença o melhor possível, mas minha amiga insistia em falar comigo, o que atrapalhava na execução do truque de invisibilidade que o velho Bill ensinou aos seus leitores.

a segunda aparição foi justamente nesse local de sombras (dentro do teatro também tava escuro) e piedosamente mais ligeira. só um sacudir de mãos (magra, ossuda) e duas frases trocadas de forma constrangida.

saí, fumei um maço de cigarros, voltei e ela ainda tava lá, guardando lugar e segurando uns álbuns do Milo que eu não fazia idéia de onde vieram. a fila continuava mais ou menos do mesmo jeito, exceto que as pessoas pareciam estar desaparecendo.

minha imaginação e seus filamentos sumiam a mancheias.

finalmente, o terceiro fantasma dos natais passados surgiu, era um dos filamentos de imaginação que estavam no palco e, pelo que entendi, meio que responsável pela presença do italiano (não do restaurante) na city.

mais um sacudir de mãos (úmida, flácida)… esse não desapareceu tão facilmente.

entreguei um dos álbuns que minha amiga trouxe pro Manara com um pedaço de papel onde desenhei meu nome… ele escreveu algumas coisas, devolveu e saí correndo dali quase que instantaneamente.

bom, quase mesmo, porque ela pediu que Manara autografasse um outro e fiquei esperando.

inevitável sentir um pouco de incômodo diante do homem. em primeiro lugar, pelo seu trabalho como ilustrador e roteirista, em segundo pelas suas colaborações com Pratt e Jodorowsky, em terceiro por ele aparentar até mais que sua idade declarada e, como cereja do bolo, ainda estar gripado (ar condicionado demais no Rio).

valeu à pena ir por causa dos autógrafos que conseguimos (acho que o único outro que tenho de quadrinhista italiano é do Ivo Millazzo), por poder dar um presente de aniversário sem precedentes pro Frey (o 3º volume de Bórgia autografado) e, por fim, por uma ou duas perguntas inteligentes que Manara respondeu (detalhe: não se abriu espaço pro público perguntar coisa alguma) feita pelo ‘mediador’ (que não mediou, só perguntou).

sincro

terminei de ler BARBA-AZUL, as aventuras nada ordinárias de Sarkis Karabekian, pintor do surrealismo abstrato imaginado por Kurt Vonnegut, já há umas semanas e fiquei tão estupefato com os últimos parágrafos que fui tomado por uma amnésia decrescente até que pude lembrar do que mais me abalou.

veja só: Kurt usou a mesma lenda cigana que se encontra na origem de MARRETA (co-escrita com Marcio Massula Jr e que você pode ler aqui em doses homeopáticas ou baixando o .pdf na esteira lateral à direita sob Moraes’ Stuff) pra ilustrar (quase literalmente) um ponto obscuro da história da 2ª Guerra como testemunhada pelo velho Sarkis.

ainda digerindo a informação.

MARRETA, aliás, está na fundação da prosa nova que vem a seguir. é esperar pra ver.

incoming

depois de uns meses sem trabalhar consistentemente em nenhuma história em prosa, me vi martelando a keyboard e achando graça no que resultava ali.

então, como é natural quando isso acontece, continuei por mais uns minutos. daí que abri o arquivo e não tive uma crise de náusea ao ler o que tinha sobrevivido à edição impiedosa e escrevi mais uns minutos.

esquisito.

fazia um tempinho que queria retomar a crônica da ‘vida’ dessa figura mas meio que não sabia como. mas aí rolou aquela adição que não precisava ser forçada, o click! que acontece quando a gente pensa que tudo que tinha pra clickar! já clickou! e, bom, se eu sobreviver o bastante logo tem prosa nova no Labirinto.

uma história com começo, meio e fim de um personagem do qual gosto.

roteiro_DESVIO_016

Roteiro de uma das tiras, uma das que me deixaram mais satisfeito com o resultado:

A.Moraes & Jean Okada

tenha em mente que você não precisará, em momento algum, reproduzir o quadro de Velásquez, certo?

Painel 1;

Uma mulher, de costas para o leitor, está admirando LAS MENINAS numa galeria de arte e fazendo rascunhos do quadro em seu bloco de desenho.

SEM TEXTO

Painel 2;

Invertemos a perspectiva totalmente. É só um experimento visual, nada mais que isso. Velásquez, de dentro do quadro, pinta a imagem da mulher do painel 1 na tela que tem à sua frente. Atrás da mulher há uma moldura, que é a moldura do painel da tira que estamos fazendo.

SEM TEXTO

Painel 3;

Mostramos aqui o desenhista que está finalizando a arte do painel em que aparece a mulher na galeria de arte rascunhando LAS MENINAS.

