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progresso, ordem

aproveitei os dias de folga pra dar início àquele roteiro que venho mencionando não muito subrepticiamente por aqui e, também, na conta nova do twitter (vou tentar não deletar esta quando me injuriar da próxima vez).

entre a leitura de O LOBO ATRÁS DO ESPELHO (não gostei muito da voz narrativa mas a história até que não era má – e, afinal, entendi o motivo de ter abandonado o livro tantas vezes: o aspecto parabólico da trama e o mix de realismo fantástico não desciam, me faziam lembrar demais de G. Garcia Marquez) e do livro de roteiros de Denny O’Neil, algumas vontades expressas anteriormente começaram a ganhar corpo e acho que tenho uma ou duas ideias a respeito de como lidar com a trama.

já tinha montado um outline com um par de considerações a respeito de como gostaria de abordar o tema, uma amiga fez uma pesquisa histórica básica pra não parecer que estou chupinhando a trama dum filme nacional recente (de que só ouvi falar, mas mesmo assim…) e terminei lembrando duma CÁPSULA de que sempre gostei mas nunca foi desenhada e pode muito bem servir como frame device pra narrativa que tenho em mente.

escrevi o primeiro painel da história ontem, tentando usar o splash-panel como visto nas hqs de Archie Goodwin em BLAZING COMBAT e, só pra estar seguro de que estou fazendo direito, andei folheando as coleções que a Panini soltou nas comemorações dos 70 anos da DC.

vou ler o 2º vol. de AS ILUSÕES ARMADAS e reler o livrinho do Zuenir. tem um material do Cony escrito no período que talvez mereça investigação e preciso checar também.

como se não bastasse, hoje fiquei uma hora inteira separando os livros das pilhas em duas cateogrias facilmente reconhecíveis (lidos e não lidos) e o quarto ficou surpreendentemente mais transitável.

novos progressos assim que houver.

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skulls

Outro dia mencionei Robert Silverberg como escritor de fc influente e altamente recomendável pra quem está a fim de um pouco mais que escapismo puro e simples.

Comprei meu primeiro Silverberg numa dessas muitas bienais a que compareci quase que por inércia. Aliás, faço isso o tempo todo. Adquiro um hábito e o mantenho mesmo quando já não me dá mais prazer. O livro, ‘uma pequena morte’, tinha me chamado atenção por trazer na capa uma ilustração de Jordi Bernet, que deu corpo aos quadrinhos de ‘torpedo’ com Sanchez Abuli depois que Toth largou o osso (que segurou por cinco minutos, no máximo).

Aquela história era um troço incomum pros meus padrões de leitor de fc: passando-se nos anos 70 (escrita na mesma época) e narrada em primeira pessoa, contava as desventuras de um telepata em Berkeley (uma das mecas do movimento hippie, das head-shops etc), que usava suas habilidades incomuns pra ganhar a vida de um jeito, também, incomum. Escrevia trabalhos para universitários locais tirando-os, literalmente, da cabeça de outros universitários e/ou professores. A narrativa gira em torno do momento em que o protagonista descobre estar perdendo sua capacidade de subtrair informações dos circundantes incautos.

Depois procurei e encontrei um par de antologias de seus contos que me deixaram maravilhado. Uma delas trazia a história, adaptada pra tevê nos anos 80 como um episódio da segunda edição de Twilight Zone, de uma sociedade futurista em que as pessoas que não se enquadrassem socialmente eram condenadas a um período de ‘invisibilidade’, trazendo na testa a marca que fazia com que os demais cidadãos as ignorassem. Na introdução do livro a origem da idéia é mencionada: ‘a loteria na babilônia’ de JLB. Quem leu o conto sabe do que se trata.

Pois bem.

Hoje terminei a leitura de ‘the book of skulls’, outro romance do mesmo autor também ambientado e escrito nos anos 70 e com uma estrutura narrativa diferente da habitual. Os protagonistas são quatro universitários em viagem de férias.

Aproximadamente metade do livro é uma recapitulaçãp do que aconteceu anteriormente somado ao relato da viagem dos caras (Eli, o judeu; Ned, o homossexual; Timothy, o herdeiro e, não menos importante, Oliver, o garoto do campo) que se revezam no volante e na narrativa em busca do que, a princípio, lhes parece uma fantasia. Eli, o estudante de lingüística, descobriu um manuscrito da ‘irmandade da caveira’ em latim e, tomado pela curiosidade, o traduziu. O dito descrevia em pormenores um ritual que captura a imaginação dos protagonistas: a aquisição da imortalidade.

