Arquivo do mês: setembro 2010

percepção x experiência

meus autores preferidos trabalham duro a fim de criar uma experiência única pro leitor, algo parecido com uma imersão em que estudantes de língua estrangeira são levados por seus instrutores a participar de uma situação em que só podem se comunicar mediante uso da língua que aprendem, sem recorrer ao idioma materno. escritores assim não costumam ser muito populares, claro, mas também não acho que seja esse seu objetivo.

meu gosto por trabalhos desse tipo começa, evidente, com os primeiros quadrinhos traduzidos, mutilados e publicados aqui no Brésil de roteiristas como Alan Moore, Jamie Delano, Grant Morrison and the likes… fim dos 80, acho, mas tudo-bem-tudo-bem-tudo-bem… no começo dos 90 tomo ciência das influências desses sujeitos, aprendo que há Pynchon, por exemplo. um par de anos década adentro, descubro Italo Calvino, me apaixono por Julio Cortázar.

imersão, experiência.

no final dos 90, minhas certezas começam a sofrer abalos constantes que se propagam até os dias de hoje. perda parcial da audição, vertigens e náuseas. a percepção de mundo muda substancialmente. a partir de meados da década atual, tento transferir pro que escrevo essa sensação de incerteza. é quando começo a mesentir menos desconfortável quando outros me dizem escritor.

flashforward pra 11 de agosto. sempre esse mês.

andando na rua descubro um novo sintoma da Síndrome de Menière.

perda total de equilíbrio, mergulho na calçada de costas. outra pedestre chama o socorro. minha cabeça sangra. fivela de boné cortou couro cabeludo. no pronto socorro sou questionado/medicado/examinado/suturado/despachado.

como transmito esse tipo de experiência num texto? numa hq?

não transmito.

cessa a escritura.

reavalio tudo que me torna o que sou.

reescrevo.

reinvento, até, minha postura física.

a discordância de visão, audição, tato e propriocepção torna-se gritante.