SEM TEXTO

Painel 4;

Por fim, VOCÊ aparece no último painel, desenhando o desenhista que desenha a mulher, que rascunha o quadro. VOCÊ vira pro leitor e diz:

JEAN: Atrás de você!

Ideia_01

Esta entrada tem como único objetivo me deixar livre de uma história que, sei, funcionaria melhor em quadrinhos do que prosa.

Do livro de notas: 26/1 às 00h18

Ideia que vai pro backburner: animais inteligentes agora dominam a Terra. O sujeito que acredita ser o último homem é prisioneiro de uma entidade misteriosa. Os animais, tão ou mais inteligentes que o homem, trabalham em conjunto por sua libertação. Eles soltam o homem e, um a um, vão sendo vitimados durante a fuga pelas armadilhas da criatura malévola que o aprisionou em primeiro lugar. Em nenhum momento o homem age com altruísmo ou pensa em salvar qualquer um dos animais, que se sacrificam heroicamente por ele. Ao fim do percurso o homem se vê numa sala escura com a entidade até então oculta. Ela fala do sacrifício nobre dos animais em prol da libertação dele, revela que na verdade os bichos só a estavam ajudando a avaliar se ele estava apto a integrar a sociedade igualitária entre todas as formas de vida e, portanto, não morreram. Apesar dos apelos deles, ela julga que o homem ainda não está pronto para reabilitação e deve retornar a sua cela. É uma mulher.

Heresia

No primeiro ano do curso superior lemos O ESTRANGEIRO, de Camus, na aula de teoria literária. É um bom livro, com um narrador impressionante, em 1ª pessoa tão convincente que uma colega da turma pensou que fosse o próprio Camus narrando experiências vividas por ele. Não adiantou muito argumentar com ela. Não gostava do autor porque não gostava de Mersault. Nada pode ser feito para que mudasse de opinião.

Há um ou dois anos, lendo MAPS AND LEGENDS, de Chabon, encontrei o registro de diversas experiências do autor com situações semelhantes. Pessoas preocupadas com seu vício em drogas, com sua homossexualidade (interessante como a sociedade homofóbica não se preocupa com as diversas formas que a heterossexualidade pode assumir), ou que tinham avistado, em cruzeiro de navio, a comunidade fictícia de Sitka, Alaska, em que os judeus se refugiaram ao fim da 2ª Guerra no universo paralelo de ASSOCIAÇÃO DE POLÍCIA JUDAÍCA, do mesmo autor.

Todos exemplos recentes de como a realidade pessoal dos leitores pode ser sobreposta pela dos livros.

Então na última sexta estava lendo O QUEIJO E OS VERMES, de Ginzburg, e descobri que o moleiro Menochio, réu em dois processos da Inquisição, fundou sua heresia na discussão e leitura de livros, entre os quais O DECAMERON.

É bacana descobrir esse tipo de coisa.

Como a ficção afeta a realidade?

Um tema em que pensar.

Dreamlog_Girino

Entre sexta e sábado a visão me atingiu.

Talvez por ter ido dormir mais sábado do que sexta, às 02h00.

No sonho reencontrava um colega do ginásio, o nerd definitivo, Rogério, ou Girino, como a molecada o nomeou.

Eu perambulava por uma vizinhança familiar. Casas e quintais, quintais de verdade, com muito espaço, vegetação rasteira e uma ou outra árvore.

Entrei num desses. O muro era de pedra, a pedra estava úmida e escurecida por limo.

Sabia que Rogério morava ali, apesar de não fazer idéia de como sabia.

Aliás, a quantidade de informação adquirida durante a onironarrativa que não foi verbalizada ou lida é impressionante.

Quando ele abriu a porta da casa e me atendeu eu já sabia que seu pai tinha casado de novo e com uma mulher mais jovem. Rogério disse, sem olhar pra mim, que o sistema imunológico dela era inexistente e que tanto ela quanto seu meio-irmão corriam risco de vida só por eu estar ali, parado na porta. “Os Germes”. Enfim, me impressionou mais ainda o fato de ele estar com os cabelos completamente brancos e, ainda assim, manter-se jovem em todo o resto.

Discuti o sonho com uma amiga enquanto almoçávamos no italiano.

“Por que isso e aquilo?”

-Por que ele não me deixou entrar?

Essa é uma amiga perfeitamente razoável. Ela disse:

-É o passado. Sua frustração, seu questionamento, é por você não poder revivê-lo no sonho. Seu passado não quer você de volta. A nostalgia não está no cardápio.

Fez sentido pra mim.