Os quatro já se conheciam e, apesar de suas idiossincrasias, concordam em empreender a viagem a fim de encontrar o templo da irmandade e submeter-se ao ritual… Eli, Ned, Oliver e Timothy formam o que o manuscrito descreve como um ‘receptáculo’. O grupo deve submeter-se a treinamento e, entre si, um deve sacrificar-se voluntariamente e outro deve ser assassinado para que os dois sobreviventes ganhem aquilo que pensam desejar.

O legal desse livro é que se trata de material de difícil classificação. Harlan Elison o chama de ‘nightmare novel’, que me parece uma descrição sucinta e justa. Dizer que é fc e pronto seria simplificar demais. É literatura e pronto.

Os narradores, independente de quem sejam, são falhos, perniciosos até. Difícil imaginar que algum deles desperte a simpatia do leitor e isso torna tudo mais interessante. São estudos de personagens detalhados, profundos, psicológicos. Traumas sofridos e causados são parte dos relatos e o narcisismo (intelectual, físico, financeiro) é uma constante. Silverberg já devia estar na casa dos 50 quando escreveu o lance, mas a linguagem e o zeitgeist em que as personagens vivem são pra lá de convincentes.

Escritores de gênero tendem a ater-se a um vocabulário específico e a recursos narrativos/estilísticos com que se sentem confortáveis. O trampo do Robert difere justamente aí. Como com qualquer escritor de respeito, percebe-se a pesquisa, a vontade de atualizar-se e fazer melhor sempre, não se repetir, permanecer no jogo, evitar ficar datado. A carreira do sujeito durou mais de 50 anos e uma de suas antologias mais divertidas pega contos de diversas fases dela em que podem ser encontrados tanto relatos de viagens espaciais quanto metáforas pros riscos ambientais que a fome de poder leva o gênero humano a correr.

Talvez Silverberg não a consiga, mas seus escritos merecem a imortalidade.

ruído

Sem funcionar direito há onze anos. Ações e funções automáticas do metabolismo comprometidas. Uma novidade a cada despertar. Surpresas nem sempre são coisas boas. Sistema nervoso se desligando. Sensação de ausência, melhor, de presença anestesiada em toda parte. Estar e não-estar simultaneamente. Nada parecido com qualquer relato de experiência extracorpórea. Mais como se as informações fossem transmitidas de uma longa distância e não necessariamente por olfato, tato, paladar, visão e audição… uma desconexão entre ‘corpo’ e ‘mente’. A idéia de ser-estar não parece aplicável no momento.

Toda informação é ruído.

Voltando pro qlipoth.

over

Ela anda em minha direção, um de seus sorrisos tímidos, marca registrada de ontologia pessoal, verniz de mistério nutrido em silêncio. Desajeitado tento sair de seu caminho mas ela me alcança com voz partida (primeiro touché?) pelo medo.

Posso te dar um beijo?

(É o Vertigium deprimindo meu sistema nervoso central que faz com que me curve e lhe ofereça livre acesso à minha face?)

Claro.

Isso foi então. Agora apanho essa memória queimada sob a pele e ela quase escapa entre meus dedos. Quantos centímetros quadrados de nossos corpos se tocaram? Quantos mililitros de sua saliva ficaram em mim?

Espano um tanto do pó acumulado pelos anos e o descamar da pele, e tento esticar as inevitáveis rugas, cicatrizes de tristezas e felicidades pequeninas.

A memória ainda é bela e significativa.

Minha coordenação motora que nunca foi perfeita voltou mais ou menos ao normal desde que interrompi o consumo compulsivo do remédio e perdi mais de dez quilos. Reencontrei a graça nas palavras e ela veio a mim, a intenção do beijo cortando fundo carne e ossos.

Brinque com a memória.

Eu não poderia, acho, mesmo que tivesse o estímulo certo. A defasagem espaço-temporal era grande demais pra minhas pernas na época e seria moral e legalmente errado.

Agora posso tentar jogar esse jogo de representação, de atuação textual, esse jogo de palavras que, ao fim e ao cabo, me deixará exatamente no mesmo lugar que sou eu, ou que estou eu, ao menos no momento.

Tudo muda.

Eu mudo. Não falo, silencio.

Hoje talvez me arriscasse a aumentar a área de contato entre nossos corpos e satisfazer a fome que sinto pela pele dela. Hoje… posso olhar no espelho e lembrar de como eu era aos 23 anos. Como estava aos 23. exceto por todo cabelo que alimenta sabe-se lá o quê no solo rico dos aterros sanitários anônimos, cemitérios de meus cabelos há dez anos. E, claro, as cicatrizes já mencionadas. Olho no espelho e do outro lado ele (que gosto de imaginar como um animal fabuloso que mimetiza meus contornos) olha de volta. No abismo de sua íris castanha vejo a menina e seu olhar expressivo e seus cabelos claros e sua pele fresca vindo em minha direção e minha esquiva falha e minha coluna que se flexiona e o calor de seus lábios queimando minha pele e, não, não mudo coisa alguma.

Game over.

fluxo

Me manter acordado é a preocupação. Puta sono me nublando a visão e tudo mais. Único colírio disponível não se cala e me desconcentra de suas tetas perfeitas. Cismou que pareço Booty, o cachorro morto, e é meio assim que me sinto, mas não dá pra evitar a pergunta, ele comia?, nada a ver com alimentação, só outro tipo. Olhos fora de foco, vesga momentaneamente, e não sei se tou vendo assim por causa do sono ou se é expressão de raiva, assimetria contrastando com sobrancelhas e cílios judiciosamente penteados. Outro contraste que me distrai de suas tetas perfeitas e quadris rebolantes é o preto na raiz dos cabelos, morena sufocada sob loira. Descanso sobre omoplatas, suor brotando, purgando toxinas, centros de energia em desarranjo. Ela corre a mão em meu peito e gasta algum tempo enrodilhando pêlos esparsos como quem formula um pavio mas, porra, já explodi, não sobrou combustível pra coisa alguma. Ela move lábios músculos faciais contraem-se voluntariamente e sinto formigarem, a seguir, corpúsculos de Krause, pequeno motim que contraria meu querer minha vontade o que quer que signifique. Fora do corpo agora. Visão ascendente. Me introduz, máquina de ossos velha, pistão, travelling subindo da vagina que me acolhe ao abdômen branco imaculado e penetro não só o véu físico, ultrapasso pro outro lado, movimentos quase-autistas de ir e vir, identidade diluída em vai-e-vem maior e caudaloso, novo esforço batendo velhos recordes, descarga de opióides endógenos, prazer primal e recompensa, pago sua energia, isso é pertencer. Ela também,eu sei, me sabe. Dura pouco mas o sono foi pra puta-que-o-pariu. Revigorado caralho murcho pernas frouxas e cansadas ombros mordidos e arranhados digo, não sou cachorro morto, porra. Eu amava o Booty seu escroto. Em revulsão corro pro banheiro sem levantar a perna abro a boca e ela me deixa.

conjuração

Mulher, definitivamente. Lábios e chocolate, maciez e ossatura, calor e jovialidade.

Eu: barba por fazer (clichê), barriga (gordura localizada, não chope), camiseta de caveira, bermuda, papete. Cabelos na lixeira do banheiro.

Mostro a capa.

Sorri.

Vamos preenchendo um silêncio que se tornaria constrangido se parássemos pra pensar.

Quem é você?

A pergunta só ocorre muito tempo depois. Um nome não define alguém, não é condição causal suficiente.

Perguntar como te chamam, tudo bem. Se for em francês, melhor.

Ela titubeia. Diz um nome, depois outro.

Válido.

Bianca. Rosemarie.

Nomes.

curta

A porta traseira abre e ele entra. Firma-se na posição sem segurar nada. Faltam as mãos. Sem-mãos, nomeio. Um filho da talidomida. Na altura do pulso onde me habituei a ver mão, só dedos vestigiais.

Reclama, Tá calor!, pra ninguém em particular. Agitado, empoleira e desempoleira dum cano cada vez que a porta abre e os passageiros descem.

Papagaio sem asas.

Metrô é melhor, Vaticina.

Entro na dele, sorrio.

Né não?

É sim.

Mas a gente tem que ir, então fazer o quê? Tu é de São Paulo.

Soa exatamente assim. Não pergunta, afirmação.

Sou sim.

Tu anda de skate?

Desgesticula, desfala, desfaz a hipnose que Lee Falk e Mandrake fizeram com um gesto hipnótico das mãos aeons atrás. Sem-mãos.

Não dá mais.

Trampo é foda. Aqui não tem onde andar de skate. Skate é esporte, né não?

Desgesticula. Sorrio pro sorriso dele. Neurônios espelho. Primeiro anel de poder. Consenso.

É esporte sim.

E tu não tá morto.

Verdade.

Ele senta. Eu sento.

Ele desce. Eu desço.

Em casa, desipnotizado, procuro meu skate. Apesar de nunca ter tido um ou de ter andado num. Desconfio da ilusão hipnótica e vou onde estão as rampas.

Sem as mãos, tá vendo?